Ponderações
“Olha, doutor Martins, não sei dizer se
o que tem acontecido comigo é bom sinal, porque, de repente, a vida entrou nos
eixos.
Sem que eu tivesse mudado algo, tenho
comido bem, dormido bem, até jornal não tem derrubado o meu humor.
Tempos atrás, o torresmo embrulhava o
estômago, hoje eu observo o limite dos três pedaços. Outro dia, só reparei na gula
quando tive que correr pro banheiro, já dando vexame.
É surpreendente, doutor, mal sento pra
ler, me concentro que nem a mulher batendo no marido me atiça espiar.
Ultimamente, quando paro abastecer o
carro, vem o frentista limpar o para-brisa, checar o óleo, colocar água no
radiador. Como se o carro fosse um fora de estrada zero km, lá vem a maquininha
para eu digitar a senha, doutor.
Semana passada, minha sogra, que não tem
por hábito me agradar, pagou o almoço. Primeiro achei que fosse trote, que
outra pessoa tinha mandado o zap, mas, como não respondi, ela telefonou, queria
mesmo que fôssemos almoçar.
Pelo ambiente, era restaurante caro,
muito chique. Com manobrista na porta e uma bebidinha na chegada, tudo muito
elegante. Por minha mortalidade de genro pobretão, nunca me vi amarrando o meu pangaré
num obelisco daqueles.
A minha sogra tem casas e apartamentos Brasil
afora. Deles todos só conheço uma, a que ela mora. As casas em Paraty e Monte
Verde, conheço por foto e olhe lá. Como não posso segui-la, dou meus pulos, eu bisbilhoto
o celular das minhas filhas.
Mas, doutor, mal coloquei o palmito na
boca, ela me comunicou que a filha dela e seus netos passariam o feriadão da
Páscoa em Porto de Galinhas. Já que eu não gastaria um centavo, nem engasguei.
Doutor Martins, como não disfarcei o
tamanho da minha felicidade, ela incluiu no pacote que eu não me preocupasse
com a casa, que ela mandaria aparar a grama, mandaria os meus cães a um hotel
de sua confiança, não deixaria ninguém polir meu carro.
Ela queria que eu me esforçasse pra relaxar,
que eu tomasse banho de mar, cochilasse na praia, bebesse muita água de coco,
enfrentasse o medo de abusar das caipiroscas à beira da piscina, que eu
acordasse de ressaca, mas feliz.
Ela exaltava as regalias, eu barrava amuamentos.
Ainda que o único voo atrasado seja o
meu, ficarei calmo.
Quando enjoarem em saveiro atracado,
direi quais macetes ajudam a enxergar o céu, o céu azul, o céu cordialmente
azul.
Embora meus meninos berrem para nadar
com golfinhos, dominarei a técnica de manter a esportiva sem apelar a
caipiroscas.
Já que feliz atrai feliz, doutor
Martins, a minha sogrinha sempre tão amável disse que viajará com a gente.
Por que eu iria negar a alegria, né?”
“Martins, não pense no pitbull que morde
a canela da pessoa, pense na mão de quem tem que decapitar o pitbull de
estimação. A vida, meu caro, não é menos saborosa para quem toma direitinho o
cloridrato de paroxetina, conforme o prescrevemos.”
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 30 de junho de 2024.
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