A
próxima crônica
Muito
me engano por acreditar no que faço?
Como resposta, retomo as palavras que
estão num texto que se afogou numa entrelinha qualquer: “Por não ter o que
dizer, digo. Não me preocupo com a mensagem a passar, escrevo. Ponho no papel o
que o texto vai propondo. Feito, debruço-me sobre o escrito”.
Mas, como a cachola tem mais coelhos
que os olhos possam ver, retomo o fôlego, recupero os sentidos e trato de me
retratar, pois isso talvez me ajude a pensar com vagar, pondo na reflexão o
cuidado de alisar as rugas, puxando o fio que se enovela com facilidade, dando
o simples como bem acabado. Possivelmente acabado, no instante em que o ponto
surge como limite definidor do que tinha que ser dito.
Não escrevo para me sentir bem, eu
escrevo. Não me sinto bem depois de escrito? Até posso me sentir bem, mas não a
princípio. Não escrevo porque acredito estar fazendo um bem, nem confio assim
no que escrevo. Volto a dizer, escrevo. Entre escrever e acreditar, então,
borbulham a autoestima, a autoconfiança e a vaidade.
Das três, preciso confiar em mim o
bastante para estar atento ao que o texto quer dizer, independentemente de
minhas crenças, de me afiançar depositário fidedigno de que possa estar agindo
em nome de um bem a ser feito. Como se minha palavra fosse mesmo uma fonte
confiável o suficiente para assegurar a validade da mensagem que o texto
aparentemente quer transmitir a quem lê.
O texto diz o que tem para ser dito
como precisa que seja dito.
Em outras palavras, as minhas
habilidades e competências, como escritor e de escritor que lê o próprio
escrito, podem e precisam estar a serviço da escuta do que o texto diz. Não
posso nem preciso fazer com que o escrito diga o que quero ouvir. Meu trabalho
é possibilitar que o texto tenha voz própria, que a linguagem torne-se esta
voz, que as palavras digam o que nem acredito poder dizê-las enquanto estou
escrevendo. Afinal, o texto vai deixando-se dizer; e, depois de escrito,
torna-se outro, dizendo o que tem para dizer a quem o lê.
Não sou quem faz, estou no que faço.
Estou a fazer-me. Enquanto faço, faço-me. Mas, ao fim e ao cabo, não estou
inteiramente aí. Não como abreviação de mim, pois não sou o que fiz de mim
enquanto ia fazendo. A fabricar-me com ideias, palavras, atribuindo valores, tendo
umas certezas, voláteis e significativas.
A escrita do escrito diz que o
escritor existe enquanto escreve.
Nem ontem nem amanhã, no ato.
Pondo-me à disposição do que ando compondo.
Nada menos que o processo, o
movimento, este ir-se que não se percebe, passando pelo que não se vê, e vai
seguindo pelo que não se sentia até então. Do inaudito pelo interdito, o
inédito. O trânsito, o transe, a transmutação. O inventar-se como quem sonha, o
sonhar-se como quem deseja, o desejar-se como quem se inventa.
De novo, e de novo. Não para que
chegue, mas para que venha.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 18 de junho de 2020.
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