terça-feira, 18 de junho de 2024

Inigualável

 

Inigualável

 

Estou sendo observado. Não preciso me virar para saber que estou, pois minha nuca sente ser o foco. Sem coceira alguma, coço-a. Apesar de eu não disfarçar o desconforto, a pessoa não faz questão de dizer meu nome. Talvez esteja enganada, que não sou quem ela pensa que eu seja. Pior, ela pode saber quem sou. Então, ela virá até mim e falará comigo. Embaraça-me a ideia, não me viro pra ver quem vem às costas porque não estou a fim de conversar. Eu quero terminar a voltinha com o cão e voltar pra casa sem ouvir as últimas notícias. Apego-me a isso, que não darei o gostinho de ter confirmado o prazer dessa pessoa que tem muito a contar sobre o que seja, da melancolia à euforia. Se houver sol em Ipanema ou nevasca em Ushuaia, acaso surfe ou esquie, pouco interessa o estado da arte. Não brinquem comigo.

― Tá querendo briga, é?

Não, não, o meu embaraço não é tanto pra que impulsivamente me sente no primeiro banco. Talvez seja isso, que ela sinta alguma alegria ao me obrigar a fazer algo. Como não quero ser convencido, sento-me. Faço questão de revelar o quanto estou desconfortável: fixo o olhar em quem me quer constrangido.

A pessoa atrás de mim é uma mulher e ela não passeia com o seu cão. Ainda que ande devagar, como se estivesse passeando um cão, a mulher que me fez encará-la vem acompanhada de uma criança.

― Tá usando uma criança como escudo, é?

Não fique confiante de que domina, você não vencerá. Mantenho a firmeza, não serei passivo. Se quer me confrontar, confronte o que meu olhar está dizendo. Ele diz que estou incomodado, que posso aguentar um pouco mais, que o seu poder não me abaterá. Não gritarei, porque a minha boca dirá bom-dia, acaso você me intime a dizê-lo.

Ela passa, sequer me cumprimenta, ela passa adiante.

A mulher e a criança, eu sei quem elas são.

Os seus nomes eu não sei, mas sua casa fica num imóvel que toma um quarteirão. Sua morada é um casarão de três pavimentos, herança do avô da mulher, a última joia de um patrimônio defenestrado pelo avô da menina, o que adorava apostar.

O haras da família, por exemplo, foi perdido pelo puro-sangue que vencera seis ou sete prélios, vindo a perder o único Grande Prêmio em que, por um dinheirinho cujo montante nem madames nem cavalheiros quiseram saber quanto foi, o aceitaram que disputasse.

Barro a digressão, pois prefiro rememorar as qualidades do bisavô da menina impedida pela avó de afagar o meu cão, que até sentou tão logo começou aquele tatibitate.

Ainda hoje, contam que foi o homem mais rico em todos os tempos. Naquele tempo, rico era o homem que produzia o leite e o pão postos na própria mesa. Ele vendia queijo às Minas, mandava ovos ao Rio e doava farinha às padarias da cidade.

Investia nas candidaturas dos postulantes à prefeitura, pois o jogo democrático pedia que não fizesse a injustiça de ter um preferido.

Era milionário, porém democrata.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de junho de 2024.

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