domingo, 17 de abril de 2022

Sobrecarga

 

Sobrecarga

 

Uma gritaria começou de repente.

Para que a minha curiosidade não virasse desdém, fui conferir que arruaça era aquela. E fui porque, sem nenhum traço de extraordinário, a um morador pode, sim, acontecer de ficar preocupado com o que se passa na vizinhança.

Aliás, a balbúrdia me tirou de um sonho meia boca que aborrecia a cada segundo, porque eu fui ficando mais e mais decepcionado com a florzinha que deveria abrir-se às onze horas e, passados dez minutos, pitibiribas de a bendita florir respeitando o próprio nome.

Dois camaradas da velha guarda gritavam.

ꟷ Deixe de frescura. Desça logo.

ꟷ Só que o pessoal vai ficar zoando com a cara do cidadão.

Esse camarada que, aos berros, se referia a si na terceira pessoa é dessas figurinhas carimbadas. Gente que se faz única pelas histórias que, apenas contando, não dá pra levar a sério que tenham ocorrido.

Se eu tivesse permanecido invisível no meu silêncio de espectador, teria ficado de fora de outra roubada, mas não resisti a pagar pra ver.

ꟷ Que barraco é esse na rua? Vocês não vão almoçar, não?

ꟷ Justamente! O bonitão aqui quer ir pro churrasco de pijama.

De pijama, e não haveria novidade.

É que vestido assim, na certa, dará problema. Sempre dá, e vai ser enrascada das grandes. Parece que os reis da baixaria têm predileção por essa pessoa, que bebe umas a mais e adeus bom comportamento.

Certa vez, ele chegou antes do dono da casa. Sentado no meio-fio, ficou bebericando uma garrafa de vodca. Sem estresse, numa boa, foi tomando a sua vodiquinha que até perdeu a conta de que opinião torta não fica afetada por boca torta.

Como língua de bêbado solta a trava, disparou o que não devia.

ꟷ Cê nunca respeita os outros, hein? Cê acha que pode fazer o que bem entende, hein? Porque a casa é sua, a churrasqueira é sua, então, tudo bem? Pra deixar de ser besta, cê um dia vai tomar um murro bem dado na fuça. Mas não se preocupe comigo, porque não vai ser eu que vou enfiar a mão no cê. Só que daí eu quero ver se o cê vai ter coragem pra reclamar do sopapo. É, folgado, chegar atrasado não tem graça. A picanha deveria estar no fogo faz tempo, seu bocó. E vai ter espertinho que vai vir alugar a minha oreia, mas a culpa pela demora não é minha, cacete. Só que ninguém vê o trabalho que dá preparar a carne do jeito certo. É meu nome na reta. Quem vai comprar a carne certa, com a cor da peça do jeito que tem que ser, quem sabe fazer certo, quem é? Sou eu. Não tem pra ninguém, pois ninguém deixa a picanha no ponto que nem eu deixo. Pra carne não ficar dura nem perder o sabor, o segredo está no sal grosso. Sem modéstia, meu caro, sei como deve ser duro pra engolir que eu sou melhor picanheiro que você.

Onde a carga pesa, o riso alivia.

Daí nem precisa esfregar na cara de quem não acredita na verdade, que a cabeça leve bola fácil um aplicativo que mostre o quanto a capa de gordura faz mais rico quem vende picanha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de abril de 2022.

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