domingo, 14 de junho de 2020

Hora da faxina


Hora da faxina

Comecemos pelo homem de quatro, entregue à banalíssima tarefa de esfregar o chão que fica debaixo do fogão. Como cozinhar com os fogareiros imundos, gordurosos, repugnantes?
Dispensemos acompanhá-lo.
Entremos pela imagem bucólica, nostálgica, amorosamente pueril: a criança petrificada pela câmera, que o fotógrafo das muitas famílias ibiunenses mantinha a postos: por tripé profissional, lente correta e a luz alfabetizada pelos dois guarda-chuvas pintados de prata.
Reparemos na postura do menino.
Com o cabelinho escorrido da esquerda para a direita; com os pés no ar, porque o corpo está apoiado numa trave de madeira, como se o objeto replicasse os bancos de igreja.
Para que sujar a calça de tergal naquela pose, não fora o bastante ter obedecido ao senta-levanta da missa dominical?
Admitamos, todavia: há semelhança com um confessionário. Com o padre para lá da treliça, e o pecador a elencar, de joelhos, as ações vexatórias, deveras merecedoras de divinas correções.
Uma vez que o preto e o branco do registro não escondem os idos de 1974, ano da primeira comunhão do referido pirralho, realcemos o terço envolvendo o livrinho a catequizá-lo para as castidades futuras, conforme às boas-novas da performance do padrão.
Se houvesse aprendido que o probo não peca, diríamos mínima a probabilidade de ato tão infame posto em outra foto da personagem enfocada: novamente ajoelhada, a perpetrar aquele sorrisão de quem gargalha, blasfema, em desrespeito que dá engulhos só de admiti-lo, já passados doze anos, tempo da maturação de um Chivas original.
Enfatizaríamos que a dita cuja pessoa andava abjurada por Minas, nalguma igreja histórica, diabolicamente nada contrita, como a dizer a quem pesque sua mensagem: sei bem com quantos escravos o ouro rococó mantém-se de pé para embasbacar os fariseus.
Aviso: o narrador dá fé que não subscreve tal pensamento.
Continuemos, portanto.
Havemos de concluir o passeio por umas fotos retiradas ao museu do tempo com o acaso do flagrante capturado, em junho de 2020, por Nuno Ferreira Santos, jornalista do Público, o qual dá-nos a ler que: a estampa ostenta o vigário que empunha a Cruz-sem-Cristo mais três curumins: um, em pé, junto à perna direita; outro, igualmente em pé, à esquerda; o terceiro, o que motiva a pô-lo em palavras, o avesso ao paralelo da simetria ao Vieira possesso, o rubro da pedra que acorda, o que bate no palco Trindade Coelho, ele é.
À vista disso, imbuída de veementes aviões, coléricos caminhões e amazônicos fogões, esta crônica denuncia que apenas aquecendo a Terra para que leviatânicas águas recubram a Candelária do Rio.
Assim, faz-se escandaloso o adiamento de mergulhar a escadaria ou haverá quem finque o pé em não reconhecer a beleza civilizatória, turística formosa de um coral, este bem natural.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 14 de junho de 2020.

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