quinta-feira, 20 de junho de 2024

Enevoado

 

Enevoado

 

Era uma visão diferente a que tive do céu, porque acordei caído aos pés do sofá. Precisei certificar-me de que não tinha dores, que o corpo deitado no chão não rolou abaixo, desavindo do sofá.

Não caí, peguei no sono porque me ajeitara ali mesmo, no chão aos pés do sofá, pois cansadérrimo me deitara, ali.

Sim, adormeci porque ontem foi um daqueles dias, de tarefas sobre tarefas e nenhum prêmio pelos méritos de cidadão que não adia o que não se deve deixar para depois.

Então, acordei com aquelas nuvens boiando, indo lentas, mas iam. A visão tinha mesmo que me acordar uma outra pessoa, que se admira de ter caído do sofá como se tivesse congelado feito pedra.

Uma pedra sóbria, boamente alimentada, boa nos modos, uma que não deixa de arrumar a cama, embora tenha topado dormir tão logo os olhos começaram a arder. Provavelmente arderam avermelhados, por grãos de areia pincelados, de retinas entorpecidas em afazeres.

Foi que me lembrei, saí cedo.

Tinha que ir ao oftalmologista, porque marquei a consulta por causa da vista que andava embaçando há cerca de um mês, quiçá um mês e meio, não mais que dois meses. E na virada do dia pra noite é que ela embaça, me perturba um pouco, tenho muito medo de torcer o pé, dar com os joelhos na calçada, quem sabe eu até nem enxergue a nota de duzentos que muito ajudaria.

Me lembrei de ter achado aquela nota de duzentos quando estava indo ao oculista. Só que me desviei um tanto, fui à lotérica pagar boleto e fazer um joguinho despretensioso. Como quem saberá agradecer ao bom deus que me permita a alegria de ganhar, pois a aposta foi mesmo feita com a despretensão de ficar milionário apenas e tão somente pela sugestão da atendente, não pelo achado daqueles duzentos.

Me lembrei de que parei no ponto porque tomaria o ônibus que me levasse ao médico dos olhos.

No entanto, com as mãos nos bolsos, o ombro no caibro pintado de vermelho para deixar evidente que ali era o ponto de parada do ônibus, foi por sorte que comecei a contar as bitucas, foi muita sorte eu obrigar minhas mãos a ficarem nos bolsos, pois fumar não me ajudaria.

Me agradeço por não ter acendido o cigarro, que não fiquei batendo as cinzas, não fiquei impressionado com a brasa, escolhi contar bitucas e me achou a realidade, era real a fortuna caída do céu.

Me lembrei de ter atravessado a rua, entrado na lotérica e feito a tal aposta, que me haveria de resolver os problemas, a maior parte deles, ao menos. Embora eu nem soubesse qual o valor do prêmio, ainda que eu nem quisesse saber se o prêmio estava acumulado, paguei à moça que sugeriu o bolão, até o coloquei na carteira sem nem mesmo conferir por quais números a aposta era composta.

Me lembrei de voltar ao ponto, precisava realmente pegar o ônibus, o que me levasse ao doutor, aquele que há um ano marcou a operação de miopia, a que ainda não me justifiquei de não ter ido fazê-la.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de junho de 2024.

Nenhum comentário:

Postar um comentário