O fúfio impressionante
Alegar cansaço funciona como desculpa
quando a preguiça corrói o desejo de correr pro beco sem saída, porque esgota
querer entender a tentação de continuar de papo pro ar só mais um pouquinho.
Pode-se atribuir a banana amassada as câimbras
não começarem a formigar nas pernas por permanecer um tempo encarando o teto.
Embora lacrimejantes nem bem se pense em
outra pratada daquela bananinha no capricho, ocorre gabar-se verdadeiro mestre
na arte zen de manter-se de olhos abertos.
Sem atributos mentais para imaginar as
maravilhas do potássio nas fibras da carne, o que acalma mesmo a alma é imobilizar-se
o quanto puder. Sossegar-se para que a vida seja um tantico mais doce.
Sim, sim. Sendo dócil, que a cura venha
do vício. Pois esse mundo, doce mundo que lateja nas entranhas, pra que sua
saudável influência chegue à pele, o jeito é praticar a terapia de ter um
tapete às costas.
Se não rejuvenesce, suspende a pressa de
quem sofre por motivo fútil. Descompassando a passada, a vontade somente ganha
tempo se dispensada a ânsia de cronometrar-se atento e forte.
Ainda que a força do pensamento faça o
milagre da erradicação dos ponteiros, o relógio da cachola, de maneira
perfeitamente justa com os tendões e os músculos, opera a multiplicação do
bem-estar.
Parabéns à inércia, que potencializa os
efeitos da vagabundagem.
O vagabundo exemplar, aquele que sabe
que é uma besteira muito grande preocupar-se com a terra de ninguém que a
digestão instala no cérebro, é em nome da concórdia entre neurônios e sinapses
que ele se abandona às ondas muito mansas dos pensamentos domesticados, paulatinamente
amestrados pelo prazer de vagar a esmo.
O esqueleto aplaude a atitude de estar
largado no chão.
Largado nada, é cativo da ideia de
ver-se livre de salvar a vida.
Uma pessoa, qualquer pessoa, tem o direito
de curtir esse tempinho bom de poder respirar nessa bolha de quietude,
respirando sem ter nos ombros o peso danado da consciência grandiloquente.
Dá alívio baixar o tom à beira do
sussurro, até raspar o silêncio, sem medo de vagar dentro desse refúgio mental,
pois não é preciso pensar em derrotar o tique-taque que trabalha neuroticamente
pela indigestão da barriga cheia de vento.
O espinho que explode esse mundo frágil são
os ventos fedorentos, as balas disparadas pelo riso. Como banana podre seduz
mosquinhas, rir sem compromisso com o pudor estimula os flatos.
Levada, a mente fomenta o riso descendo
pela espinha, cozinhando no fogo do desassossego o gostoso do instante, e o
corpo azeda tudo soltando um pum atrás do outro.
E cadê janela que não há? Se não há, esses
momentos de preguiça são necessários. Como a vida é breve, pra que esquentar a
cabeça de modo infrutífero?
Então, esse homem que não se presta a mudar
de lugar se assanha a não parar de rir desavergonhadamente da situação.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 01 de maio de 2022.
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