Embriagado
pela bossa de sentir o ventinho no rosto após dois anos sob máscara de três
camadas... Passa um carro barulhento, cujo rastro fuliginoso é mesmo de
amargar.
Ele
ruge, grunhe e sussurra. Esta miríade de ruídos não fere apenas os meus tímpanos,
impregna as mucosas da boca.
Só
pra cortar meu barato, o monstrengo tem que parar no vermelho do cruzamento e,
como a combustão do motor permanece ativa, seguir poluindo a atmosfera que
margeia o seu deslocamento.
Como
ser que precisa respirar para manter-se vivo, acabo inalando aquela praga
gasosa e, vapt-vupt, estou tossindo.
Entre
o desejo de um passeio despretensioso e a frustração de fugir pisando firme,
vejo-me compelido a trocar aquela vaporosa caminhada por uma desabalada
carreira.
Dispensados
os comprimidos na farmácia mais próxima, já à porta do lugar onde me livrarei das
pilhas usadas, um terno boa-tarde alivia o ranço que me azeda o humor.
A
moça que me aborda é uma pessoa querida.
Para
não dar na vista o quanto estou irritado, não tagarelo sobre as pilhas, os
remédios e o futuro do mundo, peço que me fale dos estudos, das descobertas
alvissareiras, de seus ideais de acadêmica novata.
Sem
que precise saber que me deixa à vontade, ajo naturalmente.
Me
tranquiliza a informalidade. Noto a descontração. Ouço-a.
Como
eu consigo realmente ouvi-la, posso me ignorar.
É
algo libertador. É um processo efetivo de libertação interior. Tanto que me
revelo um espectador de mim. Descubro-me capaz de assistir a mim mesmo enquanto
ajo sem a necessidade de deixar transparecer o quanto estou feliz. E que
felicidade imponderável é saber como sentir que uma vida justa, pouco cínica, é
obra de uma consciência livre.
Assaz
otimista, bastante radiante, verdadeiramente entusiasmada, a futura geneticista
conta que tem aprendido como manipular DNA. Diz que virá o dia em que fatias
específicas de material genético ajudarão a gerar mecanismos de defesa para cada
pessoa. Prevendo o instante em que a nossa espécie poderá achar as reais condições
de vencer as anomalias que outrora achávamos imbatíveis, ganharemos.
ꟷ
Haveremos de derrotar nossos inimigos? Que loucura!
ꟷ
Não, não tem nada de loucura. Pois onde há ciência, há método. Teorizar, implementar,
analisar, reavaliar os dados, refazer quando for preciso, recolher os novos resultados,
estudá-los sem esmorecer, mas sem se entrincheirar no campo do indubitável. E
quem faz ciência sabe que o conhecimento hoje dado como aceitável amanhã poderá
não ser. Como o trabalho de um indivíduo tem mesmo relações com a pesquisa de tantos
outros, é normal manter a cabeça no lugar.
Sim,
fugir às artimanhas dos jogos de guerra é saúde mental. Deve ser por isso que
minha amiga brilhante trata de se apoiar em mim para calçar os chinelos de dedo
comprados à lojinha que fica na esquina.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 03 de abril de 2022.
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