terça-feira, 9 de julho de 2024

Alguma felicidade

 

Alguma felicidade

 

Apesar que estava chovendo, não me aborreceu que estivesse, ou que o feriado tivesse a agenda perdida, também não me entristeceu a chuva alterar o transcurso de meus afazeres, fui ficando na cama.

Fiquei porque o barulho da chuva era bom.

Gostei de ouvir a chuva caindo, sem que tivesse vontade de gostar ou de prolongar a satisfação que vivia, ouvindo-a cair.

A certeza de que o planejado estava perdido, que o dia seria outro, estava certo de que poderia ser outro para o dia.

Sem desmerecimento ou nódoa, que não entraria na avaliação essa severidade em me repreender pela pusilanimidade ao abraçar o que a hora me ofertava, aquele prazer em escutar o barulhinho bom daquela chuvinha oportuna, bastante natural que me entregasse àquela paz.

Naturalmente que ignorei o adiamento do que estivesse agendado, pois precisava descansar as pernas, queria acalmar as ideias, gostava de passar o dia na varanda, cochilando na rede, mesmo que parado, a ouvir os ruídos da cidade, sem nem sequer identificá-los, censurá-los, reconfortar-me por nomeá-los.

Essa escuta da chuva prescindia que aprovasse o ritmo dos pingos, que o pesasse prazenteiro, hipnótico, calmante.

Vivia a calma sem que o barulho da chuva possibilitasse me sentir calmo. Sem que a consciência interviesse no que vivia, não precisava recorrer à predisposição, que o ser humano sente a calma que deveras experimenta, ou supõe vivenciá-la, apenas porque a chuva é calmante, naturalmente relaxante.

Pelo efeito benéfico que proporcionava, seria estúpido não notar a chuva funcionando feito remédio. Não que fosse potente o bastante pra me salvar do dia adiado, que ela fosse massageadora do meu ego, que a aprecia pela acupuntura líquida, inebriante, revitalizante.

Sem que previsse sua vinda ou pedisse por seu prolongamento, me peguei disposto a escutá-la enquanto, sem embaraço ao admiti-lo, me fosse bom ouvi-la, pois a chuva caía gostoso.

Em outras palavras, se a mim mesmo sou sagaz ao rememorar-me, pouco importava que permanecesse deitado tendo em vista a benesse alcançada, pois não tomei em consciência o viés do ganho vivido.

Feliz, não precisei sentir a felicidade que eu vivia.

A chuva caindo, a cabeça desligada das tarefas, o corpo satisfeito, o hiato à felicidade que o momento criava, então, pra que eu negaria o barulhinho bom, a boa disposição mental, a recusa de correr por correr, o não fazer nada que estava determinado, essa bem-aventurança que o mundo dava de graça, então, como seria capaz de me censurar pelos minutos passando, pela eternidade vivida?

Não fiz outra coisa que não fosse ficar deitado, não fosse gostar da chuva, não fosse nem ligar que a hora passasse, todavia, a fome soou os sinos do meio-dia.

Apesar que a felicidade não dure o mais que a gente queira, a chuva caindo foi o dadivoso do instante.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de julho de 2024.

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