quinta-feira, 25 de junho de 2020

O sabor do tempo


O sabor do tempo

Na mão esquerda uma laranja, vistosa de tão apetitosa; na outra, tão cheia de dentes que dá medo, uma faca. A quem o veja naquela pose talvez ocorra que esteja pensando na morte da bezerra. E que bezerra será essa que possa ter a cara à vista de quem lê?
O homem retirado da previsibilidade, posto que suspende o tempo ao gerar o vácuo do instante, de pergunta sem resposta, ele está se questionando: haverá jogo mais fútil do que, ao ver-se constrangido a dizer o que nem pensa, acabar ridicularizado por atender a vontade alheia ao presente?
O homem que se descobre submisso à tamanha inquietude que o paralisa, ó doce ilusão, assegura-se íntegro ao afigurar-se o pensador com a faca e a laranja nas mãos.
Sim, um coração como o dele, de homem que se revela parado a sustentar o gesto de abandonar-se aos próprios devaneios, ele pulsa a criança implicante quando há tentativas de cerceamento.
Sim, o homem alimenta-se da infância que traz dentro do peito, na bufada a contragosto, na arrebentação do ar para fora, que o suspiro vem com a pujança de menino contrafeito.
Este sentimento rebelde acorda-o para o mundo desconhecido, de inexperiente afeito aos sustos do aprendizado, de quem surpreso ao desvendar viva dentro de si outra pessoa.
A pessoa que se permite estar consigo mais do que um segundo nem liga manejar a lâmina a favor, no corte preciso, para que a casca retirada libere o desfrute do sumo da laranja, como sobremesa sutil.
Quer a satisfação do fruto maduro, a felicidade de fruta colhida na plenitude. Sem a pressa a qualquer preço, que azeda de ácido.
No abismo do desamparo, feito pedra no tênis, a realidade dispara a imagem que incomoda: o fogão. De fato, aquilo está imundo.
A pessoa que resiste teve mesmo que aprender por si a ser dona do próprio nariz, do tempo que pode dar a si, da laranja e da faca nas suas mãos, porque o mundo vai em frente, então, que siga, prossiga e vá como lhe aprouver.
As veredas de sua mente estão respirando pelo corpo tenso, com o mistério do reconhecimento do mesmo ser que tivera cabeleira de menino, dentes de leite, joelhos sem cicatrizes, miopia em dicionário, e a alegria de poder diferenciar a lima do limão.
Outra vez, interpondo-se como formiga cortando barata morta, tem a imundície do fogão a primazia do nojo. E enojado, suspira. O ombro prevê o esforço de esfregar o desengordurante com a buchinha e, por necessidade, pedir o reforço da palha de aço. E tasca mais a química do sapólio, da água sanitária, numa trabalheira do cão.
Mas, além disto?
Já que o tempo não para, o homem entrega os pontos, aceita que ficar corroendo-se não vai impedir o desenlace, o que vem.
Entre a humilhação do agrado que motiva o desprezo e a firmeza na integridade que preservará a dignidade, o homem chupa a laranja com bagaço e tudo.
Tudo? É certo que as sementes dão gosto de futuro.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 25 de junho de 2020.








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