Dando
Bandeira
De repente, quando algo mexe comigo pra
valer, não conto que não dou importância que não paro de pensar no assunto; é
que não preciso me esforçar pra me interromper, a vida sabe fazê-lo por mim.
Outro dia, com o cérebro já meio zumbi,
ensimesmado numa ânsia qualquer, cuja origem latejava obscura, então um raio
caiu súbito.
A marca suja da vida.
Neste instante em que me encontrava
pensativo, esquisito comigo, uma vez que a sensação de incômodo era mais um
senão inexplicável, havia em mim esse vago mal-estar, essa fissura que não se
sabe como surge, e pela qual a vida angustia.
Entre o sentimento e sua sombra, aflorava
outro equívoco, que não me imaginei com a mão escorando o queixo, porque eu parecia
mesmo um arremedo vulgar d’O Pensador.
A marca suja da vida, entretanto tal relâmpago
foi desferido por uma boca que não parava de deformar a cara daquela pessoa. A
graça veio da face improvável; que eu a observava segurando-me do riso, porque
as risadas eu as silenciava dentro de mim. Deu-se, então, o choque da fala
devera inesperada, pois nem desconfiava que alguém tão tagarela contivesse
outras leituras, além das cabalas rosas do amor.
A marca suja da vida, não me importava
que os meus ouvidos nem separassem o que falavam. Mas ouvi. De imediato, fui
pegar um pouco mais de refrigerante. Mas, será que ouvi direito? Sim, um verso
foi dito sem que antes estivesse dando bola pro que estavam falando. De fato, pude
ouvir o verso do Manuel sendo dito. E de repente, tão logo ouvi o verso do
poeta, deu em mim o estalo.
Como é que pode!
Fui encher o copo vazio por que bastou
ser dito o verso do Bandeira pra dar uma sede por guaraná? Por que não por
tubaína ou limonada?
Pus guaraná no copo que eu nem via que o
segurava já vazio.
Desandei a beber guaraná. E abri outra
garrafa, bebi-a inteira.
Por que o verso de Manuel Bandeira tinha
realmente que me fazer trocar a prostração angustiada pela chateação estúpida?
Não conheço quem preencha os furos
d’alma com guaraná. Sei de gente que afoga as mágoas em soníferos ou litros de
uísque. Contudo, abdiquei do desejo pelo álcool, eu tomo guaraná como quem acha
uma besteira das grandes tomar éter ou comer pizza fria.
A marca suja da vida, portanto, não está
no vício, está na ilusão que não me impede de ficar embaraçado. O desejo, na
verdade, ainda está em mim. Posso até querer controlar os meus impulsos.
Procuro beber devagar, refletindo. Quero que a maneira como encaro a vida perca
os laços com o preconceituoso. Quero agir como uma pessoa melhor, que sabe
mesmo que guaraná não produz efeito algum que não seja fazer urinar um bocado.
Mesmo sabendo que iria ter que urinar de
cinco em cinco minutos, ainda assim, bebi uma a uma as garrafas que encontrei.
Como tudo que é bom acaba no melhor da
festa, não me irritei nem um pouco. Pra não ficar esquentando a moringa, fui embora
a pé.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 05 de abril de 2022.
Nenhum comentário:
Postar um comentário