terça-feira, 25 de junho de 2024

Seu João

 

Seu João

 

Passa um homem levando uma enxada no ombro. Se na ponta livre levasse uma trouxa de roupa, não seria outro retirante, seria a imagem batida de mais um clichê: o de boia-fria que, na trouxa, traz escondida a sua marmita de todo dia.

Confirmando o preconceito, que um homem que traz o seu almoço embrulhado na trouxa de roupa na ponta da enxada é um trabalhador braçal que levanta de madrugada porque mora longe, haverá de trazer botina e boné, além de vir cantarolando uma canção na qual seu amor pegou sambar em terreiro alheio, de outrem novinho.

Passando em direção à beira do rio, para contrariar o lugar comum de um homem que mora longe, este indivíduo veio tarde pro centro, na hora do almoço, zanzando pelas ruas cheias.

Para o que irá fazer, reza o senso comum que a cidade com menos gente convém à pessoa que não hesita do golpe certo, pois ela precisa ter em consideração o baixo número de olhos que testemunharão suas malandragens.

Ainda resta a esperança no bornal deste contador, porque o homem da enxada no ombro não traz marmita alguma em nenhuma trouxa de roupa, ou seja, ele quebra o espelho a duplicar o boia-fria no malandro, pois este aprontará outra das suas com a envergadura moral de quem sabe muito bem o que pretende aprontar, e ele apronta.

Tratando de não afetar demasiado a credibilidade de cronista, cujo relato atenta para alguns detalhes de modo a estabelecer a coerência de quem prima pela verdade, o homem, embora pise pedregulhos com os pés descalços, caminha sem olhar para baixo.

Na beira do rio, o homem que largou da enxada procura e encontra uma lata de um palmo de altura, dessas de leite em pó, que ela há de servir pro que ele quer que ela sirva.

À cada enxadada, minhocas serpeiam no chão revirado. Sem livrá-las da terra, o homem das enxadadas coloca-as na lata. E segue dando as suas enxadadas, até que o contenta a lata estar cheia.

O homem da lata cheia de minhocas vai pela beira do rio. Passando pelos fundos de algumas propriedades, ele para quando acha galinhas a ciscar, a bicar a terra, a batalhar por comida.

Ele pega uma minhoca de cada vez, limpa-a da terra e vai fazendo uma trilha, de perto das galinhas até a margem do rio.

Uma galinha não resistiu e o tinhoso torceu-lhe o pescoço.

Assobiando aquela música dos sete anões, o ladrão de galinha vai embora. Voltando por onde veio, com a enxada no ombro e sem a lata das minhocas, o felizardo assobia que vai, que vai, pra casa agora ele está indo. Levando a galinha morta, ele vai, ele vai, pra casa agora ele está indo, feliz como o diabo, vai indo.

Depois de meia hora de caminhada, o assobiador pula a janela dos fundos do muquifo.

― Ramiro, meu irmão, a felicidade de virar canja para você fez esta galinha estrebuchar. Então, que você fique forte para voltar comigo pro arraiá do Seu João.

―Tomando quentão, a gente vai suar que nem leitão?

― Oinc! Oinc!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de junho de 2024.

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