Sol
maior
Doze anos atrás não me via carente de cuidados,
menos ainda que os eletrônicos de casa padecessem por minhas obsessões.
Nesse tempo, pagava que reparassem a
memória, trocassem fonte queimada, reconfigurassem teclado, tornassem-me apto novamente
a trabalhar das sete às sete, domingos adentro.
Assim como uísque pega gosto pela dormência
em tonel de lei, não atinava que a labuta fosse gota a tocar na mesma nota: eu resistisse
o mais que aguentasse, embebedado mesmo apenas quando precisado da afinação, a
pedir que me tensionassem na corda lasseada.
Por não levarem à perfeição, obsessões fundem-se
na cuca.
Porque não falava de meus excessos com
fumo e carne seca, afinal me achava dono dos secos e molhados que fornece mais
e mais carne seca à gente que, já pilhada no desjejum, masca sisal de embalagem,
não estatelei estável no estaleiro, sim, eu flutuava bem fundido.
Bastante fundido, dava papel ao lápis.
Não pedia outra coisa, escrevinhava. Marujo
refugiado na poltrona, condenado à intemperança pelo apego ao meu uísque, rabiscava.
Para me aliviar dos enjoos, estimulava a úvula. Pra que mais escrevinhasse, recusava
naufragar. Me fiz em vírus a remediar o sistema na máquina, que a mão comandada
digitalizava a cachola.
Folhas e folhas tomadas: quede
descarrego a alegrias?
Mal dormia e mal comia. Carecia tanto de
que bem eu me acudisse. Papageno perdido de Papagena? Mal pensava que bem
pensava. Daí, comia mal, dormia mal, cantava por mal o que mal cantasse.
Há doze anos, perdi-me da flauta.
― Você precisa de exercício físico; indicou
o meu Freud.
― Você precisa da família; cogitou-me a
cognitiva.
Pelo calçadão, minha mãe ia comigo nos cinco
quilômetros.
Se comigo não ia fisicamente, pela vivência
articulada nas imagens, era sombra.
Mamãe não estava preparada para suster o
afã de queimar os meus rabiscos. E toda minha prosa escrita em sete anos, de outubro
de 2012 a agosto de 2018, queimei-a.
Toquei fogo em tudo que escrevi entre
dezesseis de outubro de dois mil e doze, dia em que eu pedi exoneração, e o dois
de agosto de dois mil e dezoito.
Toquei, pois me desvelei piromaníaco num
dos cadernos que usei para registrar meu dia a dia, uma vez que segui à risca o
proposto pela psicóloga que me orientava à época.
Com autonomia incrível, a cachola faz
recordar o que nem preciso rememorar e faz apagar o que esperam que não
esqueça.
Assim, a amiga irreprimível me fez achar
o papel em que observara: sendo o mundo um iceberg ao léu, para responder responsavelmente,
preciso me abrir à passagem.
Tal anotação foi escrita em 02/08/2018, pois,
lendo Coincidências, de Paulo Mendes Campos, chocaram-se imbecilidade
com divagação.
Em vez de afogar-me, nadei pra viver, nadei
pra escapar, nadei até o lápis voltar ao papel da minha vida, nadei pra sentir
que fiz que o gelo no uísque boiasse até secar.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 11 de julho de 2024.
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