Ensaio
ao vivo
Quando o palco continua ocupado por
uma noite que não acaba, o sonho pede outro fôlego.
As esferas do mundo vão girando à
vontade, lá delas, cuja lógica foge ao entendimento da pessoa que observa a
rua. Da sacada, onde se imagina protegido de febres, fezes e garras, dali o
olhar insone, de escandalizada miopia, vê o imprevisível jorrar do nada. Fosse mesmo
útil, pagaria pelo passível da obediência ao calendário que a folhinha mantém
domesticada, iria dirigido pelo fluxo.
Por contaminação doentia, por conta
desta planetária calamidade sanitária, vai a desconsiderar que portas servem a
entradas e saídas. Se jura o que sabe, barganha o que pode; assim, com sua
cidadania presa aos rodopios da vertigem, saca que tipo de franquia devota às
agências, e pena.
Em outras palavras, o animal acuado padece
de tanta angústia, do iminente adiado mais um tanto, da falta de ar que
desespera. Afinal, o elástico, uma vez submetido ao ímpeto que o estressa na
medida do suportável, desajusta-se, perde a plasticidade, acaba distendido.
Menos controlável, o vento não sopra. As
águas do dia correm no meio-fio, movidas por regras desconhecidas, imemoriais,
de origem caótica. Pouco compreensível com as leis da natureza, mostra-se.
Assim, de umbigo lavado, unhas
cortadas, tomando ar, vendo sua rotina tomada de outras normalidades, a mente
da pessoa precisa de um tempo. Nem que seja só por um segundo, uma coisinha
besta que nem mosca percebe atraente, merecedora do azul de suas picadas.
A perda do equilíbrio entra pelo
passivo de um incômodo maior do que o rendimento da esperança, aí, quando a
memória destila algum sentido. É neste trecho, neste ponto em que o dinheiro:
compra o que pode; venda o que deve; apaga o que tolera; ascende o que aceita;
e o que oferece, segrega; o que precisa, segreda; o que toca, silencia. Há repasses
que atormentam, alucinam, transfiguram.
Agastada, por haver-se no quinhão dos
vencidos, busca saber-se: será cínica a pessoa que só admite a hipocrisia ao
renegar os vícios enquanto os pratica?
O corpo que sente o senso está
lembrado que a manhã de ontem teve outra levada. Tinha sol. As máquinas mudaram
o chão com novo piso: asfaltaram-no, alisaram-no, compactaram-no.
No bemol da terça às três, dá tônica o
sustenido.
Do outro lado da rua, na varanda com
plantas e cadeira de praia, ali está o homem. Debruçado sobre o mundo, avesso a
burburinhos, arrisca-se. E senhor de si, inspira pelo violão.
O mundo, o violão que não se escuta. A
vida, o trânsito que ignora o olvido. A música, o coração aberto ao trágico. A
dor, osso que tira o não do nylon.
E cá, serve-se o pinhão do café. À
mesa, pai e mãe, avôs e avós, parentes de parte a parte, amigas, amigos. E há
lugar a quem trouxe leite, açúcar e os analgésicos. Mortos, vivos e feridos.
Quando o instante inventa, soa feito
agora.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 11 de junho de 2020.
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