Seu
João
Passa um homem levando uma enxada no
ombro. Se na ponta livre levasse uma trouxa de roupa, não seria outro
retirante, seria a imagem batida de mais um clichê: o de boia-fria que, na
trouxa, traz escondida a sua marmita de todo dia.
Confirmando o preconceito, que um homem
que traz o seu almoço embrulhado na trouxa de roupa na ponta da enxada é um trabalhador
braçal que levanta de madrugada porque mora longe, haverá de trazer botina e
boné, além de vir cantarolando uma canção na qual seu amor pegou sambar em
terreiro alheio, de outrem novinho.
Passando em direção à beira do rio, para
contrariar o lugar comum de um homem que mora longe, este indivíduo veio tarde
pro centro, na hora do almoço, zanzando pelas ruas cheias.
Para o que irá fazer, reza o senso comum
que a cidade com menos gente convém à pessoa que não hesita do golpe certo, pois
ela precisa ter em consideração o baixo número de olhos que testemunharão suas
malandragens.
Ainda resta a esperança no bornal deste
contador, porque o homem da enxada no ombro não traz marmita alguma em nenhuma trouxa
de roupa, ou seja, ele quebra o espelho a duplicar o boia-fria no malandro, pois
este aprontará outra das suas com a envergadura moral de quem sabe muito bem o
que pretende aprontar, e ele apronta.
Tratando de não afetar demasiado a
credibilidade de cronista, cujo relato atenta para alguns detalhes de modo a estabelecer
a coerência de quem prima pela verdade, o homem, embora pise pedregulhos com os
pés descalços, caminha sem olhar para baixo.
Na beira do rio, o homem que largou da
enxada procura e encontra uma lata de um palmo de altura, dessas de leite em pó,
que ela há de servir pro que ele quer que ela sirva.
À cada enxadada, minhocas serpeiam no
chão revirado. Sem livrá-las da terra, o homem das enxadadas coloca-as na lata.
E segue dando as suas enxadadas, até que o contenta a lata estar cheia.
O homem da lata cheia de minhocas vai
pela beira do rio. Passando pelos fundos de algumas propriedades, ele para quando
acha galinhas a ciscar, a bicar a terra, a batalhar por comida.
Ele pega uma minhoca de cada vez, limpa-a
da terra e vai fazendo uma trilha, de perto das galinhas até a margem do rio.
Uma galinha não resistiu e o tinhoso torceu-lhe
o pescoço.
Assobiando aquela música dos sete anões,
o ladrão de galinha vai embora. Voltando por onde veio, com a enxada no ombro e
sem a lata das minhocas, o felizardo assobia que vai, que vai, pra casa agora ele
está indo. Levando a galinha morta, ele vai, ele vai, pra casa agora ele está
indo, feliz como o diabo, vai indo.
Depois de meia hora de caminhada, o assobiador
pula a janela dos fundos do muquifo.
― Ramiro, meu irmão, a felicidade de
virar canja para você fez esta galinha estrebuchar. Então, que você fique forte
para voltar comigo pro arraiá do Seu João.
―Tomando quentão, a gente vai suar que
nem leitão?
― Oinc! Oinc!
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 25 de junho de 2024.
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