terça-feira, 2 de julho de 2024

Milonga do bonachão camarada

 

Milonga do bonachão camarada

 

Posso parar a um passo da porta. Eu não preciso atender só porque tocaram a campainha. Posso esperar, quem sabe desistam. Creio que a desistência torna as pessoas mais humanas, que elas podem avaliar o que valha a pena de ser abandonado.

Não havendo precipitação, e sem que me desculpe, posso frear-me à porta de um remorso, até porque muito orgulha eu não me sujeitar a campainhas.

Quando espio pelo olho mágico, há controle. O ímpeto de resolver de vez é refreado, assim me liberto na volúpia, na ânsia em querer dar azo a esse que veem em mim.

Me domino porque sou voluptuoso.

Abro a porta. Convido que entre. Sente-se onde queira. Ofereço um cafezinho, biscoitos, talvez role um provolonezinho.

A pessoa recusa tudo, ficará à porta porque tem pressa. Pra chegar aos finalmentes, irrita-se com o papo furado.

― Ficou sabendo que a gente precisa trocar o RG, né?

Quem viveu na pele os sessenta e tantos dias circulando a pé não tem obrigação de ter paciência pra responder pela milionésima vez que não bebera nem dormira ao volante, assim, livre de recapitular que um cavalo o fez capotar naquela reta, a memória não dói.

― Veio avisar que é preciso trocar o RG, né?

Como não deixo que se acerte com gestos, respiração e olhar, ela dá tapinhas na área esquerda do peito com a ponta dos dedos da mão direita. Entendo o que está tentando me dizer, que o coração fala mais alto quando somos sinceros, quando não engabelamos.

― Não vim falar de RG. De fato, preciso de ajuda. E graças a Deus, o meu grito por socorro abriu a porta do amigo. Só uma pessoa de bom coração é que pode salvar quem se afoga, gente boa.

Conheço o poder da amizade. Sei da sua potência, que o seu poder em transformar o mundo num palco é incomensurável. E o ser humano tem capacidades que nem ele próprio conhece. No entanto, apesar de não se conhecer tão bem quanto deveria, o ser humano age e produz. A gente se faz presente quando o coração ilumina nossa mente, e diz: gente do bem, vai abraçar quem pede abraços, vai beijar a outra face, vai ensinar quem deseja aprender.

Iluminado pelo amor, ouço-a:

― Venho de rejeições, amigo. Mas Deus é Colosso, foi Ele que me trouxe à porta do amigo da Verdade. Amigo iluminado pela verdade da mensagem que precisa ser passada.

Seja dita esta mensagem. Quiçá a entenda, sorrio. Porque me cala, sorrio. Meu sorriso é de gratidão, porque ela veio para ser ouvida.

― Outros temeram encarar meu entusiasmo, você não. Gandhi às margens do Ganges, você é a gema da terra.

Gandhi é a gema do Ganges?

Outra pitada:

― Eu sei que você sabe que vai começar a principal competição do ano. A gloriosa batalha por hum milhão de reais. Só vinte participantes terão a oportunidade de lutar. Só quem tiver triplicado o peso no menor tempo entrará pra História.

Com lágrimas de felicidade:

― Você me ajeita dez mil pra eu virar o buda do reality?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de julho de 2024.

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