Mensagem
expressa
Ótimo! Levantara antes das seis. Leu
os jornais de ontem que não tivera tempo. Tomou o desjejum. E, como quem sabe o
que tem pela frente, cuida do dia.
Faz o trajeto de sempre. Sobe em
direção à praia. Engraçado que a topografia da cidade contradiz as expressões
do cotidiano: todinha plana, como subir?
Sem mais, vai pela rua onde fica o
prédio, dobra à direita, dobra à esquerda, mais outra quebra à direita, e chega
ao supermercado.
Pega o pão, integral na promoção.
Queria ter forças, mas os olhos alcançam o descontinho do refrigerante de cola,
mas dois? Retoma a lista, e escolhe a alface mimosa, e seleciona tomates quase
maduros, e, inebriando-se, cheira laranjas, peras e maçãs.
Feita a compra, refaz o percurso, em
sentido inverso.
Somando tudo: ida e volta; espera na
fila do caixa; três palavras, à porta do edifício, com o zelador; higienização
do que trouxe; livrar-se das roupas; banho tomado: trinta e três minutos.
O resumo do dia, conforme narra ao
telefone.
O que o nosso bom informante não diz?
Enfim, lupa não é para ler melhor o que se põe invisível a olho nu? Topamos o
desafio?
Então, o cronista foi às compras,
cumpriu o propósito de fazê-las e sentou-se sossegado, com um suspirozinho de
dever realizado sem a afobação dos ansiosos.
No entanto...
No entanto, a boca que nada esconde
nem se lembra de relatar que topou com uma pessoa conhecida na esquina do mercado.
E ela estava entregando a um rapaz
malabarista de semáforo uma quentinha do restaurante onde eventualmente se esbarravam
antes da Covid-19 impedi-los de tal socialização.
Mais ainda, a alma boa gentil que
oferece comida estava sorrindo, como se pandemia não houvesse, como quem ama o
próximo sobre todas as desgraças deste mundo.
O que o narrador da crônica também não
quis falar é que a cidadã veio sorrindo, de braços abertos, louca, muito louca,
sem a máscara da resignação e sem o gel da prudência. Evidentemente, motivada a
compartilhar o sentimento de bem-estar, apesar do corona. Doida, tão doida, que
se sentia livre o bastante para contaminá-lo com aquela alegria ávida de viver.
Foi portanto, à vista disso, que o fraterno
mas nem tanto recuou; o fez num sobressalto, assim convicto de manter-se longe
o suficiente para demonstrar a sua resoluta desconfiança da terapia do abraço.
Poxa, o sujeito é bacana, tenta ser
útil como pode, mas deve fazer o que recomenda o senso científico do painel da
moça da TV.
Logo, ao contar as novidades, melhor nem
tocar no assunto. Para que botar mais medo em quem já tem o seu quinhão, de gente
lúcida com leve hipocondria.
Concluindo: com o seu pijama amarelo candidamente
pendurado no varal, o careca detalhista nem menciona a loja apinhada de caras terrificadas,
uma vez que aqueles vinte e sete graus do solstício estão anunciando um dos mais
tórridos invernos do século 21.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 23 de junho de 2020.
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