Milonga
do bonachão camarada
Posso parar a um passo da porta. Eu não
preciso atender só porque tocaram a campainha. Posso esperar, quem sabe desistam.
Creio que a desistência torna as pessoas mais humanas, que elas podem avaliar o
que valha a pena de ser abandonado.
Não havendo precipitação, e sem que me
desculpe, posso frear-me à porta de um remorso, até porque muito orgulha eu não
me sujeitar a campainhas.
Quando espio pelo olho mágico, há
controle. O ímpeto de resolver de vez é refreado, assim me liberto na volúpia, na
ânsia em querer dar azo a esse que veem em mim.
Me domino porque sou voluptuoso.
Abro a porta. Convido que entre.
Sente-se onde queira. Ofereço um cafezinho, biscoitos, talvez role um provolonezinho.
A pessoa recusa tudo, ficará à porta
porque tem pressa. Pra chegar aos finalmentes, irrita-se com o papo furado.
― Ficou sabendo que a gente precisa
trocar o RG, né?
Quem viveu na pele os sessenta e tantos dias
circulando a pé não tem obrigação de ter paciência pra responder pela milionésima
vez que não bebera nem dormira ao volante, assim, livre de recapitular que um
cavalo o fez capotar naquela reta, a memória não dói.
― Veio avisar que é preciso trocar o RG,
né?
Como não deixo que se acerte com gestos,
respiração e olhar, ela dá tapinhas na área esquerda do peito com a ponta dos
dedos da mão direita. Entendo o que está tentando me dizer, que o coração fala
mais alto quando somos sinceros, quando não engabelamos.
― Não vim falar de RG. De fato, preciso
de ajuda. E graças a Deus, o meu grito por socorro abriu a porta do amigo. Só
uma pessoa de bom coração é que pode salvar quem se afoga, gente boa.
Conheço o poder da amizade. Sei da sua
potência, que o seu poder em transformar o mundo num palco é incomensurável. E
o ser humano tem capacidades que nem ele próprio conhece. No entanto, apesar de
não se conhecer tão bem quanto deveria, o ser humano age e produz. A gente se
faz presente quando o coração ilumina nossa mente, e diz: gente do bem, vai
abraçar quem pede abraços, vai beijar a outra face, vai ensinar quem deseja
aprender.
Iluminado pelo amor, ouço-a:
― Venho de rejeições, amigo. Mas Deus é Colosso,
foi Ele que me trouxe à porta do amigo da Verdade. Amigo iluminado pela verdade
da mensagem que precisa ser passada.
Seja dita esta mensagem. Quiçá a entenda,
sorrio. Porque me cala, sorrio. Meu sorriso é de gratidão, porque ela veio para
ser ouvida.
― Outros temeram encarar meu entusiasmo,
você não. Gandhi às margens do Ganges, você é a gema da terra.
Gandhi é a gema do Ganges?
Outra pitada:
― Eu sei que você sabe que vai começar a
principal competição do ano. A gloriosa batalha por hum milhão de reais. Só
vinte participantes terão a oportunidade de lutar. Só quem tiver triplicado o
peso no menor tempo entrará pra História.
Com lágrimas de felicidade:
― Você me ajeita dez mil pra eu virar o
buda do reality?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 02 de julho de 2024.
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