Na
mosca
Interrompi o trabalho. Tinha que
terminá-lo antes da janta ou até me deitar, já quase meia-noite. Parei tudo
porque fiquei maravilhado com aquilo. Fechei os olhos. Tocaram uma, emendaram
mais uma e outra, eu fiquei e, de olhos fechados, eu fui ficando.
Pouco me importei com quem estava escutando
aquelas músicas, o repertório me era conhecido, apreciado, querido. Muitas
canções que há muito eu não ouvia nem tinha ouvido nos últimos anos, nos
últimos cinco, talvez dez, poxa, já uns vinte anos.
Não me envergonho de ter sido jovem e
consumidor de música feita por e para jovens. Falo do que produziram a Legião, os
Paralamas, Ira, Miquinhos, Os Ronaldos, era o que algumas rádios tocavam, o que
era tocado nas festas, eram os discos que ouvia no meu quarto.
Já um dia tive um quarto só pra mim, com
as paredes liberadas pra Jim Morrison, Roger Daltrey e Syd Barrett. Foi uma
época sem Noel, Chico Buarque, Nara Leão. Me embalavam UB-40, Pretenders e Devo.
Foram dias de aprendiz, dias de Natasha com fanta.
Eu bebia, muito. Eu gostava disso, de
encher a cara com hi-fi.
Aqueles foram dias de porradinha, e
ressaca braba. Foram noitadas de vira-viras, e amnésia alcóolica. Foram dias de
ir à feira tão somente pela garapa, nada de sólidos e, pelamor!, nada de fritura.
Me lembro daquela vez no Carbono 14. Não
garoava, mas fazia frio. Foi quando jogaram aquela múmia e subiram de volta com
a dita cuja. Bela Lugosi’s Dead, jogaram, jogaram, e tanto atiraram o
manequim lá do alto que o frenesi passou. Belezura! Você já era, Mr. Lugosi.
Hoje eu como mais de um pastel de queijo,
tomo garapa com limão, acho engraçado me lembrar de que um dia fui um bom
garoto, aprendi a ler em silêncio, fui aquele leitor bastante impactado por Que
Fazer?, A Ideologia Alemã e O Matraca.
Não considerei uma perda de tempo aquela
interrupção. Gostei de ouvir que garotos do subúrbio, garotos do subúrbio,
vocês não podem desistir de viver. Também gostei de assobiar que tudo
foi sempre uma mera questão de dinheiro. Surpresa! Até levantei, repeti uns
passinhos que fazia, afinal vou ser engenheiro, ganhar muito dinheiro,
graças ao milagre brasileiro.
Não ganhei merreca alguma, ganhei em
galhardia.
Brioso, lá fui eu, pro lançamento do
compacto duplo do Esquadrilha da Fumaça, fui ao Lira Paulistana, naquele ano
que não há de terminar, 1983. Queria notícias sobre o fã-clube e informaram que
o Zappa Club não tinha inscrição nem carteirinha, basta ouvir o Zappa.
Caramba, carambolas.
Operador de histórias, deixo a memória
brincar de remontar-me que nem o tal boneco da Treze de Maio, porque, Deusdéti,
se não pude ir jantar com você no Maquesude, não lamento nunca ter usado
a famosa mosca do guitar hero de Baltimore, uma vez que, cronista com as
mãos do Dylan, os pés do Cohen, o coração e a mente dos Mutantes da Rita, eu
canto, danço e falo sério.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 16 de junho de 2024.
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