terça-feira, 11 de junho de 2024

Pescador confesso

 

Pescador confesso

 

A minha dedicação em parecer natural, que nem uma trepadeira se espalhando por muro, quiçá não tenha importância alguma para quem está indo trabalhar, mas é meu trabalho observar as pessoas sem que elas passem que estão realmente indo trabalhar.

Se é divertido espiar a rua um instante? Diverte-me.

Sem maiores preocupações com os automóveis passando com um passageiro, com as mulheres que criticam a tentativa de lucrarem com a privatização das praias, com o cão latindo atrás do ciclista dos fones coloridos, espio-a porque eu pretendo me inteirar dessa movimentação sortida de sentidos, carente de sortudos, mesmo que os meus pulmões não apreciem a riqueza dessas fumaças.

Posso sentar na varanda, fumar um cigarro, fumá-lo sem pressa, ir de tragada em tragada, de vez em quando bato as cinzas porque me apraz vê-las voejando na brisa. Ponho gosto em ver a brasa comendo o papel, então eu baforo o meu cigarrinho sem me arrepiar por alguma outra vontade.

Curto mesmo o momento? Memorizo-o.

O que corta o barato é um bate-boca que rebenta do outro lado.

O Fonseca é terrível, só escuta quando quer. Quando escuta, não ouve o que a gente fala, ele interpreta o que é dito. Sempre digo que a sua inteligência devia ajudar no treinamento dessa IA que tantos falam. Não martelam que a IA vai revolucionar a vida de todo mundo? Então, a mente do Fonseca é basicamente um artifício. A realidade não existe se não for adulterada por ela, não virar o que ele acha que ela é.

É inacreditável a cegueira que o faz ver o mundo como fruto do que ele acha. Ele não pensa, ele vê. Ele raciocina como se pensasse, mas ele não pensa, ele encaixa as peças. O resultado é que, em vez de vir à tona uma foto sua em 3X4, explodem corolas de tinta. Entende?

Entendo que preciso ir lá atrás pra dar uma olhada no cachorro que não para de latir; me dá licença, Dolores, pois não quero que nenhum gato vire patê lá no fundo do meu quintal.

Qual a pérola do posto: um Pollock ou outra “fonsecada”?

Embora não subscreva a versão contada, a graça vem fácil porque o Fonseca é um cara sistemático: ou o mundo mostra que está errado ou ele faz errado o mundo.

Dolores está brava com razão, porque o Fonseca, querendo provar que o gato não fugiria porque gato é bicho apegado ao sossego do seu espaço, ele arreganhou a porta da sala e, querendo tocá-lo porta afora, o bobalhão bateu palmas, assobiou, aboiou, pegou uma vassoura, até bombinha ele soltou, tanto fez que o danado do gato disparou, passou pela grade e sumiu-se.

Ninguém freou? Nem um miadinho foi ouvido.

Sendo ousado, Dolores, digo que eu sou que nem ostra.

Pescador, confio-lhe que não fico à toa quando pareço estar à toa, vendo a vida passar, escutando canário cantar, fumando por fumar. À toa, à toa, entranham-me as migalhas, os cacarecos, o que, distraídos, homens, mulheres e crianças vão semeando.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de junho de 2024.

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