O
sabor do tempo
Na mão esquerda uma laranja, vistosa
de tão apetitosa; na outra, tão cheia de dentes que dá medo, uma faca. A quem o
veja naquela pose talvez ocorra que esteja pensando na morte da bezerra. E que
bezerra será essa que possa ter a cara à vista de quem lê?
O homem retirado da previsibilidade,
posto que suspende o tempo ao gerar o vácuo do instante, de pergunta sem resposta,
ele está se questionando: haverá jogo mais fútil do que, ao ver-se constrangido
a dizer o que nem pensa, acabar ridicularizado por atender a vontade alheia ao
presente?
O homem que se descobre submisso à
tamanha inquietude que o paralisa, ó doce ilusão, assegura-se íntegro ao
afigurar-se o pensador com a faca e a laranja nas mãos.
Sim, um coração como o dele, de homem
que se revela parado a sustentar o gesto de abandonar-se aos próprios
devaneios, ele pulsa a criança implicante quando há tentativas de cerceamento.
Sim, o homem alimenta-se da infância
que traz dentro do peito, na bufada a contragosto, na arrebentação do ar para
fora, que o suspiro vem com a pujança de menino contrafeito.
Este sentimento rebelde acorda-o para o
mundo desconhecido, de inexperiente afeito aos sustos do aprendizado, de quem
surpreso ao desvendar viva dentro de si outra pessoa.
A pessoa que se permite estar consigo mais
do que um segundo nem liga manejar a lâmina a favor, no corte preciso, para que
a casca retirada libere o desfrute do sumo da laranja, como sobremesa sutil.
Quer a satisfação do fruto maduro, a
felicidade de fruta colhida na plenitude. Sem a pressa a qualquer preço, que
azeda de ácido.
No abismo do desamparo, feito pedra no
tênis, a realidade dispara a imagem que incomoda: o fogão. De fato, aquilo está
imundo.
A pessoa que resiste teve mesmo que
aprender por si a ser dona do próprio nariz, do tempo que pode dar a si, da
laranja e da faca nas suas mãos, porque o mundo vai em frente, então, que siga,
prossiga e vá como lhe aprouver.
As veredas de sua mente estão
respirando pelo corpo tenso, com o mistério do reconhecimento do mesmo ser que
tivera cabeleira de menino, dentes de leite, joelhos sem cicatrizes, miopia em
dicionário, e a alegria de poder diferenciar a lima do limão.
Outra vez, interpondo-se como formiga
cortando barata morta, tem a imundície do fogão a primazia do nojo. E enojado,
suspira. O ombro prevê o esforço de esfregar o desengordurante com a buchinha
e, por necessidade, pedir o reforço da palha de aço. E tasca mais a química do
sapólio, da água sanitária, numa trabalheira do cão.
Mas, além disto?
Já que o tempo não para, o homem
entrega os pontos, aceita que ficar corroendo-se não vai impedir o desenlace, o
que vem.
Entre a humilhação do agrado que
motiva o desprezo e a firmeza na integridade que preservará a dignidade, o
homem chupa a laranja com bagaço e tudo.
Tudo? É certo que as sementes dão gosto
de futuro.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 25 de junho de 2020.
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