terça-feira, 19 de abril de 2022

Angelical

 

Angelical

 

Amiga Angélica está no sítio. Veio na quinta-feira à noite, depois de mais um dia trabalhando porque precisa. Tem contas pra pagar. Faz o que é preciso, porque as suas contas são do tipo que não prescrevem, nem quando deixadas nas gavetas. E como faltam outras gavetas, que não façam evaporar o cheirinho das bugigangas tentadoras pra seguir no rastro de juros sobre juros, essa trilha argentária que às vezes nem se apaga depois de comprovada a dívida liquidada. Para não ficar mais aborrecida do que está, veio passar a Páscoa no sítio.

Amiga Angélica, tão miseranda quanto nos dias em que tem mesmo que se entregar a fazer negócios que aumentam seus aborrecimentos, está com os celulares ligados, precisamente porque seus dias de ócio são ficção. Nem inventados nem de mentira, são crias de suas vigílias contaminadas por ansiedades. Já que não dorme mais que três horas seguidas, acordando para nada, para assuntar tudo, a esmo. Só que a aurora entra pelo quarto, coçando-a pros compromissos que poderiam pegar um solzinho bom na piscina mas que não se deixam adiar nem com telefone de bateria arriada.

Amiga Angélica gosta de e-mails, e vai enviando, curtos, longos, do jeito que anda a sua cachola, sempre cheia de opiniões. Dar com uma vara na mangueira pra comer sentada à sombra ou baixar o sarrafo em governante que não quer blocos na rua? Faz os dois.

Amiga Angélica toma gosto por um pensamento súbito. Justamente porque soa estapafúrdia, vai ajuntando os cacos até que se convença de que aquela bobagem sabe parar em pé. Pegando num apoio aqui e tomando uma escorregadela ali, em nome de uma sexta mais viva.

Amiga Angélica, sem paciência pra aguardar, diz que a pessoa que chega ao topo não deveria sentir vergonha de ser hipócrita. A felicidade não tem preço, logo, pague-se mais a quem trabalha como se gostasse realmente do que faz. Pessoas que se alegram em fazer melhor o que vêm fazendo pra subir na vida merecem ganhar mais. Elas sabem que estar no topo é ocupação momentânea, porque ninguém dura no cargo mais do que o necessário.

Amiga Angélica emenda, já que não tem dinheiro na vida que pague a felicidade alcançada, quem chega ao topo tem mais é que trabalhar por amor, sem salário. Com tanto que fazer, é desonroso ficar brigando por salário, implorando por reajuste ou entrando em greve todo ano.

Amiga Angélica, que não sossega, diz que o certo é cobrar caro por fazer o que não gosta. Fundamental é esconder o medo de viver ao fio da navalha. É feio perguntar por rede de segurança. Ao olhar pra baixo, não se tenha vertigem nem súbitos de pular. O importante é saber que a vida não prega surpresas e a jornada esgota ao longo do expediente. Seja incluída a angústia de morrer no meio do caminho e enfie-se ágio polpudo no negócio, uma vez que desprezo vale muito a pena quando entra uma bufunfa graúda na jogada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de abril de 2022.

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