domingo, 8 de maio de 2022

Fora da caixa

 

Fora da caixa

 

Este senhor careca, barrigudo, com cara enrugada que outrora fora cravejada de espinhas, esta pessoa que passeia vira-lata sapeca em vez de furiosos pinscheres, você por acaso é quem se apresenta como sendo um tal Rodrigues?

Seu Rodrigues ao seu dispor, madame.

A madame sabe meu nome de batismo. E diz que morei numa casa que, no quintal, tinha uva, chuchu, cana e limão.

Ela, todavia, está enganada, porque o chiqueirinho pras leitoas dos almoços inesquecíveis ficava depois do muro, no terreno do meu avô.

Pensando bem, atrás da casa dos meus pais, o que estava plantada no cimentado do quintal era só uma edícula cheia de tralhas.

Aquela senhora, que se revela minha vizinha de infância, vem a ser a menina que, faz já uns cinquenta anos, viera sentar-se à porta do bar em que meu pai jogava porrinha com os parceiros de garganta afiada.

O honesto começou a destilar a honestidade como se fosse a mais antiga das vocações dos homens de bem:

ꟷ A buzina deu mais graça à freada brusca, porque é bem divertido assustar a fila indiana de mãe com suas crias.

O sincero quis rechaçar com acentuada dose de sinceridade:

ꟷ Discordo, a maior conquista que o automóvel poderia ganhar vem a ser o freio a disco. Acima das freadas barulhentas vem a necessidade de fazer com que os pneus durem mais. E rastro fedorento é bem nojento.

O austero ralhou com autêntica austeridade:

ꟷ Deixem de besteira. Bicho moderno que automóvel é, a sua glória está em rodar o mundo muito além de comportadas alamedas floridas.

Ao enigmático restou cometer outro dos seus enigmas:

ꟷ Carro na mão de barbeiro não é navalha, é guilhotina.

A madame que acorda algumas memórias é Madalena.

Madalena, é claro!

Na casa da Madalena tinha um cachorro engraçado que balançava a cabeça quando a gente batia a porta da geladeira.

Tinha também uma família pinguim: o pai e a mãe usando cachecol, verde pra ele e rosa pra ela; a trupe de filhotes era composta pelo maior com camiseta escrita Palestra, pela do meio de suéter xadrez em tons de rosa e, sem sequer um trapinho, pelo caçula de óculos escuros.

Foi na casa de Madalena que me enfiei naquele domingo, uma vez que o pai e a mãe deviam estar batendo boca por causa de um assunto fundamental, como pôr alecrim ou manjericão em molho de tomate.

Mas a mãe foi me apanhar, deu a minha mão pro pai. Ele e eu, nós descemos pro centro, entramos no bar em cuja porta conheci a menina que jurou que iria ter filha aos quinze anos, que iria preparar a filha pra ter filha aos quinze anos, que a ela lhe daria uma filha aos quinze anos, que faria uma filha aos quinze anos.

Ou seja, não trataria a prole como se cuida de uma boneca de laca fina no estojo, joia frágil, patrimônio que tem o seu valor preservado se o mundo não arranhar a face lisa de diamante.

Pra sua trinetinha que faz o diabo com o skate, Madalena sorri toda, toda, satisfeitíssima da vida.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de maio de 2022.

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