quinta-feira, 13 de junho de 2024

A fé do homem assustado

 

A fé do homem assustado

 

Ao abrir os olhos, o mais espalhafatosamente, gargalhar.

O que será isso, cometer essa maluquice é livrar o corpo da energia negativa dos súcubos de outra madrugada malsã?

Abrir os olhos devagar, precavendo-se de que o mundo continuará no lugar em que estivera ontem mesmo tendo aberto os olhos devagar, embora isso contradiga o preceito: vida é movimento.

A realidade precisa ser educada a concordar com este conceito que estabelece que a movimentação permanente dá existência ao mundo, ou o universo também confrontaria outro axioma, aquele que considera que: na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se aprimora.

Abrir os olhos, que gargalhar é descarregar demônios domésticos, íntimos, que criam e recriam intimidades como a amestrar o fogo que se espraia por neurônios, bifurca sinapses, cativa a mente com a razão que argumenta com os mais sólidos, os mais lógicos, os menos teatrais dos comportamentos, a apurar-se.

Abrir os olhos, e rir como louco ou geômetra.

A geometria do caos estabelece a perspectiva, diz à face rubra que recue quando a aurora vem, todavia o demiurgo de régua e compasso nem precisa delinear o abismo que se concentra neste ponto: a letra A tem o seu nome, tanto quanto no seu nome entra a letra Z.

E seja: o infinito no finito, apesar da incongruência.

Em outras palavras, olhar-se, transfigurar-se na pessoa que ontem, ao abrir os olhos, faz o mundo ser a realidade que agora queima, segue pelo rastilho, traz ideias à tona, sobe à linha para respirar, sucumbe ao lodo sem revolvê-lo, que as palavras brotem sujas, que nada se perca, tudo se crie, e paralisar-se, petrificar-se, estagnar-se, represar-se, vem daí o cheiro acre, o verde de coisa podre, porque parar é apodrecer, e rir faz andar, adiantar-se, mover-se.

Seja o que for: o vento que move molda a pedra, alisa-a, oxigena o ventre, a mente e o pensamento. Com novos argumentos, raciocine e pense, haja como húmus que aduba a terra, aflore à terra, torne-se um botão de rosa que sobe, move-se, cresce, solta espinhos e, entretanto, encanta, é belo, diz aos olhos e às palavras o encanto da sua beleza, ferindo, para que não haja estagnação, cansaço ou tédio, haja os olhos que se abram, eles sejam ridentes, acutilantes, calculistas.

Haja cálculo: felicidade pouco tem a ver com a alegria, e tanto com aquele arroz empilhado, estocado, abrigado em tantas sacas.

Se a realidade é o mundo a oferecer-se à pessoa que abre os olhos rindo de si e de tudo o que ela acredita calculado para que possa abrir os seus olhos sem recear que os abra, haja o susto.

A pessoa assustada é gente cuja credulidade está em revelar o que se oculta em gôndola cheia: o eclipsado entusiasma os donos de toda aquela sacaria nas barrancas de rio, pois saco de arroz é saco de areia, e é isso que faz navegável até estacionamento de supermercado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de junho de 2024.

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