Por
um punhado de pirulitos
O homem preocupado que dorme a noite toda
não se apavora que os soníferos não façam efeito, pois ele tem inteira
confiança no médico que os receitou quando lhe contou das suas muitas ansiedades.
Realista que intui as decorrências do
que diz, o homem ponderado nem se lembrou das pombas que estão aninhadas logo
acima da cama onde ele se deita.
O homem que passou a dormir mal mesmo
sem pensar nos bichos entre o forro e o telhado toma pílulas sem ligar os problemas
pra pegar no sono com a vontade de acabar com o barulho de outra cambada.
Se pagasse alguém pra limpar a casa, ouviria
como homem que se tranquiliza ao saber que tem só uma quadrilha de ratos sob os
pés.
O homem que anda descalço a maior parte
do tempo que passa em casa não acha certo associar suas angústias com aquelas pragas,
pois seus fantasmas não precisam de drogas lícitas pra atormentá-lo.
As pombas, os ratos e os morcegos, que
ainda nem haviam entrado na história, são vítimas de preconceito. São outras
súcias que circulam na sociedade que causam engulhos, espasmos e calafrios no
homem que muito se assombra com a extinção da humanidade.
O homem enojado que engole antiácidos
depois das refeições tem que comer pouco pra não piorar a má digestão. E ele
bebe água como se bebesse vinho, querendo-se anestesiado, encharcado, tornando-se
no homem borracho que não para em pé.
Como o vento da madrugada não sopra
quando mais precisa, o tolo que não fica bêbado com água filtrada sonha que tem
uma rachadura crescendo noite após noite.
O homem que acorda preocupado com a
trinca no teto bem acima da sua cabeça tem que deixar um bilhete na mesa ou
cuidará somente de comer pão com margarina na pressa de cada dia.
De repente estressado, o homem que não
se levanta da cama nem pra anotar o que precisa resolver quando a manhã chegar,
todavia, ele não tem que torcer pelo time do coração. Caramba, ele torce.
Precisar não é querer.
Não é preciso que o time do coração
ganhe o campeonato pra que haja felicidade. O coração do torcedor bate feliz
porque ele comemora toda vitória, não apenas quando levanta caneco.
Pôr faixa no peito é glorioso, mas tem
empate que pede breja.
Ainda que hoje não haja jogo, dá-se um
jeito pra ver de novo o que já se houvera visto.
Vai saber se um detalhe importante tenha
se perdido na correria de quem só para pra reclamar do pulha, safado, sem
vergonha, juiz ladrão que não apita direito.
O homem distraído pela vida sente que
não pode se deixar trair pela vontade de não se perder por aí, porque muita
gente peca quando mais teme agir como pecadora.
Coisa boa é dormir ouvindo a chuva caindo
mansa. Não precisa ter chuva. Não basta querer que tenha chuva. Talvez até faça
bem querer que a chuva venha quando a gente precisa que venha tão calma e boa.
O homem que não faz drama porque anda
carente de amor trata de chegar cedo ao consultório.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 05 de maio de 2022.
Nenhum comentário:
Postar um comentário