Sobrecarga
Uma gritaria começou de repente.
Para que a minha curiosidade não virasse
desdém, fui conferir que arruaça era aquela. E fui porque, sem nenhum traço de extraordinário,
a um morador pode, sim, acontecer de ficar preocupado com o que se passa na
vizinhança.
Aliás, a balbúrdia me tirou de um sonho
meia boca que aborrecia a cada segundo, porque eu fui ficando mais e mais
decepcionado com a florzinha que deveria abrir-se às onze horas e, passados dez
minutos, pitibiribas de a bendita florir respeitando o próprio nome.
Dois camaradas da velha guarda gritavam.
ꟷ Deixe de frescura. Desça logo.
ꟷ Só que o pessoal vai ficar zoando com
a cara do cidadão.
Esse camarada que, aos berros, se
referia a si na terceira pessoa é dessas figurinhas carimbadas. Gente que se
faz única pelas histórias que, apenas contando, não dá pra levar a sério que
tenham ocorrido.
Se eu tivesse permanecido invisível no
meu silêncio de espectador, teria ficado de fora de outra roubada, mas não
resisti a pagar pra ver.
ꟷ Que barraco é esse na rua? Vocês não
vão almoçar, não?
ꟷ Justamente! O bonitão aqui quer ir pro
churrasco de pijama.
De pijama, e não haveria novidade.
É que vestido assim, na certa, dará
problema. Sempre dá, e vai ser enrascada das grandes. Parece que os reis da
baixaria têm predileção por essa pessoa, que bebe umas a mais e adeus bom
comportamento.
Certa vez, ele chegou antes do dono da
casa. Sentado no meio-fio, ficou bebericando uma garrafa de vodca. Sem
estresse, numa boa, foi tomando a sua vodiquinha que até perdeu a conta de que
opinião torta não fica afetada por boca torta.
Como língua de bêbado solta a trava, disparou
o que não devia.
ꟷ Cê nunca respeita os outros, hein? Cê
acha que pode fazer o que bem entende, hein? Porque a casa é sua, a
churrasqueira é sua, então, tudo bem? Pra deixar de ser besta, cê um dia vai
tomar um murro bem dado na fuça. Mas não se preocupe comigo, porque não vai ser
eu que vou enfiar a mão no cê. Só que daí eu quero ver se o cê vai ter coragem pra
reclamar do sopapo. É, folgado, chegar atrasado não tem graça. A picanha
deveria estar no fogo faz tempo, seu bocó. E vai ter espertinho que vai vir
alugar a minha oreia, mas a culpa pela demora não é minha, cacete. Só que
ninguém vê o trabalho que dá preparar a carne do jeito certo. É meu nome na
reta. Quem vai comprar a carne certa, com a cor da peça do jeito que tem que
ser, quem sabe fazer certo, quem é? Sou eu. Não tem pra ninguém, pois ninguém deixa
a picanha no ponto que nem eu deixo. Pra carne não ficar dura nem perder o
sabor, o segredo está no sal grosso. Sem modéstia, meu caro, sei como deve ser duro
pra engolir que eu sou melhor picanheiro que você.
Onde a carga pesa, o riso alivia.
Daí nem precisa esfregar na cara de quem
não acredita na verdade, que a cabeça leve bola fácil um aplicativo que mostre o
quanto a capa de gordura faz mais rico quem vende picanha.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 17 de abril de 2022.
Nenhum comentário:
Postar um comentário