Pescador
confesso
A minha dedicação em parecer natural, que
nem uma trepadeira se espalhando por muro, quiçá não tenha importância alguma para
quem está indo trabalhar, mas é meu trabalho observar as pessoas sem que elas passem
que estão realmente indo trabalhar.
Se é divertido espiar a rua um instante?
Diverte-me.
Sem maiores preocupações com os automóveis
passando com um passageiro, com as mulheres que criticam a tentativa de
lucrarem com a privatização das praias, com o cão latindo atrás do ciclista dos
fones coloridos, espio-a porque eu pretendo me inteirar dessa movimentação sortida
de sentidos, carente de sortudos, mesmo que os meus pulmões não apreciem a
riqueza dessas fumaças.
Posso sentar na varanda, fumar um cigarro,
fumá-lo sem pressa, ir de tragada em tragada, de vez em quando bato as cinzas
porque me apraz vê-las voejando na brisa. Ponho gosto em ver a brasa comendo o
papel, então eu baforo o meu cigarrinho sem me arrepiar por alguma outra
vontade.
Curto mesmo o momento? Memorizo-o.
O que corta o barato é um bate-boca que
rebenta do outro lado.
O Fonseca é terrível, só escuta quando
quer. Quando escuta, não ouve o que a gente fala, ele interpreta o que é dito. Sempre
digo que a sua inteligência devia ajudar no treinamento dessa IA que tantos
falam. Não martelam que a IA vai revolucionar a vida de todo mundo? Então, a mente
do Fonseca é basicamente um artifício. A realidade não existe se não for adulterada
por ela, não virar o que ele acha que ela é.
É inacreditável a cegueira que o faz ver
o mundo como fruto do que ele acha. Ele não pensa, ele vê. Ele raciocina como
se pensasse, mas ele não pensa, ele encaixa as peças. O resultado é que, em vez
de vir à tona uma foto sua em 3X4, explodem corolas de tinta. Entende?
Entendo que preciso ir lá atrás pra dar
uma olhada no cachorro que não para de latir; me dá licença, Dolores, pois não
quero que nenhum gato vire patê lá no fundo do meu quintal.
Qual a pérola do posto: um Pollock ou outra
“fonsecada”?
Embora não subscreva a versão contada, a
graça vem fácil porque o Fonseca é um cara sistemático: ou o mundo mostra que está
errado ou ele faz errado o mundo.
Dolores está brava com razão, porque o
Fonseca, querendo provar que o gato não fugiria porque gato é bicho apegado ao
sossego do seu espaço, ele arreganhou a porta da sala e, querendo tocá-lo porta
afora, o bobalhão bateu palmas, assobiou, aboiou, pegou uma vassoura, até bombinha
ele soltou, tanto fez que o danado do gato disparou, passou pela grade e sumiu-se.
Ninguém freou? Nem um miadinho foi
ouvido.
Sendo ousado, Dolores, digo que eu sou que
nem ostra.
Pescador, confio-lhe que não fico à toa
quando pareço estar à toa, vendo a vida passar, escutando canário cantar,
fumando por fumar. À toa, à toa, entranham-me as migalhas, os cacarecos, o que,
distraídos, homens, mulheres e crianças vão semeando.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 11 de junho de 2024.
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