Servidão
voluntária
A situação desagradável acontece. Quando
a torcida é pra que não aconteça, a expectativa é frustrada pra que as ironias
do destino sejam aventadas. Menção e ânsias têm um dedo sobre as arapucas do
dia a dia, então dores de cabeça são desagradáveis.
O tamanho do dedo depende da latência na
massa encefálica. Bem receber massagem nos pontos nevrálgicos que tanto agoniam
faz para merecer a identificação: dedo de anjo.
Corto as asas, porque a prosa pouco tem
de angelical. O que tenho são dedos doloridos, pois os usei mal ao soltar o
arame da gaiola que envolve a caixa d’água.
Por que cargas o universo tem que se desvelar
pirracento ao aduzir ratos pelo ladrão? Sempre tem um que se afoga.
Para minha desgraça e desespero,
descubro o bicho morto na caixa quando a água não chega ao chuveiro ― terei de
trocá-lo.
Desta vez, a precisão é de outra boia. Então,
aqui, a dor de cabeça me abana pelo rabo.
Se fossem outras circunstâncias, você
pensaria que a cabeça que dói pede que falem baixo, não falem alto e parem de
gritar. Porque não passa, você dá jeito. Se olhasse pra trás, saberia que há
fumantes que rezam para alguém dar o primeiro passo. Com tantas desventuras por
narrar, há fumantes tagarelas. Cordato por educação, você parabeniza o universo
por possibilitar-lhe essa convivência tão humana.
Cruel seria cobrar palavras solidárias
de quem não tem motivo para pensar em rato entalado num cano de casa. Mas a
natureza tem regras próprias, faz das suas como se nada de sarcástico
ocorresse, como se o aleatório da vida não fosse a discrepância a ser
contabilizada, como se rato morto numa caixa d’água não implicasse em ser um
dado real, e só entrasse na história feito metáfora para náusea existencial.
Neste ínterim, pela compreensão do que
seja nojento e repugnante e intragável, porquanto o poder da palavra está no
alcance que a leitura proporciona, a sua dor de cabeça confunde-se na minha.
Façamos a faxina necessária.
Uma vez que o universo põe no caminho
esses fumantes que nem se tocam que a pessoa que sai para fumar quem sabe
precise refugiar-se no incomunicável d’alma, tenhamos em mente que o mundo roda
e gira, vai o dia, vem a noite, gira no dia, roda à noite, o vaivém é tudo.
O passo adiante pede a firmeza de dar obra
às mãos.
Vassoura de piaçava? OK. Sabão em pó?
OK. Braços para que vos quero? OK. A serviço da própria vontade? OK.
É certo?
Neste instante, o cronista empoleirado
no telhado sabe: amanhã vai doer a nuca, as coxas restarão doloridas, os
músculos do pescoço vão estar retesos; todavia o rato entalado haverá de jazer
no passado, terá de estar memorizado; como farpa que incomode quando rememorado,
não será somente asqueroso querer celebrações pelo asco produzido, será ignominioso
trazê-lo a lume em comemoração, uma vez que esse desejo de dar uma conchinha desse
beber dá repulsa.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 16 de julho de 2024.