terça-feira, 16 de julho de 2024

Servidão voluntária

 

Servidão voluntária

 

A situação desagradável acontece. Quando a torcida é pra que não aconteça, a expectativa é frustrada pra que as ironias do destino sejam aventadas. Menção e ânsias têm um dedo sobre as arapucas do dia a dia, então dores de cabeça são desagradáveis.

O tamanho do dedo depende da latência na massa encefálica. Bem receber massagem nos pontos nevrálgicos que tanto agoniam faz para merecer a identificação: dedo de anjo.

Corto as asas, porque a prosa pouco tem de angelical. O que tenho são dedos doloridos, pois os usei mal ao soltar o arame da gaiola que envolve a caixa d’água.

Por que cargas o universo tem que se desvelar pirracento ao aduzir ratos pelo ladrão? Sempre tem um que se afoga.

Para minha desgraça e desespero, descubro o bicho morto na caixa quando a água não chega ao chuveiro ― terei de trocá-lo.

Desta vez, a precisão é de outra boia. Então, aqui, a dor de cabeça me abana pelo rabo.

Se fossem outras circunstâncias, você pensaria que a cabeça que dói pede que falem baixo, não falem alto e parem de gritar. Porque não passa, você dá jeito. Se olhasse pra trás, saberia que há fumantes que rezam para alguém dar o primeiro passo. Com tantas desventuras por narrar, há fumantes tagarelas. Cordato por educação, você parabeniza o universo por possibilitar-lhe essa convivência tão humana.

Cruel seria cobrar palavras solidárias de quem não tem motivo para pensar em rato entalado num cano de casa. Mas a natureza tem regras próprias, faz das suas como se nada de sarcástico ocorresse, como se o aleatório da vida não fosse a discrepância a ser contabilizada, como se rato morto numa caixa d’água não implicasse em ser um dado real, e só entrasse na história feito metáfora para náusea existencial.

Neste ínterim, pela compreensão do que seja nojento e repugnante e intragável, porquanto o poder da palavra está no alcance que a leitura proporciona, a sua dor de cabeça confunde-se na minha.

Façamos a faxina necessária.

Uma vez que o universo põe no caminho esses fumantes que nem se tocam que a pessoa que sai para fumar quem sabe precise refugiar-se no incomunicável d’alma, tenhamos em mente que o mundo roda e gira, vai o dia, vem a noite, gira no dia, roda à noite, o vaivém é tudo.

O passo adiante pede a firmeza de dar obra às mãos.

Vassoura de piaçava? OK. Sabão em pó? OK. Braços para que vos quero? OK. A serviço da própria vontade? OK.

É certo?

Neste instante, o cronista empoleirado no telhado sabe: amanhã vai doer a nuca, as coxas restarão doloridas, os músculos do pescoço vão estar retesos; todavia o rato entalado haverá de jazer no passado, terá de estar memorizado; como farpa que incomode quando rememorado, não será somente asqueroso querer celebrações pelo asco produzido, será ignominioso trazê-lo a lume em comemoração, uma vez que esse desejo de dar uma conchinha desse beber dá repulsa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de julho de 2024.

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