Teatro
absurdo
Andam acontecendo coisas invulgares nos
últimos dias, desde que o carrilhão passou a badalar nos quartos de hora, tanto
no primeiro, do meio-dia às seis, quanto no posterior, de seis a doze.
Os sinos passaram a badalar como se estivessem
batendo em hora cheia, como se as seis badaladas dessem como certa a hora, de
nada importando serem três ou nove horas. Batem as suas seis, que a gente se
vire em ajustar o relógio mental, pois os sinos têm feito a parte deles. Eu
digo mais, que eles não deixam de servir como bússola ao fornecer à cabeça o indispensável
norte em cada segundo.
Pombas! Os pombos estão perdidos. Sempre
foram de arrulhar ao meio-dia, nas doze badaladas. Perderam-se da normalidade
dos seus arrulhos, como houvessem se tornado lobisomem que uiva ao sol, pois a
mudança os afetou de maneira frontal.
É preciso denunciar o que está havendo,
porque os pombos ciscam inquietos, bicam troncos, os assentos dos bancos, ainda
não passaram a dar cabeçada nos postes e para-brisas.
Com a teimosia de quem exige que a
verdade seja dita doa a quem doer, faz-se urgente a antecipação do futuro: a
ansiedade dos pombos forçará que o relógio permaneça intocável, para que, num
dia a mais e por mais outro, a estabilidade volte a ancorar a rotina dos
pombos, em conformidade à realidade transfigurada pela atual condição mecânica
dos sinos.
Ou seja, a angústia tornar-se-á
desespero e os pombos passarão a conviver outra vez com quem os sinta aptos a
bicadas regulares.
O velho que dá migalhas aos pombos
voltará a sentar-se. Retomará as intrigas que confidencia a eles que vêm comer
das migalhas dadas por essas mãos surdas a arrulhos. Voltará a sentar-se no
banco que o atrai desde que enviuvou, divorciou-se ou virou aposentado.
Andam surgindo ideias perturbadoras na
cachola do velho que sabe que pensamentos angustiantes sempre principiam quando
a gente diz a si própria que, desde que nenhuma novidade surja abalar o
horizonte onde a vida prospera, o mundo é terreno razoável para viver.
Sendo fiel ao que pensa o velho dos
pombos, o relógio bater as seis horas da sua circunstância tem que ser mantido
como está até que os pombos parem de bicar, já confusos.
Se o relógio for mexido, os pombos
ficarão mais alucinados, o velho ficará irrequieto, porque seguirá afastado das
suas migalhas.
E o que anda acontecendo com o velho é
que ele tem comido muito torresmo, tem bebido groselha até quando não come e
tem sofrido um bocado por jurar vingança quando ora pra não azeitarem as
traquitanas do relógio.
Desatino, feito pombos que não aturam
voar, é lindo vê-lo alarmado com os sinos que trabalharão como engenho antigo,
bugiganga jamais ultrapassada.
Ele poderia ter relevado, mas o pai do
velho cismou de criar pombos para que alastrassem o amor. Tal amor, entretanto,
nunca ensinou os pombos a voarem de volta.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 23 de junho de 2024.
Nenhum comentário:
Postar um comentário