domingo, 7 de julho de 2024

Calmaria

 

Calmaria

 

Quando dou ouvidos à razão, estrepo-me. Na alma, tenho enfiados espinhos bastante dolorosos, me doem tanto que parecem reais. Estou fixado em somente uma finalidade: voltar a dormir.

Distraído pela friaca que tanto me assedia, exagero nos cobertores, calço meias de lã, cubro a calva com gorro de lã, acresço acolchoado, mas eu acho ridículo ter que me certificar que o vidro da janela está tal qual o deixei ao me deitar: à vera, bem fechado.

Como me desassossego do calorão da madrugada, diz-me a razão que devo perceber o ambiente sem dar trela às angústias, que trazem pinguins abocanhando trutas em riachinho, pois só eu mesmo, volta e meia meio patético, pro capricho de imantar o ar com o inverno doutra noite, duma a zero grau, e não esta d’agora, a doze.

Ao deitar, avaliei mal a cachola quando a orientei que largasse das bobagens, que me amparasse no que tenho de bom, no coração.

Pra amanhecer ontem, levantei sem vontade de urinar, forcei-me a urinar, continuei exigindo que conseguisse urinar, comecei a suar, senti gotas de suor descendo pela testa, as mãos suadas, a camiseta colada no peito, brotou uma dorzinha, veio o formigamento, a falta de domínio me fez querer brecar, insistindo em parar mais eu suava; e a garganta, seca de tanto agir feito nariz, disparou a sirene; nocauteado, acordei: não sonhava, tremia-me todo ― já suado, já mijado.

O xis da questão é encontrar um sentimento mais positivo, algo que substituísse o mal-estar por outra satisfação.

Bom seria que tivesse acordado um segundo antes?

O que ontem eu passei não me resolve o presente, portanto: tiro o acolchoado, a manta dobrada, o cobertor, o gorro, as meias, mais um cobertor e o conjunto de moletom ― calça e blusa.

Será que a cueca liquidará esse perrengue?

Ligo o celular. Vejo vídeos. Adoro gatinhos; tanto os adoro que até ronrono sem nem mesmo fantasiar estes muxoxos. Cumprida a missão de ronronar a gatinhos no celular, me desligo.

Como preciso de um banho, uma ova que voltarei a dormir.

Em vez do banho, tiro a cueca. Em vez de cautela, diatribe. No lugar do coro de anjos, os sussurros demoníacos na minha cabeça. Troco a paz entre os homens pela guerra aberta à sensatez: pelado, deito-me debaixo da cama.

Nada de novo: retorno à postura sequer repensada.

Podia alegar cansaço, esgotamento, tibieza, asnice, malemolência, tudo junto no mesclado? Nem podendo!

O que posso, não faço. Fico deitado, e meu corpo começa a tremer. Sem dúvida, reconheço que está frio. Sei, o calorão do transe foi ilusão. Nada febril nem racional, penso na solidão que me apequena, maltrata, desconsidera: coberto de suor, me mascara esse rosto.

De fácil compreensão, às três e trinta de outra madruga hibernal, é saber desesperador ter-se desafeiçoado da pessoa que anestesia das dores assaz afrodisíacas.

Raios! Cadê o contato do dentista?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de julho de 2024.

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