terça-feira, 12 de abril de 2022

Muita calma

 

Muita calma

 

Então, a TV vai passando que isso mais aquilo vêm ocorrendo sem que a paz entre pessoas racionais seja selada com um saboroso licor de uva de uma lavra equidistante, que é para não atiçar às desavenças sanguinolentas as partes conflitantes.

Sabe-se que na batalha pela vida quem luta tem razão. Embora ter razão propriamente não estimule ignorar onde os canhotos se apartam dos destros. E quão plena é a racionalidade ambidestra?

Se estivesse interessado em matar o tempo acompanhando quem, intrépido imbecil, cava notícias nas trincheiras da luta, dispensaria uns minutos a mais, porém vai começar a corrida de carros elétricos.

Com a corrida, que o aquecimento global vá pro inferno?

Quero que vá, mas nem precisa. Porca miséria! O inferno está aqui.

É porque o inferno fica estabelecido na face da Terra que eu afianço bastante razoável protestar contra a queima dos combustíveis fósseis, contudo o desgramado do calor não dá bola às milhares de mensagens tão violentamente corretas que pululam nas redes.

Aperto os números do canal de esportes, entra outro no lugar.

Caramba, não poderei editar as imagens dos bólidos despenteando homens e mulheres sem chapéu.

À tentativa que deu errada junto mais uma, pois aperto novamente os números do canal a que desejo assistir e outra vez entra um diferente.

Não nasci no sertão, mas minh’alma é forte.

Realmente não estou brincando. Tenho a vontade firme que não me deixa bambear quando o destino põe um percalço diante de mim.

Vigoroso, faço valer minha determinação. Bato no corpo do controle pra que deixe de gracinha e me obedeça de pronto.

Só que não sintonizo a corrida; e na tela aparece que preciso trocar as pilhas, que são novas, postas no controle faz já uma semana.

Como não pretendo desistir do que quero ver, mudo a posição das pilhas. Pode ser que ajude. Pode ser ou está difícil?

Difícil. Putisgrila, como está!

O canal não entra; mas não há ideia que não possa ser deixada de lado porque o mundo é mais atraente.

Mudo, pois agora eu assisto a um show, um showzaço. Uau!

Se tivesse me deixado levar, teria desligado a TV. Desligada a TV, eu não estaria testemunhando os movimentos do corpo talentoso, os olhares conquistadores tão virtuosos, aquela boca carnuda resvalando de leve o microfone, fora os requebros fenomenais.

Funk é duca, pô!

Educado, seguro a onda, acalmo os nervos e trato de ficar relaxado diante de um maravilhoso espetáculo bem universal.

Upa! Upa! Upa-lê-lê!

Nós, a nação que trabalha pros patriotas, temos mãos para fabricar aparelhos de TV, os controles sem fio e as pilhas que fazem funcionar os controles de TVs de tela plana, imagem HD e milhares de pixels.

Todavia, para que valha alguma coisa a satisfação que se alimenta das esperanças, o desastre está dado pelo medo de ser feliz: mão que acaricia careca também descabela palhaço.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de abril de 2022.

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