quinta-feira, 21 de abril de 2022

Vira-latice

 

Vira-latice

 

Um vira-lata alegra mesmo a gente?

Por mais sedutoras que se apresentem, não aceito barganhas. De modo algum, porque acho deplorável o rebaixamento de desabonar a verdade que estou sentindo. Embora soe impertinente a quem esteja acostumado a escutar-se até mais correto pela boca dos outros, prefiro elogiar o vira-lata que não leva o mundo à breca.

Sem a empáfia de envaidecer-me ao dizê-lo, sou tendencioso. Uma vez que não há de ser por fogacho qualquer que avivo em mim a paixão que me faz esta pessoa solar, tropicalíssima.

Se me for lícita a lisonja da simplicidade da boa-fé, repasso a quem afeito a ludibriantes aviltamentos conciliatórios que fique à vontade pra proclamar o seu mais vetusto puxa-saquismo pacificador.

Em outras palavras, não se cobre de mim que me coloque alinhado àquele que torce pro buraco no meio da passada da gente que vai em frente, que segue cavando um lugar ao sol.

Ao sol, passem carros, suas calotas e buzinas, que o vira-lata pode correr, latir e sossegar-se, pois ele é que sabe dos seus quereres.

Se porventura ainda não me fiz cristalino, reitero que espero de mim não me pôr tosco, agindo como quem se acha livre da imbecilidade por rir abertamente da desgraça de quem sofre.

Esclareço, quem vive sem vislumbrar outro futuro que não seja o de viver mágoas a cada dia, essa gente se diverte como pode, quando dá, pro alívio que consiga alcançar.

Feita a ressalva, quero que esteja garantida a justa isenção perante os fatos. Ou limpe-se a lente imunda, e tacanha, que insiste em ver no vira-lata um bicho feroz que ataca a vida que morde na jugular.

Sem monstruosidades de espetaculoso mau gosto, na casa ao lado da minha tem esse animal atento ao que há além das grades.

Neste quintal, o bicho está pra lá e pra cá, o tempo todo, dia e noite, com sol ou chuva, passando ambulância, polícia ou bombeiros, ele fica mesmo indo e vindo, sem latido algum que denuncie sua presença. Por um relato menos infiel, digo que ele não se deixa abater por fome, sono ou cansaço, porque este cão é muito, muito capaz de esquisitices.

Não que seja exemplar raro. A sua genética vem de linhagem pura. A sua postura é pra defesa. A sua mandíbula é forte. Seus dentes têm fio agudo. A sua determinação é fruto de aprimoramentos. Está pronto pra aniquilar o que represente ameaça à inviolabilidade do lugar onde está confinado. É criatura a postos pra selvajaria necessária. Astuto na vigília, não late às pombas que vêm ciscar, destroçando-as de assalto.

Caviloso, não esconde que é o cão.

Como não peço desculpa, não me ocorre pedir perdão por estragar o sossego de quem não ignora o dia lindo, o céu azul, o outono ameno, que tudo neste instante é em prol da reconciliação do ser humano com o universo que o circunda.

Seja desculpado o poste pelo qual passa batido o vira-lata que, sem falso pudor, mija no chão mesmo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de abril de 2022.

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