Cronicamente
humana
Por amor à humanidade, quem poderia
muito bem estar narrando a crônica está meio inquieto, andando pausadamente,
disposto a não despertar a curiosidade dos passantes. Pois é, a pessoa que
poderia estar narrando está numa esquina movimentada da avenida, ali, num lugar
estratégico, bem na entrada daquela galeria em que se vendem camisetas com os
mais quentes slogans políticos do momento e há aquele restaurante cujo chopinho
vem com um colarinho densamente saboroso. Sim, sim, o ponto é deveras relevante
para observações de campo, porque todo tipo de gente não para de passar. Ou
seja: basta um pouco de paciência, olho clínico para a coisa e, voilà, obtém-se
o registro do que realmente interessa. Por isso, pelo amor ao próximo e à
bisbilhotice mundana, quem fica se ocupando com a fisionomia dos transeuntes não
faz caso de contar.
Em vez desta prosa que pisca à amiga
leitora e ao amigo leitor, a pessoa dedica-se a acreditar que está oculta atrás
do recato da sua presença. Contudo, as demais que se veem obrigadas a desviar não
resmungam nem gastam saliva com impropérios ou zombarias.
Elas procuram evitar quaisquer tipos
de choque, o frontal quando desatentas ou os esbarrões, uma vez que a pessoa
que deveria estar mais esperta fica viajando por um universo paralelo.
Aparentemente, pois a pessoa solta um
palavrão assim que ouve alguém questionando a razão dos ônibus lotados em plena
crise do corona, como se houvesse um quê de loucura coletiva em insistir em
ganhar dinheiro para o pão com queijo de cada dia.
Pensando melhor, mesmo o pão de queijo
que está comendo tem o sabor indigesto de algo bom feito na hora errada. A
pessoa que não está narrando quer doar o saquinho inteiro, comendo só aquele
que já tinha dado uma boa mordida. Afinal, é preciso ter consciência.
Assim, certa de ter passado a agir
para o benefício da sociedade em geral, ela acende um cigarro e senta-se para
fumar sem pressa. De pernas cruzadas, pigarreando de vez em quando, cuidando limpar
umas sujeirinhas embaixo das unhas, passa a escutar o que a fila da lotérica
anda comentando.
Alguém reclama, com o ardor dos
inconformados, que uma vizinha que vende bolo caseiro no portão lá do shopping
vem recebendo sem atraso a parcela emergencial do governo e ela nada de ver pingar
um tostão na conta, mesmo tendo feito o cadastro com dois nomes, o de solteira
e o de casada.
A pessoa que não está narrando, por uma
solidariedade exemplar, acha legítima a indignação da mulher que critica a incompetência
do governo que nem para ajudar quem mais precisa faz isso direito, na rapidez com
que a fome vem comendo os estômagos do país.
Precisa ter atitude.
Mesmo que pensem que está sendo espertalhona,
a pessoa que gostaria de estar narrando escreve num pedaço de papelão:
OUÇO AS SUAS DORES.
E uma meninota corre ser a primeira.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 30 de junho de 2020.
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