Angelical
Amiga Angélica está no sítio. Veio na
quinta-feira à noite, depois de mais um dia trabalhando porque precisa. Tem
contas pra pagar. Faz o que é preciso, porque as suas contas são do tipo que não
prescrevem, nem quando deixadas nas gavetas. E como faltam outras gavetas, que
não façam evaporar o cheirinho das bugigangas tentadoras pra seguir no rastro
de juros sobre juros, essa trilha argentária que às vezes nem se apaga depois
de comprovada a dívida liquidada. Para não ficar mais aborrecida do que está,
veio passar a Páscoa no sítio.
Amiga Angélica, tão miseranda quanto nos
dias em que tem mesmo que se entregar a fazer negócios que aumentam seus
aborrecimentos, está com os celulares ligados, precisamente porque seus dias de
ócio são ficção. Nem inventados nem de mentira, são crias de suas vigílias
contaminadas por ansiedades. Já que não dorme mais que três horas seguidas,
acordando para nada, para assuntar tudo, a esmo. Só que a aurora entra pelo
quarto, coçando-a pros compromissos que poderiam pegar um solzinho bom na
piscina mas que não se deixam adiar nem com telefone de bateria arriada.
Amiga Angélica gosta de e-mails, e vai enviando,
curtos, longos, do jeito que anda a sua cachola, sempre cheia de opiniões. Dar
com uma vara na mangueira pra comer sentada à sombra ou baixar o sarrafo em
governante que não quer blocos na rua? Faz os dois.
Amiga Angélica toma gosto por um
pensamento súbito. Justamente porque soa estapafúrdia, vai ajuntando os cacos
até que se convença de que aquela bobagem sabe parar em pé. Pegando num apoio
aqui e tomando uma escorregadela ali, em nome de uma sexta mais viva.
Amiga Angélica, sem paciência pra aguardar,
diz que a pessoa que chega ao topo não deveria sentir vergonha de ser
hipócrita. A felicidade não tem preço, logo, pague-se mais a quem trabalha como
se gostasse realmente do que faz. Pessoas que se alegram em fazer melhor o que
vêm fazendo pra subir na vida merecem ganhar mais. Elas sabem que estar no topo
é ocupação momentânea, porque ninguém dura no cargo mais do que o necessário.
Amiga Angélica emenda, já que não tem
dinheiro na vida que pague a felicidade alcançada, quem chega ao topo tem mais
é que trabalhar por amor, sem salário. Com tanto que fazer, é desonroso ficar
brigando por salário, implorando por reajuste ou entrando em greve todo ano.
Amiga Angélica, que não sossega, diz que
o certo é cobrar caro por fazer o que não gosta. Fundamental é esconder o medo
de viver ao fio da navalha. É feio perguntar por rede de segurança. Ao olhar
pra baixo, não se tenha vertigem nem súbitos de pular. O importante é saber que
a vida não prega surpresas e a jornada esgota ao longo do expediente. Seja incluída
a angústia de morrer no meio do caminho e enfie-se ágio polpudo no negócio, uma
vez que desprezo vale muito a pena quando entra uma bufunfa graúda na jogada.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 19 de abril de 2022.
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