quinta-feira, 14 de abril de 2022

Dicas

 

Dicas

 

Quando cobram de mim que me posicione sobre algum assunto que esteja bombando no momento, não preciso fazer esforço porque tenho facilidade pra me localizar em meio ao tiroteio entre inimigos figadais.

Não abro mão de ficar consciente; trabalho para seguir centrado em mim; quando decididamente é necessário, enfio a mão na massa para permanecer lúcido: preservo a minha liberdade de crer em mim.

Digo isso porque, resolvidas a quebrar o pau por livre e espontâneo arbítrio, as pessoas correm apagar a luz. Pois no escuro nem é preciso fechar os olhos para disparar na direção em que, presume-se, estejam só os facínoras repulsivos.

Mesmo havendo o risco de um morticínio generalizado, de parte a parte, o fogo amigo decididamente dá as caras e os sobreviventes se veem na posição insuportável de chamar cadáveres pelo nome, pois a ética está na compreensão dos números como estatísticas funestas.

Perco o sono; tenho engulhos quando consigo comer alguma coisa; e trato de manter a prontidão contra quem me queira enquadrado como mais outro zero à esquerda.

Enfim, vergonhosamente, armas úteis podem ser nocivas. Todavia, há circunstâncias nas quais tenho dúvidas de como as manejo, o jeito, portanto, é não insultar nem ridicularizar o que vem me assaltar.

Aprender a viver é aprender a pedir ajuda?

De chofre, contei à professora que meu sonho era ser padre. Queria ser como José, que foi o melhor padre que tive a honra de enfrentar na infância. A sua alma era maior que a sua peregrinação, dos arrabaldes de Xangai até o tabuleiro da casa paroquial ibiunense.

Mais que o bê-á-bá, o chinês me ensinou a sacrificar cavalo, bispo e rainha. Se eu vivia perdendo, era porque o enxadrista estratégico não fica sorrindo antes de cada jogada.

Como não cresci o tanto que almejava crescer para chegar à altura nem que fosse do Mequinho que um dia foi-me possível enfrentar, virei perder pro computador. Queria ser bom o bastante pra saber o que faz de mim esse ferrenho iniciante que não passa do sexto lance.

Aprender a viver é aprender a pedir ajuda na hora certa?

E digo isso porque, antes da pandemia, bem no comecinho, quando o comércio estava para baixar as portas, acho provável que tenha sido nesse período obscuro que pude viver uma lição moral que levarei pro túmulo como sendo uma glória profundamente minha.

O homem veio a mim porque estava certo de que a festa começou comigo a comer um filé à parmegiana como quem devora um sanduba, pois eu lambia dedos e beiços.

O homem tomou para si a mão que segurava a faca e cortou o bife sem titubear e tomou pra si a mão que segurava o garfo e me fez enfiar na boca o pedaço de bife que havíamos cortado, e aquilo foi bom.

Isso de aprender a viver é aprender a pedir ajuda à pessoa honrada que, justamente na hora certa, resolve estar no lugar certo?

Sei não... Dica boa em cabeça dura funde a cuca.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de abril de 2022.

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