terça-feira, 30 de junho de 2020

Cronicamente humana


Cronicamente humana

Por amor à humanidade, quem poderia muito bem estar narrando a crônica está meio inquieto, andando pausadamente, disposto a não despertar a curiosidade dos passantes. Pois é, a pessoa que poderia estar narrando está numa esquina movimentada da avenida, ali, num lugar estratégico, bem na entrada daquela galeria em que se vendem camisetas com os mais quentes slogans políticos do momento e há aquele restaurante cujo chopinho vem com um colarinho densamente saboroso. Sim, sim, o ponto é deveras relevante para observações de campo, porque todo tipo de gente não para de passar. Ou seja: basta um pouco de paciência, olho clínico para a coisa e, voilà, obtém-se o registro do que realmente interessa. Por isso, pelo amor ao próximo e à bisbilhotice mundana, quem fica se ocupando com a fisionomia dos transeuntes não faz caso de contar.
Em vez desta prosa que pisca à amiga leitora e ao amigo leitor, a pessoa dedica-se a acreditar que está oculta atrás do recato da sua presença. Contudo, as demais que se veem obrigadas a desviar não resmungam nem gastam saliva com impropérios ou zombarias.
Elas procuram evitar quaisquer tipos de choque, o frontal quando desatentas ou os esbarrões, uma vez que a pessoa que deveria estar mais esperta fica viajando por um universo paralelo.
Aparentemente, pois a pessoa solta um palavrão assim que ouve alguém questionando a razão dos ônibus lotados em plena crise do corona, como se houvesse um quê de loucura coletiva em insistir em ganhar dinheiro para o pão com queijo de cada dia.
Pensando melhor, mesmo o pão de queijo que está comendo tem o sabor indigesto de algo bom feito na hora errada. A pessoa que não está narrando quer doar o saquinho inteiro, comendo só aquele que já tinha dado uma boa mordida. Afinal, é preciso ter consciência.
Assim, certa de ter passado a agir para o benefício da sociedade em geral, ela acende um cigarro e senta-se para fumar sem pressa. De pernas cruzadas, pigarreando de vez em quando, cuidando limpar umas sujeirinhas embaixo das unhas, passa a escutar o que a fila da lotérica anda comentando.
Alguém reclama, com o ardor dos inconformados, que uma vizinha que vende bolo caseiro no portão lá do shopping vem recebendo sem atraso a parcela emergencial do governo e ela nada de ver pingar um tostão na conta, mesmo tendo feito o cadastro com dois nomes, o de solteira e o de casada.
A pessoa que não está narrando, por uma solidariedade exemplar, acha legítima a indignação da mulher que critica a incompetência do governo que nem para ajudar quem mais precisa faz isso direito, na rapidez com que a fome vem comendo os estômagos do país.
Precisa ter atitude.
Mesmo que pensem que está sendo espertalhona, a pessoa que gostaria de estar narrando escreve num pedaço de papelão:
OUÇO AS SUAS DORES.
E uma meninota corre ser a primeira.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 30 de junho de 2020.

Nenhum comentário:

Postar um comentário