A
vida e a vida de Epaminondas Coutinho
Sem explicação, ou porque ter explicação
possa anular o bem-estar que faz possível equilibrar-se diante dos eventos da
vida, uma pessoa, de repente, compreende sua circunstância no mundo.
De momento, a súbita consciência de que a
fragilidade diz muito de cada ato praticado torna descartável querer traduzir a
plenitude numa ideia. É que a paz momentânea não faz sustentável a realidade como
ponte entre o nada que precede o nascimento e o nada que sucede à morte. Mesmo assim,
fica instituída a identificação estupidificante. Por este instante fora do
tempo-e-espaço, a pessoa é a energia que move, comove e remove tudo que houve,
há e haverá.
E de tal modo e em tal grau o universo
torna patética a relação entre a pessoa e sua presença que ela simplesmente
ignora por que sorri.
Como sorrindo a felicidade ganha corpo,
é fútil o desejo de estar no controle: a eternidade que se vive num lapso ultrapassa
o fugaz.
Na eternidade desta estupidez, a pessoa
que gosta particularmente da beleza das orquídeas está deitada na grama. De
barriga para cima, olhando as nuvens que vão passando, é alguém que se confunde
com as formas que vê.
Quer tanto que os traços de uma orquídea
sejam desenhados pelas gotículas que estão flutuando no céu, mais azul que
nebuloso, deseja tanto que o bem-estar parece aumentar o barrigão, mais
estufado.
Tudo bem, a vida mostra que tanta coisa
está além da necessidade de apoiar a nuca na concha das mãos e convocar as
nuvens para que trabalhem a favor do seu deleite.
O que não vai bem, todavia, são estes
gases se condensando sem permitir que os movimentos possam ser coordenados pela
cabeça.
Sim, a digestão do almoço bastante
satisfatório está cegando o seu olhar porque o almoço foi, de fato, muito mais
do que satisfatório.
Vai saber como é possível: o que é
bastante não é muito, mas assim é porque assim lhe parece. Como já deve ter
sido dito pelo Velho Bill.
Epaminondas Coutinho não leu Shakespeare,
mas aposta que não faz mal a ninguém quando une a ideia da orquídea sublime que
traz na cachola com as nebulosas tão levezinhas que vê naquelas alturas.
Sua orquídea linda e maravilhosa pode
muito bem flutuar feito uma jangada no oceano aberto daquela imensidão.
E ficar deitado na grama faz bem. E tanto
faz bem que a ele ocorre imaginar que a sua orquídea seria ainda mais
espetacular se fosse de chocolate. Não teria pra ninguém. Mas sua orquídea seria
de chocolate airado, levíssimo, e com pedacinhos de chocolate.
Putz!
Epaminondas vê a vida como uma planta
belíssima que sobrevive sem excessos de atenção e carinho.
Por que ele fala com a grama que arranca?
Mesmo não sendo preciso se explicar à
grama antes de mastigá-la, ele acha bom se fazer decente. Afinal, a coitada não
sabe se defender do ataque tão belo.
Epaminondas crê, sim, na beleza vegetativa
da grama.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 10 de abril de 2022.
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