Inigualável
Estou sendo observado. Não preciso me
virar para saber que estou, pois minha nuca sente ser o foco. Sem coceira alguma,
coço-a. Apesar de eu não disfarçar o desconforto, a pessoa não faz questão de
dizer meu nome. Talvez esteja enganada, que não sou quem ela pensa que eu seja.
Pior, ela pode saber quem sou. Então, ela virá até mim e falará comigo.
Embaraça-me a ideia, não me viro pra ver quem vem às costas porque não estou a
fim de conversar. Eu quero terminar a voltinha com o cão e voltar pra casa sem
ouvir as últimas notícias. Apego-me a isso, que não darei o gostinho de ter
confirmado o prazer dessa pessoa que tem muito a contar sobre o que seja, da
melancolia à euforia. Se houver sol em Ipanema ou nevasca em Ushuaia, acaso
surfe ou esquie, pouco interessa o estado da arte. Não brinquem comigo.
― Tá querendo briga, é?
Não, não, o meu embaraço não é tanto pra
que impulsivamente me sente no primeiro banco. Talvez seja isso, que ela sinta
alguma alegria ao me obrigar a fazer algo. Como não quero ser convencido,
sento-me. Faço questão de revelar o quanto estou desconfortável: fixo o olhar em
quem me quer constrangido.
A pessoa atrás de mim é uma mulher e ela
não passeia com o seu cão. Ainda que ande devagar, como se estivesse passeando
um cão, a mulher que me fez encará-la vem acompanhada de uma criança.
― Tá usando uma criança como escudo, é?
Não fique confiante de que domina, você
não vencerá. Mantenho a firmeza, não serei passivo. Se quer me confrontar,
confronte o que meu olhar está dizendo. Ele diz que estou incomodado, que posso
aguentar um pouco mais, que o seu poder não me abaterá. Não gritarei, porque a
minha boca dirá bom-dia, acaso você me intime a dizê-lo.
Ela passa, sequer me cumprimenta, ela
passa adiante.
A mulher e a criança, eu sei quem elas
são.
Os seus nomes eu não sei, mas sua casa
fica num imóvel que toma um quarteirão. Sua morada é um casarão de três
pavimentos, herança do avô da mulher, a última joia de um patrimônio defenestrado
pelo avô da menina, o que adorava apostar.
O haras da família, por exemplo, foi
perdido pelo puro-sangue que vencera seis ou sete prélios, vindo a perder o único
Grande Prêmio em que, por um dinheirinho cujo montante nem madames nem
cavalheiros quiseram saber quanto foi, o aceitaram que disputasse.
Barro a digressão, pois prefiro
rememorar as qualidades do bisavô da menina impedida pela avó de afagar o meu
cão, que até sentou tão logo começou aquele tatibitate.
Ainda hoje, contam que foi o homem mais
rico em todos os tempos. Naquele tempo, rico era o homem que produzia o leite e
o pão postos na própria mesa. Ele vendia queijo às Minas, mandava ovos ao Rio e
doava farinha às padarias da cidade.
Investia nas candidaturas dos
postulantes à prefeitura, pois o jogo democrático pedia que não fizesse a
injustiça de ter um preferido.
Era milionário, porém democrata.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 18 de junho de 2024.
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