Irremediável
esperança
Apesar do barulhão, espia a rua que
logo estará novinha em folha. Trazem, em pó, a brita escura; assentam-na com
maquinário pesado, pra dar trânsito a automóveis computadorizados.
Na varanda empoeirada, a boa alma não
boceja nem espreguiça, recolhe do outono a brisa da manhã. Mais outra manhã.
De friozinho bom pro café que toma
sozinha. De preferência, em pé, escorada no quadril que avisa que a pia tem solidez.
De concreto, a incerteza. Do pouco que imagina, muito padece.
Vai um homem, ressabiado, canário de
bico engaiolado. Vem uma mulher, cansada, andorinha de asas recolhidas. Como nem
vem nem vai, a confinada janela. E toma café, afeita a umas tristezas.
Sim, a isolada preocupa-se. Quer a
praia de volta, o calçadão pra caminhada, o torresmo na esquina, o papo na
tarde. Quer-se a beijos e abraços com quem ama. Sim, pede o armistício.
Que o chão tenha sua órbita. Que a
mecânica do sistema vá pelo cosmos. Que a galáxia siga uma maravilha. Sem
culpa, só precisa do seu espaço pra degustação do café.
Àquela hora e naquele lugar, como a
urgência que faz o cão rodar às pernas do dono em busca do centro do mundo, para
defecar e sair de perto. Naquele instante e àquele lado, o homem usa a areia da
rua em obras pra cobrir os dejetos do bichinho agitado.
Irmanada ao latido irrequieto, com a sua
caneca por beber.
A caneca laqueada, em cuja lateral há
um dragão desenhado com esmero, rico em detalhes, com as chamas pretas de
linhas pintadas, ondas milimetricamente paralelas, o requinte de um pincel
dominado, praticante de uma técnica rigorosa. Um presente.
A pessoa que pode tomar o seu café com
a pose de quem domina a si mesma nem valoriza o realismo daquele dragão
monocromático. Todavia, não consegue segurar-se, sofre medos e aflições. Dá a vida
àquela engrenagem que nem liga pra felicidade da gente.
Pode curtir o café, mas não precisa
mudar de jeito algum. Porque não vai ter vírus que a impeça de comover-se com os
invisibilizados, suprimidos da visão, os que sonham com bolinhos de chuva na
fome escancarada. Pois não faz cara de paisagem, isso não.
A cara. Eis um aprumo pra esta prosa
toda.
E lá vem a mascarada do pandemônio. E
não há jardins da mente, esse paraíso artificial, que tirem do mundo a dignidade
que caminha o seu pedaço debaixo de pano branco. E lá vai o epicentro da
comédia, um ser de mãos atadas, sobretudo calejadas, na tragédia que tanto o quer
desumanizado.
A máscara não protege o rosto do
estrume coberto de progresso. Não há disfarce que esconda o mofo das laranjas
estocadas. Que as pessoas andam, ainda que humilhadas e ultrajadas; rumam por seu
norte, recusando-se outro cálice de fel ao desdém.
Numa lógica cruel, a roda desaba a caneca,
trinca, solta lascas. E acabar assim? Mesmo nestes dias abissais, de
assombrações, há de haver um leito para apreciadores de café.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 28 de maio de 2020.
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