Correio
elegante
Embora a vida corra doida, faço planos.
Já pela manhã, antecipo a promessa de
lidar, do jeito mais honesto possível, com algumas dívidas, mesmo que eu nem
lembre por que as tomei. Mas só sairei pra quitá-las tão logo a água volte, pois
este corpo denuncia que a pincelada de suor de quatro dias é esse cheirinho a
ser removido com água, sabonete e voto.
Quando outubro cobrar as minhas
responsabilidades com o futuro, terei na carteira as imagens aéreas do
reservatório da cidade, tê-las-ei na cabine indevassável pra que a mente não seja
carne porosa, porque os desgovernantes de plantão contam que, numa selfie muito
especial, este eleitor faça o vê da vitória por não passar o vexame dessa gente
que nega fazer o vê de volúvel à saliva dos sabujos.
Por óbvio, tenho mais planos.
Em vez de pagar para que me cavem um
poço no quintal, mandarei pros quintos do inferno a juventude, já que pouco a
pouco assenta-se em mim a idolatria aos sábios que não falam besteira a torto e
a direito, dando-se à elegância de gente sóbria, levemente sorumbática, aquela
gente que perde a chance de jamais ficar calada.
Depois de lavar o senso crítico com a
esperteza de hipnotizar o voto com os postais das águas abundantes, falarei
pouco, pedirei somente que as sobrancelhas e o cavanhaque fiquem
descolorizados.
Segundo ensinaram as postagens que li, descolorização
é processo que não se esgota no ato de instalar-se na sabedoria, descolorizada
é pessoa intrépida que se põe a retocar o que adiante se apresente como
descolorizável.
Mais um dos meus planos para hoje:
marcar o oculista.
Que chegará a vez de testar a miopia, e
terei a prudência de sujeitar os olhos à correção proporcionadas pelas lentes
polidas para mim.
Todavia, não planejo passar na loja de
disfarces para experimentar algum rabo de cavalo que me configure em artista,
pois estou satisfeito com o visual Mister Magoo que ostento.
Como eu não estou cego ao que me é
prioritário, farei calos nos pés até encontrar a bota que muito agrade. Achando-a,
pouco importa que seja modelo feminino, porque o fim justifica que este meu desejo
seja realizado: montado em plataforma de couro legítimo, subirei três belos
centímetros na escala dos baixinhos.
Do alto desta nova grandeza, banhado na
sabedoria que dispensa coque postiço em cocuruto careca, compensado dos
desequilíbrios de meu estrutural patriarcado, explanarei às claras.
É a vocês que me impedem de tomar banho
quando preciso, tornam repugnantes meus sovacos depois de tanto vaivém
protelatório, forçam à confissão ao segurança do mercado que sou realmente
trabalhador; a quem obro diariamente por um mundo ajeitado não digo que não me
engana nem me convence a enganá-lo; a você que supõe poder tudo, voto que me acolha
em minha moderada sinceridade:
― Vai podendo assim pra ver no que tudo isso
vai dar.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 04 de julho de 2024.
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