A
fé do homem assustado
Ao abrir os olhos, o mais
espalhafatosamente, gargalhar.
O que será isso, cometer essa maluquice
é livrar o corpo da energia negativa dos súcubos de outra madrugada malsã?
Abrir os olhos devagar, precavendo-se de
que o mundo continuará no lugar em que estivera ontem mesmo tendo aberto os
olhos devagar, embora isso contradiga o preceito: vida é movimento.
A realidade precisa ser educada a
concordar com este conceito que estabelece que a movimentação permanente dá
existência ao mundo, ou o universo também confrontaria outro axioma, aquele que
considera que: na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se aprimora.
Abrir os olhos, que gargalhar é descarregar
demônios domésticos, íntimos, que criam e recriam intimidades como a amestrar o
fogo que se espraia por neurônios, bifurca sinapses, cativa a mente com a razão
que argumenta com os mais sólidos, os mais lógicos, os menos teatrais dos comportamentos,
a apurar-se.
Abrir os olhos, e rir como louco ou
geômetra.
A geometria do caos estabelece a
perspectiva, diz à face rubra que recue quando a aurora vem, todavia o demiurgo
de régua e compasso nem precisa delinear o abismo que se concentra neste ponto:
a letra A tem o seu nome, tanto quanto no seu nome entra a letra Z.
E seja: o infinito no finito, apesar da
incongruência.
Em outras palavras, olhar-se, transfigurar-se
na pessoa que ontem, ao abrir os olhos, faz o mundo ser a realidade que agora
queima, segue pelo rastilho, traz ideias à tona, sobe à linha para respirar, sucumbe
ao lodo sem revolvê-lo, que as palavras brotem sujas, que nada se perca, tudo
se crie, e paralisar-se, petrificar-se, estagnar-se, represar-se, vem daí o
cheiro acre, o verde de coisa podre, porque parar é apodrecer, e rir faz andar,
adiantar-se, mover-se.
Seja o que for: o vento que move molda a
pedra, alisa-a, oxigena o ventre, a mente e o pensamento. Com novos argumentos,
raciocine e pense, haja como húmus que aduba a terra, aflore à terra, torne-se
um botão de rosa que sobe, move-se, cresce, solta espinhos e, entretanto,
encanta, é belo, diz aos olhos e às palavras o encanto da sua beleza, ferindo,
para que não haja estagnação, cansaço ou tédio, haja os olhos que se abram,
eles sejam ridentes, acutilantes, calculistas.
Haja cálculo: felicidade pouco tem a ver
com a alegria, e tanto com aquele arroz empilhado, estocado, abrigado em tantas
sacas.
Se a realidade é o mundo a oferecer-se à
pessoa que abre os olhos rindo de si e de tudo o que ela acredita calculado para
que possa abrir os seus olhos sem recear que os abra, haja o susto.
A pessoa assustada é gente cuja credulidade
está em revelar o que se oculta em gôndola cheia: o eclipsado entusiasma os
donos de toda aquela sacaria nas barrancas de rio, pois saco de arroz é saco de
areia, e é isso que faz navegável até estacionamento de supermercado.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 13 de junho de 2024.
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