quinta-feira, 7 de abril de 2022

Nana Nina

 

Nana Nina

 

Nina, a gatinha de olho vivo pra cochilo, vai inspecionando as caixas como se nunca as tivesse visto. Sem nenhum aperto, a serelepe sobe, anda e pula como bem entende. Se houvesse alguma mudança, vá lá, isso explicaria aquela inspeção pormenorizada, mas, desde que foram colocadas onde elas estão, faz meses, não tive, como ainda não tenho, a coragem necessária para movê-las um dedinho, uma lasca de unha que fosse, nadica.

Seu Rodrigues, só vagais deixam bibliotecas bagunçadas.

Eu a arrumaria se me obrigasse a tanto. Desobrigado, não me aflijo com o pó dos dias que vai assentando na montanha de papelão. Como me pegar atormentado é mais difícil por conta dos tranquilizantes que ando tomando, a fibra forte está lassa.

Todavia, o lado ameno da vida permite que fale: nada mal para uma só pessoa, pois, em outras palavras, sendo apenas um, sou vários:

Covarde... Vagabundo... Indolente... Porcalhão...

Algumas pessoas têm facilidade para, numa palavra, definir outras, geralmente a quem menosprezam ou invejam, não sou dessas. Aliás, pela digressão, acrescente-se que sou dispersivo, ou embromador.

Entretanto... A gata segue no jogo.

Curiosa por natureza, a bichana simplesmente não é de ficar quieta sem ter motivo. O que está fazendo tem que ser acompanhado de perto pra que não haja algum acidente, com ela ou causado por ela.

Silenciosa por conveniência, a espevitada certamente ainda está na sala. Quando a danada dá uma sumida, e uma das suas mais notórias peculiaridades é entregar-se ao desaparecimento estratégico, o jeito é procurá-la ꟷ pé ante pé, chamando-a com dengo ou aos gritos.

Enfim! A oncinha dócil de um palmo e meio está deitada no espaço diminuto que existe entre a conjunção das paredes com as caixas.

Como parece que a cara de sono está mais para cara de cansada, a peludinha de olhos quase abertos vai ficando onde está porque, sem estar preocupada em não passar a impressão de que esteja disposta a tirar de cima de si a ansiedade geral com o seu repentino silêncio, a estimada felina precisa dar uma gostosa descansadinha.

Recompor as forças para outras estripulias é realmente deleitável, independentemente do papelão, da pouca maciez do papelão, do odor meio nauseante do papelão empoeirado, faz bem parar um pouco.

O sumiço da gatinha nada tem de maquiavélico, a explicação mais simples é que a miau-miau está exausta de suas tantas fuzarcas.

Como eu também sou um boboca besta, não vou negar a qualquer membro quadrúpede do meu lar o direito a ter apagado o holofote das minhas apreensões sobre o seu cangote.

No mato sem cachorro, gato pede água por que é matreiro?

Se for, a beleza da história é que a realidade nua e crua não basta, é preciso dar imaginação à memória: porque ela não varre a poeira pra debaixo do tapete nem faz miar suas mil e uma Sherazades, Nina nana de olho aberto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de abril de 2022.

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