domingo, 23 de junho de 2024

Teatro absurdo

 

Teatro absurdo

 

Andam acontecendo coisas invulgares nos últimos dias, desde que o carrilhão passou a badalar nos quartos de hora, tanto no primeiro, do meio-dia às seis, quanto no posterior, de seis a doze.

Os sinos passaram a badalar como se estivessem batendo em hora cheia, como se as seis badaladas dessem como certa a hora, de nada importando serem três ou nove horas. Batem as suas seis, que a gente se vire em ajustar o relógio mental, pois os sinos têm feito a parte deles. Eu digo mais, que eles não deixam de servir como bússola ao fornecer à cabeça o indispensável norte em cada segundo.

Pombas! Os pombos estão perdidos. Sempre foram de arrulhar ao meio-dia, nas doze badaladas. Perderam-se da normalidade dos seus arrulhos, como houvessem se tornado lobisomem que uiva ao sol, pois a mudança os afetou de maneira frontal.

É preciso denunciar o que está havendo, porque os pombos ciscam inquietos, bicam troncos, os assentos dos bancos, ainda não passaram a dar cabeçada nos postes e para-brisas.

Com a teimosia de quem exige que a verdade seja dita doa a quem doer, faz-se urgente a antecipação do futuro: a ansiedade dos pombos forçará que o relógio permaneça intocável, para que, num dia a mais e por mais outro, a estabilidade volte a ancorar a rotina dos pombos, em conformidade à realidade transfigurada pela atual condição mecânica dos sinos.

Ou seja, a angústia tornar-se-á desespero e os pombos passarão a conviver outra vez com quem os sinta aptos a bicadas regulares.

O velho que dá migalhas aos pombos voltará a sentar-se. Retomará as intrigas que confidencia a eles que vêm comer das migalhas dadas por essas mãos surdas a arrulhos. Voltará a sentar-se no banco que o atrai desde que enviuvou, divorciou-se ou virou aposentado.

Andam surgindo ideias perturbadoras na cachola do velho que sabe que pensamentos angustiantes sempre principiam quando a gente diz a si própria que, desde que nenhuma novidade surja abalar o horizonte onde a vida prospera, o mundo é terreno razoável para viver.

Sendo fiel ao que pensa o velho dos pombos, o relógio bater as seis horas da sua circunstância tem que ser mantido como está até que os pombos parem de bicar, já confusos.

Se o relógio for mexido, os pombos ficarão mais alucinados, o velho ficará irrequieto, porque seguirá afastado das suas migalhas.

E o que anda acontecendo com o velho é que ele tem comido muito torresmo, tem bebido groselha até quando não come e tem sofrido um bocado por jurar vingança quando ora pra não azeitarem as traquitanas do relógio.

Desatino, feito pombos que não aturam voar, é lindo vê-lo alarmado com os sinos que trabalharão como engenho antigo, bugiganga jamais ultrapassada.

Ele poderia ter relevado, mas o pai do velho cismou de criar pombos para que alastrassem o amor. Tal amor, entretanto, nunca ensinou os pombos a voarem de volta.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de junho de 2024.

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