domingo, 1 de maio de 2022

O fúfio impressionante

 

fúfio impressionante 

 

Alegar cansaço funciona como desculpa quando a preguiça corrói o desejo de correr pro beco sem saída, porque esgota querer entender a tentação de continuar de papo pro ar só mais um pouquinho.

Pode-se atribuir a banana amassada as câimbras não começarem a formigar nas pernas por permanecer um tempo encarando o teto.

Embora lacrimejantes nem bem se pense em outra pratada daquela bananinha no capricho, ocorre gabar-se verdadeiro mestre na arte zen de manter-se de olhos abertos.

Sem atributos mentais para imaginar as maravilhas do potássio nas fibras da carne, o que acalma mesmo a alma é imobilizar-se o quanto puder. Sossegar-se para que a vida seja um tantico mais doce.

Sim, sim. Sendo dócil, que a cura venha do vício. Pois esse mundo, doce mundo que lateja nas entranhas, pra que sua saudável influência chegue à pele, o jeito é praticar a terapia de ter um tapete às costas.

Se não rejuvenesce, suspende a pressa de quem sofre por motivo fútil. Descompassando a passada, a vontade somente ganha tempo se dispensada a ânsia de cronometrar-se atento e forte.

Ainda que a força do pensamento faça o milagre da erradicação dos ponteiros, o relógio da cachola, de maneira perfeitamente justa com os tendões e os músculos, opera a multiplicação do bem-estar.

Parabéns à inércia, que potencializa os efeitos da vagabundagem.

O vagabundo exemplar, aquele que sabe que é uma besteira muito grande preocupar-se com a terra de ninguém que a digestão instala no cérebro, é em nome da concórdia entre neurônios e sinapses que ele se abandona às ondas muito mansas dos pensamentos domesticados, paulatinamente amestrados pelo prazer de vagar a esmo.

O esqueleto aplaude a atitude de estar largado no chão.

Largado nada, é cativo da ideia de ver-se livre de salvar a vida.

Uma pessoa, qualquer pessoa, tem o direito de curtir esse tempinho bom de poder respirar nessa bolha de quietude, respirando sem ter nos ombros o peso danado da consciência grandiloquente.

Dá alívio baixar o tom à beira do sussurro, até raspar o silêncio, sem medo de vagar dentro desse refúgio mental, pois não é preciso pensar em derrotar o tique-taque que trabalha neuroticamente pela indigestão da barriga cheia de vento.

O espinho que explode esse mundo frágil são os ventos fedorentos, as balas disparadas pelo riso. Como banana podre seduz mosquinhas, rir sem compromisso com o pudor estimula os flatos.

Levada, a mente fomenta o riso descendo pela espinha, cozinhando no fogo do desassossego o gostoso do instante, e o corpo azeda tudo soltando um pum atrás do outro.

E cadê janela que não há? Se não há, esses momentos de preguiça são necessários. Como a vida é breve, pra que esquentar a cabeça de modo infrutífero?

Então, esse homem que não se presta a mudar de lugar se assanha a não parar de rir desavergonhadamente da situação.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de maio de 2022.

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