domingo, 14 de julho de 2024

O satânico Damasceno

 

O satânico Damasceno

 

Tenho consciência do meu lugar no mundo.

Falei em mundo? Peço desculpas, não agrado nem a turma do bar. Nas noites de quarta, venho ver jogo. O problema é que não resisto de comentar os lances, e o pessoal me olha enviesado. Pra eles, a melhor coisa que eu deveria fazer é ficar sentado lá no fundo.

Me permita a sinceridade, porque não vou esconder que me dá um gostinho bom isso de irritar essa gente.

Não me entenda mal, quando eu me refiro a essa gente, parece que pode soar de modo que eu esteja querendo ser desrespeitoso, mas eu não espero isso.

Como não sou de gracejos bobos, não suporto gente que desdenha de mim pelo que digo.

Sou igual a todo mundo, por isso trato de exigir que me tratem como gente igual a toda gente. Quero ser aprovado pelo que sou, porque eu sei que sou apenas mais outro camarada pedindo para ficar nessa roda sempre animada.

Mesmo que o pessoal insinue que eu deva ir sentar a quatro metros, sei que eles são gente bacana. Isso de não esconderem que entendo bulhufas das dinâmicas de uma partida de futebol, isso dá a mais clara demonstração de que são pessoas que merecem o meu apreço.

Compreende o ponto?

Quando falo besteira, tudo bem, eles riem. O chato é quando encho o caco e não paro mais de bancar o esperto. Parece que quero atenção a qualquer custo. É aí que o parafuso espana e a cabaça roda em falso, como se falando mais, bebendo mais, eu desse conta do enguiço. Mas aborrecendo todo mundo, eu inclusive, paro de perceber que moringa que transborda não reserva cachaça, desperdiça-a.

Caramba! Mais que nunca, eles agem corretamente comigo.

Pra você pegar bem a base do meu argumento: teve uma vez, e foi essa a primeira de muitas outras vezes, que o dono do bar saiu detrás do balcão e, abraçando do jeito necessário, me dirigiu para fora do bar e mostrou qual o caminho de casa.

Você pode achar que fiquei bravo com a situação.

Fui embora contente, porque o dono não renunciou à prerrogativa de estabelecer limite. Ele precisa do ambiente funcionando normal; eu estava desequilibrando a coisa toda. Em vez da partida merecer o foco principal, esta aberração agia com a monstruosidade de me considerar o umbigo do mundo. E fui embora contente, porque ele lidou bem com este bêbado que não parava de provocar essa gente simpática.

Percebe que, no fundo, a razão sempre esteve aliada a eles?

Para resumir a coisa toda, lembro da primeira vez que entrei aqui. Foi num sábado à tarde, a rodinha conversando descontraída junto do balcão. Não havia um cristo que pensasse duas vezes ao criticar o que fosse, aliás em altos brados, daí o que azeitava as cordas vocais eram as brejas geladas.

Diante daquela cena, seria desastroso se hesitasse. Roguei ao bom homem atrás do balcão que a mim não se furtasse de cobrar a próxima rodada. À roda, aliás, fiz a graça de me apresentar:

― Damasceno, Caio Damasceno.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de julho de 2024.


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