domingo, 8 de maio de 2022

Fora da caixa

 

Fora da caixa

 

Este senhor careca, barrigudo, com cara enrugada que outrora fora cravejada de espinhas, esta pessoa que passeia vira-lata sapeca em vez de furiosos pinscheres, você por acaso é quem se apresenta como sendo um tal Rodrigues?

Seu Rodrigues ao seu dispor, madame.

A madame sabe meu nome de batismo. E diz que morei numa casa que, no quintal, tinha uva, chuchu, cana e limão.

Ela, todavia, está enganada, porque o chiqueirinho pras leitoas dos almoços inesquecíveis ficava depois do muro, no terreno do meu avô.

Pensando bem, atrás da casa dos meus pais, o que estava plantada no cimentado do quintal era só uma edícula cheia de tralhas.

Aquela senhora, que se revela minha vizinha de infância, vem a ser a menina que, faz já uns cinquenta anos, viera sentar-se à porta do bar em que meu pai jogava porrinha com os parceiros de garganta afiada.

O honesto começou a destilar a honestidade como se fosse a mais antiga das vocações dos homens de bem:

ꟷ A buzina deu mais graça à freada brusca, porque é bem divertido assustar a fila indiana de mãe com suas crias.

O sincero quis rechaçar com acentuada dose de sinceridade:

ꟷ Discordo, a maior conquista que o automóvel poderia ganhar vem a ser o freio a disco. Acima das freadas barulhentas vem a necessidade de fazer com que os pneus durem mais. E rastro fedorento é bem nojento.

O austero ralhou com autêntica austeridade:

ꟷ Deixem de besteira. Bicho moderno que automóvel é, a sua glória está em rodar o mundo muito além de comportadas alamedas floridas.

Ao enigmático restou cometer outro dos seus enigmas:

ꟷ Carro na mão de barbeiro não é navalha, é guilhotina.

A madame que acorda algumas memórias é Madalena.

Madalena, é claro!

Na casa da Madalena tinha um cachorro engraçado que balançava a cabeça quando a gente batia a porta da geladeira.

Tinha também uma família pinguim: o pai e a mãe usando cachecol, verde pra ele e rosa pra ela; a trupe de filhotes era composta pelo maior com camiseta escrita Palestra, pela do meio de suéter xadrez em tons de rosa e, sem sequer um trapinho, pelo caçula de óculos escuros.

Foi na casa de Madalena que me enfiei naquele domingo, uma vez que o pai e a mãe deviam estar batendo boca por causa de um assunto fundamental, como pôr alecrim ou manjericão em molho de tomate.

Mas a mãe foi me apanhar, deu a minha mão pro pai. Ele e eu, nós descemos pro centro, entramos no bar em cuja porta conheci a menina que jurou que iria ter filha aos quinze anos, que iria preparar a filha pra ter filha aos quinze anos, que a ela lhe daria uma filha aos quinze anos, que faria uma filha aos quinze anos.

Ou seja, não trataria a prole como se cuida de uma boneca de laca fina no estojo, joia frágil, patrimônio que tem o seu valor preservado se o mundo não arranhar a face lisa de diamante.

Pra sua trinetinha que faz o diabo com o skate, Madalena sorri toda, toda, satisfeitíssima da vida.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de maio de 2022.

quinta-feira, 5 de maio de 2022

Por um punhado de pirulitos

 

Por um punhado de pirulitos

 

O homem preocupado que dorme a noite toda não se apavora que os soníferos não façam efeito, pois ele tem inteira confiança no médico que os receitou quando lhe contou das suas muitas ansiedades.

Realista que intui as decorrências do que diz, o homem ponderado nem se lembrou das pombas que estão aninhadas logo acima da cama onde ele se deita.

O homem que passou a dormir mal mesmo sem pensar nos bichos entre o forro e o telhado toma pílulas sem ligar os problemas pra pegar no sono com a vontade de acabar com o barulho de outra cambada.

Se pagasse alguém pra limpar a casa, ouviria como homem que se tranquiliza ao saber que tem só uma quadrilha de ratos sob os pés.

O homem que anda descalço a maior parte do tempo que passa em casa não acha certo associar suas angústias com aquelas pragas, pois seus fantasmas não precisam de drogas lícitas pra atormentá-lo.

As pombas, os ratos e os morcegos, que ainda nem haviam entrado na história, são vítimas de preconceito. São outras súcias que circulam na sociedade que causam engulhos, espasmos e calafrios no homem que muito se assombra com a extinção da humanidade.

O homem enojado que engole antiácidos depois das refeições tem que comer pouco pra não piorar a má digestão. E ele bebe água como se bebesse vinho, querendo-se anestesiado, encharcado, tornando-se no homem borracho que não para em pé.

Como o vento da madrugada não sopra quando mais precisa, o tolo que não fica bêbado com água filtrada sonha que tem uma rachadura crescendo noite após noite.

O homem que acorda preocupado com a trinca no teto bem acima da sua cabeça tem que deixar um bilhete na mesa ou cuidará somente de comer pão com margarina na pressa de cada dia.

De repente estressado, o homem que não se levanta da cama nem pra anotar o que precisa resolver quando a manhã chegar, todavia, ele não tem que torcer pelo time do coração. Caramba, ele torce.

Precisar não é querer.

Não é preciso que o time do coração ganhe o campeonato pra que haja felicidade. O coração do torcedor bate feliz porque ele comemora toda vitória, não apenas quando levanta caneco.

Pôr faixa no peito é glorioso, mas tem empate que pede breja.

Ainda que hoje não haja jogo, dá-se um jeito pra ver de novo o que já se houvera visto.

Vai saber se um detalhe importante tenha se perdido na correria de quem só para pra reclamar do pulha, safado, sem vergonha, juiz ladrão que não apita direito.

O homem distraído pela vida sente que não pode se deixar trair pela vontade de não se perder por aí, porque muita gente peca quando mais teme agir como pecadora.

Coisa boa é dormir ouvindo a chuva caindo mansa. Não precisa ter chuva. Não basta querer que tenha chuva. Talvez até faça bem querer que a chuva venha quando a gente precisa que venha tão calma e boa.

O homem que não faz drama porque anda carente de amor trata de chegar cedo ao consultório.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de maio de 2022.

terça-feira, 3 de maio de 2022

Bem engraçado

 

Bem engraçado

 

Manter-se em dia com a vida tem lá as suas complicações. Quando parece que tudo vai continuar na temperatura imperceptível de sempre, a realidade toca fogo no enfadonho como pimenta das brabas.

Já que estímulos pipocam sem avisar, é preciso controle incomum para não bobear um instante.

Querer dedicação absoluta é um desejo impossível de ser atendido, pois é um tal de luzes dispararem piscar do nada e alarme, vira e mexe, soar alucinado.

À cachola, essa rede de múltiplos curtos-circuitos, chega o veredito acachapante: o mordomo da culpa fica sendo a eletricidade.

Como o perigo tira sarro de gente desligada, a reconexão pelo risco é uma picaretagem sem tamanho. Que o ouro de tolo também produz faíscas, faz brilhar o ramerrão do prosaico do cotidiano como poesia a quem entediado com o céu azul que não relampeja nem a pau.

Esfregar na cara a lama nada curativa só emporcalha o beligerante acomodado à própria sombra, porque o paspalho faz bonito quando se entrega à importância que tem, como bobo que canta e dança.

Raio! Não é pra ficar rico que se passa o chapéu, que dê pro almoço está bom da conta. De curtida em curtida, vai a vida.

Não cabe desprezar quem acalanta o tédio como mocotó insosso.

Se registre que arrulhos chinfrins, piadinhos chatos e cantorias bem irritantes não têm poder pra divertir quem se inocula de dancinhas que o celular nem esquenta de procriar aos milhares.

Viva! Não se conhece vacina pra viralizações estupefacientes.

Coitado de quem leva a sério a ideia de viver concentrado em tudo que faz. É que a vida, platônica só no papel, sempre apela pra urgência fora do combinado. E determinismo estoico é para gente que tem medo de pôr-se em xeque a cada segundo.

Sem visar a nenhum especial exorbitante, o mundo de cada dia não entra em pane por excesso de energia no sistema.

O crime não compensa, então, é melhor não palpitar que ninguém colapsa em desespero apenas por chamar de pânico a falta de ar, suor frio e a sensação de perigo iminente.

O charlatão avisa que a pessoa que acha que vai ter um ataque de pânico já está no meio de um. E charlatães, caraca, nunca erram.

Quem não erra não se extravia, não se perde, não se desencontra, não se desvia. É provável que afunde na areia porque não consegue parar de babar ou, bem mais provável, nem sente que está babando.

A tela do micro mostra um e-mail que não está terminado.

Toca a campainha, são os livros. Toca o telefone, é trote.

Remédio tem hora certa. Ave Maria tem hora certa. Pro médico, tem que marcar hora. Com cartomante nem precisa combinar nada.

E o futuro segue o seu curso.

A tela do micro mostra que ela continua igualzinha.

Há rascunhos não terminados, só não há curiosidade de saber que conteúdos eles têm. Há endereços para enviar os e-mails, mas isso vai ficar para depois.

Quando passa com um cafezinho, a raiva tem muito mais graça.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de maio de 2022.


domingo, 1 de maio de 2022

O fúfio impressionante

 

fúfio impressionante 

 

Alegar cansaço funciona como desculpa quando a preguiça corrói o desejo de correr pro beco sem saída, porque esgota querer entender a tentação de continuar de papo pro ar só mais um pouquinho.

Pode-se atribuir a banana amassada as câimbras não começarem a formigar nas pernas por permanecer um tempo encarando o teto.

Embora lacrimejantes nem bem se pense em outra pratada daquela bananinha no capricho, ocorre gabar-se verdadeiro mestre na arte zen de manter-se de olhos abertos.

Sem atributos mentais para imaginar as maravilhas do potássio nas fibras da carne, o que acalma mesmo a alma é imobilizar-se o quanto puder. Sossegar-se para que a vida seja um tantico mais doce.

Sim, sim. Sendo dócil, que a cura venha do vício. Pois esse mundo, doce mundo que lateja nas entranhas, pra que sua saudável influência chegue à pele, o jeito é praticar a terapia de ter um tapete às costas.

Se não rejuvenesce, suspende a pressa de quem sofre por motivo fútil. Descompassando a passada, a vontade somente ganha tempo se dispensada a ânsia de cronometrar-se atento e forte.

Ainda que a força do pensamento faça o milagre da erradicação dos ponteiros, o relógio da cachola, de maneira perfeitamente justa com os tendões e os músculos, opera a multiplicação do bem-estar.

Parabéns à inércia, que potencializa os efeitos da vagabundagem.

O vagabundo exemplar, aquele que sabe que é uma besteira muito grande preocupar-se com a terra de ninguém que a digestão instala no cérebro, é em nome da concórdia entre neurônios e sinapses que ele se abandona às ondas muito mansas dos pensamentos domesticados, paulatinamente amestrados pelo prazer de vagar a esmo.

O esqueleto aplaude a atitude de estar largado no chão.

Largado nada, é cativo da ideia de ver-se livre de salvar a vida.

Uma pessoa, qualquer pessoa, tem o direito de curtir esse tempinho bom de poder respirar nessa bolha de quietude, respirando sem ter nos ombros o peso danado da consciência grandiloquente.

Dá alívio baixar o tom à beira do sussurro, até raspar o silêncio, sem medo de vagar dentro desse refúgio mental, pois não é preciso pensar em derrotar o tique-taque que trabalha neuroticamente pela indigestão da barriga cheia de vento.

O espinho que explode esse mundo frágil são os ventos fedorentos, as balas disparadas pelo riso. Como banana podre seduz mosquinhas, rir sem compromisso com o pudor estimula os flatos.

Levada, a mente fomenta o riso descendo pela espinha, cozinhando no fogo do desassossego o gostoso do instante, e o corpo azeda tudo soltando um pum atrás do outro.

E cadê janela que não há? Se não há, esses momentos de preguiça são necessários. Como a vida é breve, pra que esquentar a cabeça de modo infrutífero?

Então, esse homem que não se presta a mudar de lugar se assanha a não parar de rir desavergonhadamente da situação.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de maio de 2022.

quinta-feira, 28 de abril de 2022

A melhor ideia

 

A melhor ideia

 

É agora, pegue o telefone. Ligue, mande mensagem, envie e-mail. É momento de celebrar, sim. Telefone, faça os convites.

É hora de voltar-se ao que não está perdido. Faça com que a alegria de estar entre os seus seja uma porta aberta. Mostre-se a quem deseja entrar que o convite é por afeto, que encontrar-se novamente pode ser tranquilo. Em circunstâncias de camaradagem, abrace o instante.

Não coloque em dúvida que seja possível realizar o que a pandemia tornou arriscado que fosse realizado. Houve realmente a necessidade de distanciamento, mas não há mais. Faça com que o ambiente esteja acolhedor a quem pretende estar presente. Torne-se um presente.

Sim, o instante é de acolher sem medo, ou apesar do medo. Porque nem todo mundo sabe agir como o esperado, não suponha que haja o padrão correto de comportamento.

Quem for de rir que ria; quem goste de resmungar que resmungue; que sorria quem acha graça de quem resmunga de quem ri à toa.

Que este momento seja de reunir-se, ainda que a desconfiança faça pensar que tudo pode pôr-se a perder. Que as pessoas se encontrem, ainda que tantos continuem a não se entender sobre tantas coisas.

Um encontro não precisa necessariamente ser festivo. Fracassarão as reuniões cuja meta seja o congraçamento universal. Não que esteja fadado a fracassar, pois fracasso é coisa humana e não existe destino, ou força metafísica, que condicione o que os homens fazem.

Assim como nem todo mundo tem a obrigação de agradar a quem quer que seja, tem quem fique feliz por necessidade. E tem quem aja com naturalidade, sem ficar avaliando o quanto está sendo feliz. E tem quem procura a felicidade em tudo que faz, e isso afasta quem oferece a mão. Pois, não tenha a obsessão de cumprimentar sinceramente.

É ridículo não dar folga nem a si mesmo.

Não mostre que a sua prioridade é estabelecer condições para que pessoas queridas conversem em paz. Sirva água, suco e refri sem que isso acarrete, em retribuição, um diálogo educado. Sirva cerveja, vinho e caipirinha sem cobrar dignidade aos bêbados.

Querer controlar o máximo que puder é arrumar dor de cabeça, pois as pessoas podem, com razão, se irritar quando impedidas de escolher com quem sentar-se. Já as que perdem a estribeira com sol e chuva, essas se alegram fácil, divertem-se muito e, sem surpresa, tornam-se insuportáveis sem que se saiba por quê.

Havendo ocasião, comemore-se. Do jeito que for. Sem enfiar o pai ou a mãe no meio ou pondo-os à roda. Tirando as crianças da sala ou dando-lhes o microfone. Acendendo a luz, abrindo as janelas, correndo as cortinas. Pondo no futebol. Esquecendo de prender os cachorros ou soltá-los pela casa. Servir pizza às três da tarde ou pudim de pão antes do arroz primavera.

Ou disso um tanto ou daquilo um nada.

Por redundância tão óbvia, um Dia das Mães perfeito é o ideal.

Tem ideia melhor?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de abril de 2022.

terça-feira, 26 de abril de 2022

O sétimo selo

 

O sétimo selo

 

Eram dez os desejos que listei de pronto, assim que ouvi que vamos ter outra loteria, a Milionária, logo mais, quiçá em maio.

Eram dez e viraram sete, e o número não foi reduzido pra que sejam feitas associações místicas com o cabalístico algarismo do período de azar a quem quebra espelho em mil pedaços.

Eram dez, viraram sete e, como o dragão da inflação despertou da hibernação, estou torcendo para que a bolada do primeiro sorteio seja suficiente pra que eu consiga realizar os tais desejos.

Espero estar rico da noite pro dia? Ou nem vou jogar.

Espero ganhar uma grana que tire o sono? Ou será coisa de sonso ficar conferindo se os tostões continuam na carteira.

Espero não me esquecer de que preciso sonhar os números certos quando a hora augusta chegar.

E o momento da revolução chegará, e ele virá porque os ventos da bonança estarão soprando a favor, porque em maio não sopram ventos nefastos. Afinal maio é o mês das noivas e das flores que não se abrem em outubro ou agosto, e elas valorizam maio.

E tão valorosa reação vai ser favorável ou serão da carochinha as folhas que narram o feliz achado de caravelas que vieram dar às costas deste abençoado país em cujos costados tudo que se planta as saúvas atacam.

E na memorável fábula deste escriba será lido que tive a vida virada no avesso, do sonho pra realidade, e realidade das boas.

E, pra não afrontar quem contribui compulsoriamente na fonte, esse conto renderá maior atrativo se permanecer restrito às ações discretas, como a distribuição de pão francês com margarina à metade da gente que venha me pedir chorando à toa.

E, em reconhecimento dos meus feitos, farei mesmo uma boa parte.

Esta narrativa nada homérica nem dantesca será cantada pela arte de ídolos, tão espontâneos ao cobrar algum jabaculê, porque pão com mortadela há de vir quando tudo melhorar com a carestia.

Eram dez os desejos mas restaram sete, pois a cabeça erra a conta se pressionada a separar mentirinhas, notícias falsas e maracutaias. E isso de misturar robótica com internet é invenção cabeluda.

Eram dez e ficaram sete, pois a verdade diz que o dinheiro da loteria servirá pra pôr leitos nos hospitais, câmeras nos uniformes e pedágios nas estradas, rodovias e picadas já asfaltadas.

E a tristeza triplicará em quem não tolera transparência.

E mais angustiado ficará quando souber que minha vigorosa saúde mental revela no sonhador o realista, como quem não esquece os oitos dígitos, que são diferentes dos números da data do meu aniversário, e farei miséria se digitar corretamente.

E, sem quartel, correrá de boca em boca que a alvorada deste novo futuro será enaltecida pelo céu de brigadeiro, por gaivotas flanando em velocidade de cruzeiro e urutus saídos dos seus buracos.

E, por fora, os governos se espelharão no empenho desse primeiro ganhador bem milionário ou nada feito.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de abril de 2022.

domingo, 24 de abril de 2022

Surdo da madrugada

 

Surdo da madrugada

 

Não me ocorre ir da água pro vinho, porém, se ocorresse de querer uma mudança tão radical, suponho que um número desconhecido teria de parar de ligar quando a gente está almoçando.

Pelo prefixo, já estou ouvindo a pessoa do outro lado da linha dando o melhor para empurrar o que sequer tenho interesse de saber do que se trata.

Tentativas de persuasão de trocar um plano de saúde por outro bem mais vantajoso são vãs, porque a insistência não me fará escutar o que não quero nem ouvir.

Prefiro concordar com meus botões que me dissuadem de espumar de graça, porque ter o celular tocando não implica que alguém se sinta obrigado a atendê-lo.

De jeito nenhum que vou parar de comer, uma vez que seria idiotice deixar esfriando o bife na ponta do garfo. Até adivinho que só pode ser aquele número chato que sabe muito bem o quanto precisa importunar pra me ferver os nervos.

Todavia, a um telefonema da perda da elegância, me vem à mente o que li outro dia. Por uma convivência menos desaforada, o manual é direto: fique calmo, fique bem.

Se não estivesse precisando arrumar serviço que me permita pagar a luz, eu desligaria o aparelho. Como não posso agir contra mim, tiro o som do celular.

O telefone começa a vibrar. Deve ser um teste, porque, contrariado, vou acabar negando o preceito: fique bem, seja feliz.

Neste momento, a minha felicidade depende de um analgésico pra dor de cabeça. Ainda bem que é o comprimido certo que eu tomo.

Aborrecido, irritado à beça, a saída para aliviar a carga do que está chateando é lavar a louça. Vamos! Seja feliz, faça o possível.

Faço o possível, sou racional.

Sim, senhor, sou um praticante da racionalidade cidadã. Numa boa, termino de lavar tudo e enxugo a pia. Já que sou uma pessoa bastante racional, o que usei pode muito bem ficar no escorredor. Uma vez que não gasto energia enxugando talheres e prato, tenho reservas para me controlar. Sob controle, não brigo com quem está fazendo apenas seu trabalho.

Sim, senhora, não sou gente que vive criando caso só porque a tela do telefone acende quando recebe uma chamada. Sim, ela está acesa novamente, toda chamativa, com mais uma das chamadas que servem pra gente perder tempo.

Sim, senhoras e senhores, sou um cara que não se apavora diante dos contratempos. Manter-se frio é meio caminho andado pra não criar fantasma que venha assombrar um sujeito pacato.

Esse negócio de assombração, aliás, dá pano pra manga pra quem é chegado a apavoramento. Que peninha, o suco denso acaba aguado pelo exagero de botar gelo para disfarçar o gosto ruim. E o que não dá pra beber vira prejuízo quando o copo é virado no ralo.

Não jogo nada. Bebo num gole que nem respiro.

Nestes dias de carnaval pós-pasqualino, posso respirar com calma e ficar de boa sem me aborrecer com besteira.

Como consigo?

Me desligo do mundo ao entrar de cabeça na batida das escolas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de abril de 2022.

quinta-feira, 21 de abril de 2022

Vira-latice

 

Vira-latice

 

Um vira-lata alegra mesmo a gente?

Por mais sedutoras que se apresentem, não aceito barganhas. De modo algum, porque acho deplorável o rebaixamento de desabonar a verdade que estou sentindo. Embora soe impertinente a quem esteja acostumado a escutar-se até mais correto pela boca dos outros, prefiro elogiar o vira-lata que não leva o mundo à breca.

Sem a empáfia de envaidecer-me ao dizê-lo, sou tendencioso. Uma vez que não há de ser por fogacho qualquer que avivo em mim a paixão que me faz esta pessoa solar, tropicalíssima.

Se me for lícita a lisonja da simplicidade da boa-fé, repasso a quem afeito a ludibriantes aviltamentos conciliatórios que fique à vontade pra proclamar o seu mais vetusto puxa-saquismo pacificador.

Em outras palavras, não se cobre de mim que me coloque alinhado àquele que torce pro buraco no meio da passada da gente que vai em frente, que segue cavando um lugar ao sol.

Ao sol, passem carros, suas calotas e buzinas, que o vira-lata pode correr, latir e sossegar-se, pois ele é que sabe dos seus quereres.

Se porventura ainda não me fiz cristalino, reitero que espero de mim não me pôr tosco, agindo como quem se acha livre da imbecilidade por rir abertamente da desgraça de quem sofre.

Esclareço, quem vive sem vislumbrar outro futuro que não seja o de viver mágoas a cada dia, essa gente se diverte como pode, quando dá, pro alívio que consiga alcançar.

Feita a ressalva, quero que esteja garantida a justa isenção perante os fatos. Ou limpe-se a lente imunda, e tacanha, que insiste em ver no vira-lata um bicho feroz que ataca a vida que morde na jugular.

Sem monstruosidades de espetaculoso mau gosto, na casa ao lado da minha tem esse animal atento ao que há além das grades.

Neste quintal, o bicho está pra lá e pra cá, o tempo todo, dia e noite, com sol ou chuva, passando ambulância, polícia ou bombeiros, ele fica mesmo indo e vindo, sem latido algum que denuncie sua presença. Por um relato menos infiel, digo que ele não se deixa abater por fome, sono ou cansaço, porque este cão é muito, muito capaz de esquisitices.

Não que seja exemplar raro. A sua genética vem de linhagem pura. A sua postura é pra defesa. A sua mandíbula é forte. Seus dentes têm fio agudo. A sua determinação é fruto de aprimoramentos. Está pronto pra aniquilar o que represente ameaça à inviolabilidade do lugar onde está confinado. É criatura a postos pra selvajaria necessária. Astuto na vigília, não late às pombas que vêm ciscar, destroçando-as de assalto.

Caviloso, não esconde que é o cão.

Como não peço desculpa, não me ocorre pedir perdão por estragar o sossego de quem não ignora o dia lindo, o céu azul, o outono ameno, que tudo neste instante é em prol da reconciliação do ser humano com o universo que o circunda.

Seja desculpado o poste pelo qual passa batido o vira-lata que, sem falso pudor, mija no chão mesmo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de abril de 2022.

terça-feira, 19 de abril de 2022

Angelical

 

Angelical

 

Amiga Angélica está no sítio. Veio na quinta-feira à noite, depois de mais um dia trabalhando porque precisa. Tem contas pra pagar. Faz o que é preciso, porque as suas contas são do tipo que não prescrevem, nem quando deixadas nas gavetas. E como faltam outras gavetas, que não façam evaporar o cheirinho das bugigangas tentadoras pra seguir no rastro de juros sobre juros, essa trilha argentária que às vezes nem se apaga depois de comprovada a dívida liquidada. Para não ficar mais aborrecida do que está, veio passar a Páscoa no sítio.

Amiga Angélica, tão miseranda quanto nos dias em que tem mesmo que se entregar a fazer negócios que aumentam seus aborrecimentos, está com os celulares ligados, precisamente porque seus dias de ócio são ficção. Nem inventados nem de mentira, são crias de suas vigílias contaminadas por ansiedades. Já que não dorme mais que três horas seguidas, acordando para nada, para assuntar tudo, a esmo. Só que a aurora entra pelo quarto, coçando-a pros compromissos que poderiam pegar um solzinho bom na piscina mas que não se deixam adiar nem com telefone de bateria arriada.

Amiga Angélica gosta de e-mails, e vai enviando, curtos, longos, do jeito que anda a sua cachola, sempre cheia de opiniões. Dar com uma vara na mangueira pra comer sentada à sombra ou baixar o sarrafo em governante que não quer blocos na rua? Faz os dois.

Amiga Angélica toma gosto por um pensamento súbito. Justamente porque soa estapafúrdia, vai ajuntando os cacos até que se convença de que aquela bobagem sabe parar em pé. Pegando num apoio aqui e tomando uma escorregadela ali, em nome de uma sexta mais viva.

Amiga Angélica, sem paciência pra aguardar, diz que a pessoa que chega ao topo não deveria sentir vergonha de ser hipócrita. A felicidade não tem preço, logo, pague-se mais a quem trabalha como se gostasse realmente do que faz. Pessoas que se alegram em fazer melhor o que vêm fazendo pra subir na vida merecem ganhar mais. Elas sabem que estar no topo é ocupação momentânea, porque ninguém dura no cargo mais do que o necessário.

Amiga Angélica emenda, já que não tem dinheiro na vida que pague a felicidade alcançada, quem chega ao topo tem mais é que trabalhar por amor, sem salário. Com tanto que fazer, é desonroso ficar brigando por salário, implorando por reajuste ou entrando em greve todo ano.

Amiga Angélica, que não sossega, diz que o certo é cobrar caro por fazer o que não gosta. Fundamental é esconder o medo de viver ao fio da navalha. É feio perguntar por rede de segurança. Ao olhar pra baixo, não se tenha vertigem nem súbitos de pular. O importante é saber que a vida não prega surpresas e a jornada esgota ao longo do expediente. Seja incluída a angústia de morrer no meio do caminho e enfie-se ágio polpudo no negócio, uma vez que desprezo vale muito a pena quando entra uma bufunfa graúda na jogada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de abril de 2022.

domingo, 17 de abril de 2022

Sobrecarga

 

Sobrecarga

 

Uma gritaria começou de repente.

Para que a minha curiosidade não virasse desdém, fui conferir que arruaça era aquela. E fui porque, sem nenhum traço de extraordinário, a um morador pode, sim, acontecer de ficar preocupado com o que se passa na vizinhança.

Aliás, a balbúrdia me tirou de um sonho meia boca que aborrecia a cada segundo, porque eu fui ficando mais e mais decepcionado com a florzinha que deveria abrir-se às onze horas e, passados dez minutos, pitibiribas de a bendita florir respeitando o próprio nome.

Dois camaradas da velha guarda gritavam.

ꟷ Deixe de frescura. Desça logo.

ꟷ Só que o pessoal vai ficar zoando com a cara do cidadão.

Esse camarada que, aos berros, se referia a si na terceira pessoa é dessas figurinhas carimbadas. Gente que se faz única pelas histórias que, apenas contando, não dá pra levar a sério que tenham ocorrido.

Se eu tivesse permanecido invisível no meu silêncio de espectador, teria ficado de fora de outra roubada, mas não resisti a pagar pra ver.

ꟷ Que barraco é esse na rua? Vocês não vão almoçar, não?

ꟷ Justamente! O bonitão aqui quer ir pro churrasco de pijama.

De pijama, e não haveria novidade.

É que vestido assim, na certa, dará problema. Sempre dá, e vai ser enrascada das grandes. Parece que os reis da baixaria têm predileção por essa pessoa, que bebe umas a mais e adeus bom comportamento.

Certa vez, ele chegou antes do dono da casa. Sentado no meio-fio, ficou bebericando uma garrafa de vodca. Sem estresse, numa boa, foi tomando a sua vodiquinha que até perdeu a conta de que opinião torta não fica afetada por boca torta.

Como língua de bêbado solta a trava, disparou o que não devia.

ꟷ Cê nunca respeita os outros, hein? Cê acha que pode fazer o que bem entende, hein? Porque a casa é sua, a churrasqueira é sua, então, tudo bem? Pra deixar de ser besta, cê um dia vai tomar um murro bem dado na fuça. Mas não se preocupe comigo, porque não vai ser eu que vou enfiar a mão no cê. Só que daí eu quero ver se o cê vai ter coragem pra reclamar do sopapo. É, folgado, chegar atrasado não tem graça. A picanha deveria estar no fogo faz tempo, seu bocó. E vai ter espertinho que vai vir alugar a minha oreia, mas a culpa pela demora não é minha, cacete. Só que ninguém vê o trabalho que dá preparar a carne do jeito certo. É meu nome na reta. Quem vai comprar a carne certa, com a cor da peça do jeito que tem que ser, quem sabe fazer certo, quem é? Sou eu. Não tem pra ninguém, pois ninguém deixa a picanha no ponto que nem eu deixo. Pra carne não ficar dura nem perder o sabor, o segredo está no sal grosso. Sem modéstia, meu caro, sei como deve ser duro pra engolir que eu sou melhor picanheiro que você.

Onde a carga pesa, o riso alivia.

Daí nem precisa esfregar na cara de quem não acredita na verdade, que a cabeça leve bola fácil um aplicativo que mostre o quanto a capa de gordura faz mais rico quem vende picanha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de abril de 2022.

quinta-feira, 14 de abril de 2022

Dicas

 

Dicas

 

Quando cobram de mim que me posicione sobre algum assunto que esteja bombando no momento, não preciso fazer esforço porque tenho facilidade pra me localizar em meio ao tiroteio entre inimigos figadais.

Não abro mão de ficar consciente; trabalho para seguir centrado em mim; quando decididamente é necessário, enfio a mão na massa para permanecer lúcido: preservo a minha liberdade de crer em mim.

Digo isso porque, resolvidas a quebrar o pau por livre e espontâneo arbítrio, as pessoas correm apagar a luz. Pois no escuro nem é preciso fechar os olhos para disparar na direção em que, presume-se, estejam só os facínoras repulsivos.

Mesmo havendo o risco de um morticínio generalizado, de parte a parte, o fogo amigo decididamente dá as caras e os sobreviventes se veem na posição insuportável de chamar cadáveres pelo nome, pois a ética está na compreensão dos números como estatísticas funestas.

Perco o sono; tenho engulhos quando consigo comer alguma coisa; e trato de manter a prontidão contra quem me queira enquadrado como mais outro zero à esquerda.

Enfim, vergonhosamente, armas úteis podem ser nocivas. Todavia, há circunstâncias nas quais tenho dúvidas de como as manejo, o jeito, portanto, é não insultar nem ridicularizar o que vem me assaltar.

Aprender a viver é aprender a pedir ajuda?

De chofre, contei à professora que meu sonho era ser padre. Queria ser como José, que foi o melhor padre que tive a honra de enfrentar na infância. A sua alma era maior que a sua peregrinação, dos arrabaldes de Xangai até o tabuleiro da casa paroquial ibiunense.

Mais que o bê-á-bá, o chinês me ensinou a sacrificar cavalo, bispo e rainha. Se eu vivia perdendo, era porque o enxadrista estratégico não fica sorrindo antes de cada jogada.

Como não cresci o tanto que almejava crescer para chegar à altura nem que fosse do Mequinho que um dia foi-me possível enfrentar, virei perder pro computador. Queria ser bom o bastante pra saber o que faz de mim esse ferrenho iniciante que não passa do sexto lance.

Aprender a viver é aprender a pedir ajuda na hora certa?

E digo isso porque, antes da pandemia, bem no comecinho, quando o comércio estava para baixar as portas, acho provável que tenha sido nesse período obscuro que pude viver uma lição moral que levarei pro túmulo como sendo uma glória profundamente minha.

O homem veio a mim porque estava certo de que a festa começou comigo a comer um filé à parmegiana como quem devora um sanduba, pois eu lambia dedos e beiços.

O homem tomou para si a mão que segurava a faca e cortou o bife sem titubear e tomou pra si a mão que segurava o garfo e me fez enfiar na boca o pedaço de bife que havíamos cortado, e aquilo foi bom.

Isso de aprender a viver é aprender a pedir ajuda à pessoa honrada que, justamente na hora certa, resolve estar no lugar certo?

Sei não... Dica boa em cabeça dura funde a cuca.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de abril de 2022.

terça-feira, 12 de abril de 2022

Muita calma

 

Muita calma

 

Então, a TV vai passando que isso mais aquilo vêm ocorrendo sem que a paz entre pessoas racionais seja selada com um saboroso licor de uva de uma lavra equidistante, que é para não atiçar às desavenças sanguinolentas as partes conflitantes.

Sabe-se que na batalha pela vida quem luta tem razão. Embora ter razão propriamente não estimule ignorar onde os canhotos se apartam dos destros. E quão plena é a racionalidade ambidestra?

Se estivesse interessado em matar o tempo acompanhando quem, intrépido imbecil, cava notícias nas trincheiras da luta, dispensaria uns minutos a mais, porém vai começar a corrida de carros elétricos.

Com a corrida, que o aquecimento global vá pro inferno?

Quero que vá, mas nem precisa. Porca miséria! O inferno está aqui.

É porque o inferno fica estabelecido na face da Terra que eu afianço bastante razoável protestar contra a queima dos combustíveis fósseis, contudo o desgramado do calor não dá bola às milhares de mensagens tão violentamente corretas que pululam nas redes.

Aperto os números do canal de esportes, entra outro no lugar.

Caramba, não poderei editar as imagens dos bólidos despenteando homens e mulheres sem chapéu.

À tentativa que deu errada junto mais uma, pois aperto novamente os números do canal a que desejo assistir e outra vez entra um diferente.

Não nasci no sertão, mas minh’alma é forte.

Realmente não estou brincando. Tenho a vontade firme que não me deixa bambear quando o destino põe um percalço diante de mim.

Vigoroso, faço valer minha determinação. Bato no corpo do controle pra que deixe de gracinha e me obedeça de pronto.

Só que não sintonizo a corrida; e na tela aparece que preciso trocar as pilhas, que são novas, postas no controle faz já uma semana.

Como não pretendo desistir do que quero ver, mudo a posição das pilhas. Pode ser que ajude. Pode ser ou está difícil?

Difícil. Putisgrila, como está!

O canal não entra; mas não há ideia que não possa ser deixada de lado porque o mundo é mais atraente.

Mudo, pois agora eu assisto a um show, um showzaço. Uau!

Se tivesse me deixado levar, teria desligado a TV. Desligada a TV, eu não estaria testemunhando os movimentos do corpo talentoso, os olhares conquistadores tão virtuosos, aquela boca carnuda resvalando de leve o microfone, fora os requebros fenomenais.

Funk é duca, pô!

Educado, seguro a onda, acalmo os nervos e trato de ficar relaxado diante de um maravilhoso espetáculo bem universal.

Upa! Upa! Upa-lê-lê!

Nós, a nação que trabalha pros patriotas, temos mãos para fabricar aparelhos de TV, os controles sem fio e as pilhas que fazem funcionar os controles de TVs de tela plana, imagem HD e milhares de pixels.

Todavia, para que valha alguma coisa a satisfação que se alimenta das esperanças, o desastre está dado pelo medo de ser feliz: mão que acaricia careca também descabela palhaço.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de abril de 2022.

domingo, 10 de abril de 2022

A vida e a vida de Epaminondas Coutinho

 

A vida e a vida de Epaminondas Coutinho

 

Sem explicação, ou porque ter explicação possa anular o bem-estar que faz possível equilibrar-se diante dos eventos da vida, uma pessoa, de repente, compreende sua circunstância no mundo.

De momento, a súbita consciência de que a fragilidade diz muito de cada ato praticado torna descartável querer traduzir a plenitude numa ideia. É que a paz momentânea não faz sustentável a realidade como ponte entre o nada que precede o nascimento e o nada que sucede à morte. Mesmo assim, fica instituída a identificação estupidificante. Por este instante fora do tempo-e-espaço, a pessoa é a energia que move, comove e remove tudo que houve, há e haverá.

E de tal modo e em tal grau o universo torna patética a relação entre a pessoa e sua presença que ela simplesmente ignora por que sorri.

Como sorrindo a felicidade ganha corpo, é fútil o desejo de estar no controle: a eternidade que se vive num lapso ultrapassa o fugaz.

Na eternidade desta estupidez, a pessoa que gosta particularmente da beleza das orquídeas está deitada na grama. De barriga para cima, olhando as nuvens que vão passando, é alguém que se confunde com as formas que vê.

Quer tanto que os traços de uma orquídea sejam desenhados pelas gotículas que estão flutuando no céu, mais azul que nebuloso, deseja tanto que o bem-estar parece aumentar o barrigão, mais estufado.

Tudo bem, a vida mostra que tanta coisa está além da necessidade de apoiar a nuca na concha das mãos e convocar as nuvens para que trabalhem a favor do seu deleite.

O que não vai bem, todavia, são estes gases se condensando sem permitir que os movimentos possam ser coordenados pela cabeça.

Sim, a digestão do almoço bastante satisfatório está cegando o seu olhar porque o almoço foi, de fato, muito mais do que satisfatório.

Vai saber como é possível: o que é bastante não é muito, mas assim é porque assim lhe parece. Como já deve ter sido dito pelo Velho Bill.

Epaminondas Coutinho não leu Shakespeare, mas aposta que não faz mal a ninguém quando une a ideia da orquídea sublime que traz na cachola com as nebulosas tão levezinhas que vê naquelas alturas.

Sua orquídea linda e maravilhosa pode muito bem flutuar feito uma jangada no oceano aberto daquela imensidão.

E ficar deitado na grama faz bem. E tanto faz bem que a ele ocorre imaginar que a sua orquídea seria ainda mais espetacular se fosse de chocolate. Não teria pra ninguém. Mas sua orquídea seria de chocolate airado, levíssimo, e com pedacinhos de chocolate.

Putz!

Epaminondas vê a vida como uma planta belíssima que sobrevive sem excessos de atenção e carinho.

Por que ele fala com a grama que arranca?

Mesmo não sendo preciso se explicar à grama antes de mastigá-la, ele acha bom se fazer decente. Afinal, a coitada não sabe se defender do ataque tão belo.

Epaminondas crê, sim, na beleza vegetativa da grama.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de abril de 2022.

quinta-feira, 7 de abril de 2022

Nana Nina

 

Nana Nina

 

Nina, a gatinha de olho vivo pra cochilo, vai inspecionando as caixas como se nunca as tivesse visto. Sem nenhum aperto, a serelepe sobe, anda e pula como bem entende. Se houvesse alguma mudança, vá lá, isso explicaria aquela inspeção pormenorizada, mas, desde que foram colocadas onde elas estão, faz meses, não tive, como ainda não tenho, a coragem necessária para movê-las um dedinho, uma lasca de unha que fosse, nadica.

Seu Rodrigues, só vagais deixam bibliotecas bagunçadas.

Eu a arrumaria se me obrigasse a tanto. Desobrigado, não me aflijo com o pó dos dias que vai assentando na montanha de papelão. Como me pegar atormentado é mais difícil por conta dos tranquilizantes que ando tomando, a fibra forte está lassa.

Todavia, o lado ameno da vida permite que fale: nada mal para uma só pessoa, pois, em outras palavras, sendo apenas um, sou vários:

Covarde... Vagabundo... Indolente... Porcalhão...

Algumas pessoas têm facilidade para, numa palavra, definir outras, geralmente a quem menosprezam ou invejam, não sou dessas. Aliás, pela digressão, acrescente-se que sou dispersivo, ou embromador.

Entretanto... A gata segue no jogo.

Curiosa por natureza, a bichana simplesmente não é de ficar quieta sem ter motivo. O que está fazendo tem que ser acompanhado de perto pra que não haja algum acidente, com ela ou causado por ela.

Silenciosa por conveniência, a espevitada certamente ainda está na sala. Quando a danada dá uma sumida, e uma das suas mais notórias peculiaridades é entregar-se ao desaparecimento estratégico, o jeito é procurá-la ꟷ pé ante pé, chamando-a com dengo ou aos gritos.

Enfim! A oncinha dócil de um palmo e meio está deitada no espaço diminuto que existe entre a conjunção das paredes com as caixas.

Como parece que a cara de sono está mais para cara de cansada, a peludinha de olhos quase abertos vai ficando onde está porque, sem estar preocupada em não passar a impressão de que esteja disposta a tirar de cima de si a ansiedade geral com o seu repentino silêncio, a estimada felina precisa dar uma gostosa descansadinha.

Recompor as forças para outras estripulias é realmente deleitável, independentemente do papelão, da pouca maciez do papelão, do odor meio nauseante do papelão empoeirado, faz bem parar um pouco.

O sumiço da gatinha nada tem de maquiavélico, a explicação mais simples é que a miau-miau está exausta de suas tantas fuzarcas.

Como eu também sou um boboca besta, não vou negar a qualquer membro quadrúpede do meu lar o direito a ter apagado o holofote das minhas apreensões sobre o seu cangote.

No mato sem cachorro, gato pede água por que é matreiro?

Se for, a beleza da história é que a realidade nua e crua não basta, é preciso dar imaginação à memória: porque ela não varre a poeira pra debaixo do tapete nem faz miar suas mil e uma Sherazades, Nina nana de olho aberto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de abril de 2022.

terça-feira, 5 de abril de 2022

Dando Bandeira

 

Dando Bandeira

 

De repente, quando algo mexe comigo pra valer, não conto que não dou importância que não paro de pensar no assunto; é que não preciso me esforçar pra me interromper, a vida sabe fazê-lo por mim.

Outro dia, com o cérebro já meio zumbi, ensimesmado numa ânsia qualquer, cuja origem latejava obscura, então um raio caiu súbito.

A marca suja da vida.

Neste instante em que me encontrava pensativo, esquisito comigo, uma vez que a sensação de incômodo era mais um senão inexplicável, havia em mim esse vago mal-estar, essa fissura que não se sabe como surge, e pela qual a vida angustia.

Entre o sentimento e sua sombra, aflorava outro equívoco, que não me imaginei com a mão escorando o queixo, porque eu parecia mesmo um arremedo vulgar d’O Pensador.

A marca suja da vida, entretanto tal relâmpago foi desferido por uma boca que não parava de deformar a cara daquela pessoa. A graça veio da face improvável; que eu a observava segurando-me do riso, porque as risadas eu as silenciava dentro de mim. Deu-se, então, o choque da fala devera inesperada, pois nem desconfiava que alguém tão tagarela contivesse outras leituras, além das cabalas rosas do amor.

A marca suja da vida, não me importava que os meus ouvidos nem separassem o que falavam. Mas ouvi. De imediato, fui pegar um pouco mais de refrigerante. Mas, será que ouvi direito? Sim, um verso foi dito sem que antes estivesse dando bola pro que estavam falando. De fato, pude ouvir o verso do Manuel sendo dito. E de repente, tão logo ouvi o verso do poeta, deu em mim o estalo.

Como é que pode!

Fui encher o copo vazio por que bastou ser dito o verso do Bandeira pra dar uma sede por guaraná? Por que não por tubaína ou limonada?

Pus guaraná no copo que eu nem via que o segurava já vazio.

Desandei a beber guaraná. E abri outra garrafa, bebi-a inteira.

Por que o verso de Manuel Bandeira tinha realmente que me fazer trocar a prostração angustiada pela chateação estúpida?

Não conheço quem preencha os furos d’alma com guaraná. Sei de gente que afoga as mágoas em soníferos ou litros de uísque. Contudo, abdiquei do desejo pelo álcool, eu tomo guaraná como quem acha uma besteira das grandes tomar éter ou comer pizza fria.

A marca suja da vida, portanto, não está no vício, está na ilusão que não me impede de ficar embaraçado. O desejo, na verdade, ainda está em mim. Posso até querer controlar os meus impulsos. Procuro beber devagar, refletindo. Quero que a maneira como encaro a vida perca os laços com o preconceituoso. Quero agir como uma pessoa melhor, que sabe mesmo que guaraná não produz efeito algum que não seja fazer urinar um bocado.

Mesmo sabendo que iria ter que urinar de cinco em cinco minutos, ainda assim, bebi uma a uma as garrafas que encontrei.

Como tudo que é bom acaba no melhor da festa, não me irritei nem um pouco. Pra não ficar esquentando a moringa, fui embora a pé.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de abril de 2022.

domingo, 3 de abril de 2022

Ao infinito e além

 

Ao infinito e além

 

Embriagado pela bossa de sentir o ventinho no rosto após dois anos sob máscara de três camadas... Passa um carro barulhento, cujo rastro fuliginoso é mesmo de amargar.

Ele ruge, grunhe e sussurra. Esta miríade de ruídos não fere apenas os meus tímpanos, impregna as mucosas da boca.

Só pra cortar meu barato, o monstrengo tem que parar no vermelho do cruzamento e, como a combustão do motor permanece ativa, seguir poluindo a atmosfera que margeia o seu deslocamento.

Como ser que precisa respirar para manter-se vivo, acabo inalando aquela praga gasosa e, vapt-vupt, estou tossindo.

Entre o desejo de um passeio despretensioso e a frustração de fugir pisando firme, vejo-me compelido a trocar aquela vaporosa caminhada por uma desabalada carreira.

Dispensados os comprimidos na farmácia mais próxima, já à porta do lugar onde me livrarei das pilhas usadas, um terno boa-tarde alivia o ranço que me azeda o humor.

A moça que me aborda é uma pessoa querida.

Para não dar na vista o quanto estou irritado, não tagarelo sobre as pilhas, os remédios e o futuro do mundo, peço que me fale dos estudos, das descobertas alvissareiras, de seus ideais de acadêmica novata.

Sem que precise saber que me deixa à vontade, ajo naturalmente.

Me tranquiliza a informalidade. Noto a descontração. Ouço-a.

Como eu consigo realmente ouvi-la, posso me ignorar.

É algo libertador. É um processo efetivo de libertação interior. Tanto que me revelo um espectador de mim. Descubro-me capaz de assistir a mim mesmo enquanto ajo sem a necessidade de deixar transparecer o quanto estou feliz. E que felicidade imponderável é saber como sentir que uma vida justa, pouco cínica, é obra de uma consciência livre.

Assaz otimista, bastante radiante, verdadeiramente entusiasmada, a futura geneticista conta que tem aprendido como manipular DNA. Diz que virá o dia em que fatias específicas de material genético ajudarão a gerar mecanismos de defesa para cada pessoa. Prevendo o instante em que a nossa espécie poderá achar as reais condições de vencer as anomalias que outrora achávamos imbatíveis, ganharemos.

ꟷ Haveremos de derrotar nossos inimigos? Que loucura!

ꟷ Não, não tem nada de loucura. Pois onde há ciência, há método. Teorizar, implementar, analisar, reavaliar os dados, refazer quando for preciso, recolher os novos resultados, estudá-los sem esmorecer, mas sem se entrincheirar no campo do indubitável. E quem faz ciência sabe que o conhecimento hoje dado como aceitável amanhã poderá não ser. Como o trabalho de um indivíduo tem mesmo relações com a pesquisa de tantos outros, é normal manter a cabeça no lugar.

Sim, fugir às artimanhas dos jogos de guerra é saúde mental. Deve ser por isso que minha amiga brilhante trata de se apoiar em mim para calçar os chinelos de dedo comprados à lojinha que fica na esquina.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de abril de 2022.