terça-feira, 23 de junho de 2020

Mensagem expressa


Mensagem expressa

Ótimo! Levantara antes das seis. Leu os jornais de ontem que não tivera tempo. Tomou o desjejum. E, como quem sabe o que tem pela frente, cuida do dia.
Faz o trajeto de sempre. Sobe em direção à praia. Engraçado que a topografia da cidade contradiz as expressões do cotidiano: todinha plana, como subir?
Sem mais, vai pela rua onde fica o prédio, dobra à direita, dobra à esquerda, mais outra quebra à direita, e chega ao supermercado.
Pega o pão, integral na promoção. Queria ter forças, mas os olhos alcançam o descontinho do refrigerante de cola, mas dois? Retoma a lista, e escolhe a alface mimosa, e seleciona tomates quase maduros, e, inebriando-se, cheira laranjas, peras e maçãs.
Feita a compra, refaz o percurso, em sentido inverso.
Somando tudo: ida e volta; espera na fila do caixa; três palavras, à porta do edifício, com o zelador; higienização do que trouxe; livrar-se das roupas; banho tomado: trinta e três minutos.
O resumo do dia, conforme narra ao telefone.
O que o nosso bom informante não diz? Enfim, lupa não é para ler melhor o que se põe invisível a olho nu? Topamos o desafio?
Então, o cronista foi às compras, cumpriu o propósito de fazê-las e sentou-se sossegado, com um suspirozinho de dever realizado sem a afobação dos ansiosos.
No entanto...
No entanto, a boca que nada esconde nem se lembra de relatar que topou com uma pessoa conhecida na esquina do mercado.
E ela estava entregando a um rapaz malabarista de semáforo uma quentinha do restaurante onde eventualmente se esbarravam antes da Covid-19 impedi-los de tal socialização.
Mais ainda, a alma boa gentil que oferece comida estava sorrindo, como se pandemia não houvesse, como quem ama o próximo sobre todas as desgraças deste mundo.
O que o narrador da crônica também não quis falar é que a cidadã veio sorrindo, de braços abertos, louca, muito louca, sem a máscara da resignação e sem o gel da prudência. Evidentemente, motivada a compartilhar o sentimento de bem-estar, apesar do corona. Doida, tão doida, que se sentia livre o bastante para contaminá-lo com aquela alegria ávida de viver.
Foi portanto, à vista disso, que o fraterno mas nem tanto recuou; o fez num sobressalto, assim convicto de manter-se longe o suficiente para demonstrar a sua resoluta desconfiança da terapia do abraço.
Poxa, o sujeito é bacana, tenta ser útil como pode, mas deve fazer o que recomenda o senso científico do painel da moça da TV.
Logo, ao contar as novidades, melhor nem tocar no assunto. Para que botar mais medo em quem já tem o seu quinhão, de gente lúcida com leve hipocondria.
Concluindo: com o seu pijama amarelo candidamente pendurado no varal, o careca detalhista nem menciona a loja apinhada de caras terrificadas, uma vez que aqueles vinte e sete graus do solstício estão anunciando um dos mais tórridos invernos do século 21.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 23 de junho de 2020.

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