Surdo
da madrugada
Não me ocorre ir da água pro vinho, porém,
se ocorresse de querer uma mudança tão radical, suponho que um número
desconhecido teria de parar de ligar quando a gente está almoçando.
Pelo prefixo, já estou ouvindo a pessoa
do outro lado da linha dando o melhor para empurrar o que sequer tenho
interesse de saber do que se trata.
Tentativas de persuasão de trocar um
plano de saúde por outro bem mais vantajoso são vãs, porque a insistência não me
fará escutar o que não quero nem ouvir.
Prefiro concordar com meus botões que me
dissuadem de espumar de graça, porque ter o celular tocando não implica que alguém
se sinta obrigado a atendê-lo.
De jeito nenhum que vou parar de comer, uma
vez que seria idiotice deixar esfriando o bife na ponta do garfo. Até adivinho
que só pode ser aquele número chato que sabe muito bem o quanto precisa
importunar pra me ferver os nervos.
Todavia, a um telefonema da perda da elegância,
me vem à mente o que li outro dia. Por uma convivência menos desaforada, o
manual é direto: fique calmo, fique bem.
Se não estivesse precisando arrumar serviço
que me permita pagar a luz, eu desligaria o aparelho. Como não posso agir
contra mim, tiro o som do celular.
O telefone começa a vibrar. Deve ser um teste,
porque, contrariado, vou acabar negando o preceito: fique bem, seja feliz.
Neste momento, a minha felicidade
depende de um analgésico pra dor de cabeça. Ainda bem que é o comprimido certo
que eu tomo.
Aborrecido, irritado à beça, a saída
para aliviar a carga do que está chateando é lavar a louça. Vamos! Seja feliz,
faça o possível.
Faço o possível, sou racional.
Sim, senhor, sou um praticante da
racionalidade cidadã. Numa boa, termino de lavar tudo e enxugo a pia. Já que
sou uma pessoa bastante racional, o que usei pode muito bem ficar no escorredor.
Uma vez que não gasto energia enxugando talheres e prato, tenho reservas para
me controlar. Sob controle, não brigo com quem está fazendo apenas seu
trabalho.
Sim, senhora, não sou gente que vive
criando caso só porque a tela do telefone acende quando recebe uma chamada. Sim,
ela está acesa novamente, toda chamativa, com mais uma das chamadas que servem
pra gente perder tempo.
Sim, senhoras e senhores, sou um cara
que não se apavora diante dos contratempos. Manter-se frio é meio caminho
andado pra não criar fantasma que venha assombrar um sujeito pacato.
Esse negócio de assombração, aliás, dá
pano pra manga pra quem é chegado a apavoramento. Que peninha, o suco denso acaba
aguado pelo exagero de botar gelo para disfarçar o gosto ruim. E o que não dá
pra beber vira prejuízo quando o copo é virado no ralo.
Não jogo nada. Bebo num gole que nem
respiro.
Nestes dias de carnaval pós-pasqualino, posso
respirar com calma e ficar de boa sem me aborrecer com besteira.
Como consigo?
Me desligo do mundo ao entrar de cabeça na
batida das escolas.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 24 de abril de 2022.
Nenhum comentário:
Postar um comentário