terça-feira, 9 de junho de 2020

Um autêntico cântico


Um autêntico cântico

Ora, quer maior prova de vida do que um grito?
Ora, como quem grita a toda hora perde audiência, é razoável ter cativos na plateia somente os imbecis, ou os péssimos de ouvido.
Ora, quem grita no momento oportuno cavalga bem o cavalo que o carrega. E quando observado de perto, exibindo a beleza dos seus músculos, trota; e farejando um obstáculo que exija cálculo, quando submetido a forças que o querem testar, salta; e campeia, entretanto, quando se vê nos prados selvagens das vontades muito aguçadas.
Ora, quando o ar pesa um bocado, os braços não podem entregar o osso, uma vez que é preciso levar o mundo nas costas.
Ora, o sacrifício pede uma mãozinha, pois, pelo pouco que sabem da faca e do fogo, o cordeiro, a cabra e a galinha não temem nada as manipulações dos adestrados com ar vidrado, de transtornado.
Ora, há pessoas que adaptam o ar que controlam, há quem possa adaptar-se ao ar que consome, e tem gente obrigada à adaptação ao ar que a aniquila.
Ora, honestamente, medo algum angustia, só padece quem sofre, diz a boca cheia de dentes, com o seu hálito de hortelã.
Ora, há quem diga que o circo precisa seguir funcionando a pleno vapor, que sobe do pântano, arde nas narinas e irrita os olhos, e que atordoa, desfalece e mata.
Ora, que se avente a hipótese de uma ideia vingar antes do parto, que a prática corte pela raiz o pensamento contrário aos fatos, que os eventos contem outra história, gentil a quem gargalha enquanto crava na caveira o punhal de destrezas, crenças e privilégios, feito regalo.
Ora, se for mesmo para abrir o jogo, que a verdade venha em uma bula, passe pela lupa dos prestidigitadores e converta infiéis e ímpios; embora os bobos, sempre eles, continuem a brincar com malabares, até que a boca ganhe uma nova costura, a mão nem precise mais de pinos e a grade enquadre o sol, instituindo o inferno aos condenados.
Ora, pra manter o prestígio de galo que faz a alvorada cantar a luz de sua glória esplendorosa, é preciso aquecer as cordas vocais com o ardor da iluminação tântrica de quem está a ponto de explodir.
Ora, como quem vive gritando fica sem voz, nesse ritmo em que a coisa toda está indo, vamos entrar bem antes da curva, precipitando a banguela do morro, uma vez que a subida anda puxada para quem tem dificuldades respiratórias desde o ventre.
Ora, enquanto for possível, melhor cuidar da garganta pra quando o instante decisivo vier, ou se ouvirá um miadinho trágico.
Ora, o ar envenenado que nos empesteia a todos, o ar viciado que nos confina entre os muros, o ar asfixiante que nos isola de nós, arf!, é melhor abrir janelas e buracos no paredão pra desfrutar da brisa do mar que ainda sopra.
Ora, como quem grita muito torra o saco, não falte entusiasmo pra não queimar o filme do grito neuroticamente assombroso.
Como gritar da sacada do apê parece coisa de criança, oremos.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 09 de junho de 2020.

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