Bola
cheia
O dentista não é de atrasar, mas o
trânsito não ajuda. Quando não tem compromisso marcado, o tráfego roda que dá
gosto de nele tomar parte, como se a vida fosse um feriado depois do outro. O
jeito é parar na pista, frear bruscamente, provocar o caos. Se os carros vão
lentos, acelere-se a cabeça. Seja feita a leviandade da gente que pouco pode na
vida. Ainda que os automóveis atrapalhem a ida ao dentista, ir.
Não basta ir, é preciso ir, mas ir
pensando.
Pensando que deveria ter saído mais cedo.
Teimando em pensar que deveria ter levantado muito mais cedo. Recriminando-se
que não deveria ter ficado até tarde vendo TV.
Agora, reconheça que a notícia que
importa não foi antecipada no jornal da meia-noite, que a lentidão nas ruas é
decorrente do excesso de gente indo a dentista.
Adamastor, assuma-se, que o seu atraso é
culpa sua, que você não tinha de ficar torcendo para que fosse anunciada a
quitação da dívida, que a arena não correria mais nenhum risco de ser
confiscada.
Adamastor, uma vez que você está
atrasado, esteja certo de que a culpa é dessa gente que vai de carro ao
dentista. A culpa é de motorista que chupa bala, cuja cárie fica grudando açúcar
em tudo que é dente, até nos vãos.
Entra dia e sai dia, a mente buzina pela
dor que experimenta.
Você chegará atrasado, Adamastor. Vai chegar
bem depois da hora marcada. Perderá a vez. Adamastor, você tem toda razão de
ficar fulo da vida, mas terá de aceitar a data que a secretária marcar.
Mereça o que você merece.
Se fosse menos idiota, teria notado que
a TV não diria nada sobre o trânsito pesado, pois só apresentador bastante babaca
é de fincar o pé na jaca, anunciar a desgraça que não prevê, ou apenas minta.
Adamastor, seu imbecil, se tivesse ido
deitar quando o sono bateu, teria acordado cedo, pediria um táxi, teria até mesmo
conseguido lavar atrás das orelhas. Mas não, Adamastor, você tinha que ficar
vendo TV, teve que prestar atenção nos comentaristas, porque você, Adamastor, é
pedra bruta que as opiniões de terceiros lapidam e lapidam, sem que nenhum
diamante valha algum trocado.
Como você brilha pela estupidez, então,
Adamastor, faça este favor a si mesmo: bata um papo com a Norminha.
Pense, o importante é que ela saiba que
você foi deitar tarde porque os analistas da TV querem fazer o mundo melhor,
dizem o que a gente precisa fazer pra não sofrer tanto, então, Norminha, o
mundo vai mudar quando a gente ficar suficientemente esclarecida, a ponto de
assinar o que é dito por aquela gente sabida da TV.
Para melhorar a si mesma, Norminha, você
aceite que os analistas da TV estão a postos para revolucionar a nobre audiência.
Acredite, Norminha, não sou eu que falo a
verdade, certos estão os homens e as mulheres que sabem falar pra câmera como
se fosse com a gente, ainda que você continue mascando chiclete como a coisa
mais bacana de fazer com a TV ligada.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 27 de junho de 2024.
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