terça-feira, 26 de abril de 2022

O sétimo selo

 

O sétimo selo

 

Eram dez os desejos que listei de pronto, assim que ouvi que vamos ter outra loteria, a Milionária, logo mais, quiçá em maio.

Eram dez e viraram sete, e o número não foi reduzido pra que sejam feitas associações místicas com o cabalístico algarismo do período de azar a quem quebra espelho em mil pedaços.

Eram dez, viraram sete e, como o dragão da inflação despertou da hibernação, estou torcendo para que a bolada do primeiro sorteio seja suficiente pra que eu consiga realizar os tais desejos.

Espero estar rico da noite pro dia? Ou nem vou jogar.

Espero ganhar uma grana que tire o sono? Ou será coisa de sonso ficar conferindo se os tostões continuam na carteira.

Espero não me esquecer de que preciso sonhar os números certos quando a hora augusta chegar.

E o momento da revolução chegará, e ele virá porque os ventos da bonança estarão soprando a favor, porque em maio não sopram ventos nefastos. Afinal maio é o mês das noivas e das flores que não se abrem em outubro ou agosto, e elas valorizam maio.

E tão valorosa reação vai ser favorável ou serão da carochinha as folhas que narram o feliz achado de caravelas que vieram dar às costas deste abençoado país em cujos costados tudo que se planta as saúvas atacam.

E na memorável fábula deste escriba será lido que tive a vida virada no avesso, do sonho pra realidade, e realidade das boas.

E, pra não afrontar quem contribui compulsoriamente na fonte, esse conto renderá maior atrativo se permanecer restrito às ações discretas, como a distribuição de pão francês com margarina à metade da gente que venha me pedir chorando à toa.

E, em reconhecimento dos meus feitos, farei mesmo uma boa parte.

Esta narrativa nada homérica nem dantesca será cantada pela arte de ídolos, tão espontâneos ao cobrar algum jabaculê, porque pão com mortadela há de vir quando tudo melhorar com a carestia.

Eram dez os desejos mas restaram sete, pois a cabeça erra a conta se pressionada a separar mentirinhas, notícias falsas e maracutaias. E isso de misturar robótica com internet é invenção cabeluda.

Eram dez e ficaram sete, pois a verdade diz que o dinheiro da loteria servirá pra pôr leitos nos hospitais, câmeras nos uniformes e pedágios nas estradas, rodovias e picadas já asfaltadas.

E a tristeza triplicará em quem não tolera transparência.

E mais angustiado ficará quando souber que minha vigorosa saúde mental revela no sonhador o realista, como quem não esquece os oitos dígitos, que são diferentes dos números da data do meu aniversário, e farei miséria se digitar corretamente.

E, sem quartel, correrá de boca em boca que a alvorada deste novo futuro será enaltecida pelo céu de brigadeiro, por gaivotas flanando em velocidade de cruzeiro e urutus saídos dos seus buracos.

E, por fora, os governos se espelharão no empenho desse primeiro ganhador bem milionário ou nada feito.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de abril de 2022.

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