domingo, 3 de abril de 2022

Ao infinito e além

 

Ao infinito e além

 

Embriagado pela bossa de sentir o ventinho no rosto após dois anos sob máscara de três camadas... Passa um carro barulhento, cujo rastro fuliginoso é mesmo de amargar.

Ele ruge, grunhe e sussurra. Esta miríade de ruídos não fere apenas os meus tímpanos, impregna as mucosas da boca.

Só pra cortar meu barato, o monstrengo tem que parar no vermelho do cruzamento e, como a combustão do motor permanece ativa, seguir poluindo a atmosfera que margeia o seu deslocamento.

Como ser que precisa respirar para manter-se vivo, acabo inalando aquela praga gasosa e, vapt-vupt, estou tossindo.

Entre o desejo de um passeio despretensioso e a frustração de fugir pisando firme, vejo-me compelido a trocar aquela vaporosa caminhada por uma desabalada carreira.

Dispensados os comprimidos na farmácia mais próxima, já à porta do lugar onde me livrarei das pilhas usadas, um terno boa-tarde alivia o ranço que me azeda o humor.

A moça que me aborda é uma pessoa querida.

Para não dar na vista o quanto estou irritado, não tagarelo sobre as pilhas, os remédios e o futuro do mundo, peço que me fale dos estudos, das descobertas alvissareiras, de seus ideais de acadêmica novata.

Sem que precise saber que me deixa à vontade, ajo naturalmente.

Me tranquiliza a informalidade. Noto a descontração. Ouço-a.

Como eu consigo realmente ouvi-la, posso me ignorar.

É algo libertador. É um processo efetivo de libertação interior. Tanto que me revelo um espectador de mim. Descubro-me capaz de assistir a mim mesmo enquanto ajo sem a necessidade de deixar transparecer o quanto estou feliz. E que felicidade imponderável é saber como sentir que uma vida justa, pouco cínica, é obra de uma consciência livre.

Assaz otimista, bastante radiante, verdadeiramente entusiasmada, a futura geneticista conta que tem aprendido como manipular DNA. Diz que virá o dia em que fatias específicas de material genético ajudarão a gerar mecanismos de defesa para cada pessoa. Prevendo o instante em que a nossa espécie poderá achar as reais condições de vencer as anomalias que outrora achávamos imbatíveis, ganharemos.

ꟷ Haveremos de derrotar nossos inimigos? Que loucura!

ꟷ Não, não tem nada de loucura. Pois onde há ciência, há método. Teorizar, implementar, analisar, reavaliar os dados, refazer quando for preciso, recolher os novos resultados, estudá-los sem esmorecer, mas sem se entrincheirar no campo do indubitável. E quem faz ciência sabe que o conhecimento hoje dado como aceitável amanhã poderá não ser. Como o trabalho de um indivíduo tem mesmo relações com a pesquisa de tantos outros, é normal manter a cabeça no lugar.

Sim, fugir às artimanhas dos jogos de guerra é saúde mental. Deve ser por isso que minha amiga brilhante trata de se apoiar em mim para calçar os chinelos de dedo comprados à lojinha que fica na esquina.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de abril de 2022.

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