Muita
calma
Então, a TV vai passando que isso mais
aquilo vêm ocorrendo sem que a paz entre pessoas racionais seja selada com um
saboroso licor de uva de uma lavra equidistante, que é para não atiçar às
desavenças sanguinolentas as partes conflitantes.
Sabe-se que na batalha pela vida quem
luta tem razão. Embora ter razão propriamente não estimule ignorar onde os canhotos
se apartam dos destros. E quão plena é a racionalidade ambidestra?
Se estivesse interessado em matar o
tempo acompanhando quem, intrépido imbecil, cava notícias nas trincheiras da
luta, dispensaria uns minutos a mais, porém vai começar a corrida de carros
elétricos.
Com a corrida, que o aquecimento global
vá pro inferno?
Quero que vá, mas nem precisa. Porca
miséria! O inferno está aqui.
É porque o inferno fica estabelecido na
face da Terra que eu afianço bastante razoável protestar contra a queima dos
combustíveis fósseis, contudo o desgramado do calor não dá bola às milhares de
mensagens tão violentamente corretas que pululam nas redes.
Aperto os números do canal de esportes,
entra outro no lugar.
Caramba, não poderei editar as imagens
dos bólidos despenteando homens e mulheres sem chapéu.
À tentativa que deu errada junto mais
uma, pois aperto novamente os números do canal a que desejo assistir e outra vez entra
um diferente.
Não nasci no sertão, mas minh’alma é forte.
Realmente não estou brincando. Tenho a
vontade firme que não me deixa bambear quando o destino põe um percalço diante
de mim.
Vigoroso, faço valer minha determinação.
Bato no corpo do controle pra que deixe de gracinha e me obedeça de pronto.
Só que não sintonizo a corrida; e na
tela aparece que preciso trocar as pilhas, que são novas, postas no controle faz
já uma semana.
Como não pretendo desistir do que quero
ver, mudo a posição das pilhas. Pode ser que ajude. Pode ser ou está difícil?
Difícil. Putisgrila, como está!
O canal não entra; mas não há ideia que
não possa ser deixada de lado porque o mundo é mais atraente.
Mudo, pois agora eu assisto a um show, um
showzaço. Uau!
Se tivesse me deixado levar, teria
desligado a TV. Desligada a TV, eu não estaria testemunhando os movimentos do
corpo talentoso, os olhares conquistadores tão virtuosos, aquela boca carnuda
resvalando de leve o microfone, fora os requebros fenomenais.
Funk é duca, pô!
Educado, seguro a onda, acalmo os nervos
e trato de ficar relaxado diante de um maravilhoso espetáculo bem universal.
Upa! Upa! Upa-lê-lê!
Nós, a nação que trabalha pros patriotas,
temos mãos para fabricar aparelhos de TV, os controles sem fio e as pilhas que
fazem funcionar os controles de TVs de tela plana, imagem HD e milhares de
pixels.
Todavia, para que valha alguma coisa a
satisfação que se alimenta das esperanças, o desastre está dado pelo medo de
ser feliz: mão que acaricia careca também descabela palhaço.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 12 de abril de 2022.
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