Bem
engraçado
Manter-se em dia com a vida tem lá as
suas complicações. Quando parece que tudo vai continuar na temperatura imperceptível
de sempre, a realidade toca fogo no enfadonho como pimenta das brabas.
Já que estímulos pipocam sem avisar, é
preciso controle incomum para não bobear um instante.
Querer dedicação absoluta é um desejo impossível
de ser atendido, pois é um tal de luzes dispararem piscar do nada e alarme, vira
e mexe, soar alucinado.
À cachola, essa rede de múltiplos curtos-circuitos,
chega o veredito acachapante: o mordomo da culpa fica sendo a eletricidade.
Como o perigo tira sarro de gente
desligada, a reconexão pelo risco é uma picaretagem sem tamanho. Que o ouro de
tolo também produz faíscas, faz brilhar o ramerrão do prosaico do cotidiano
como poesia a quem entediado com o céu azul que não relampeja nem a pau.
Esfregar na cara a lama nada curativa só
emporcalha o beligerante acomodado à própria sombra, porque o paspalho faz
bonito quando se entrega à importância que tem, como bobo que canta e dança.
Raio! Não é pra ficar rico que se passa
o chapéu, que dê pro almoço está bom da conta. De curtida em curtida, vai a
vida.
Não cabe desprezar quem acalanta o tédio
como mocotó insosso.
Se registre que arrulhos chinfrins,
piadinhos chatos e cantorias bem irritantes não têm poder pra divertir quem se inocula
de dancinhas que o celular nem esquenta de procriar aos milhares.
Viva! Não se conhece vacina pra viralizações
estupefacientes.
Coitado de quem leva a sério a ideia de viver
concentrado em tudo que faz. É que a vida, platônica só no papel, sempre apela
pra urgência fora do combinado. E determinismo estoico é para gente que tem
medo de pôr-se em xeque a cada segundo.
Sem visar a nenhum especial exorbitante,
o mundo de cada dia não entra em pane por excesso de energia no sistema.
O crime não compensa, então, é melhor
não palpitar que ninguém colapsa em desespero apenas por chamar de pânico a falta
de ar, suor frio e a sensação de perigo iminente.
O charlatão avisa que a pessoa que acha
que vai ter um ataque de pânico já está no meio de um. E charlatães, caraca,
nunca erram.
Quem não erra não se extravia, não se
perde, não se desencontra, não se desvia. É provável que afunde na areia porque
não consegue parar de babar ou, bem mais provável, nem sente que está babando.
A tela do micro mostra um e-mail que não
está terminado.
Toca a campainha, são os livros. Toca o
telefone, é trote.
Remédio tem hora certa. Ave Maria tem
hora certa. Pro médico, tem que marcar hora. Com cartomante nem precisa combinar
nada.
E o futuro segue o seu curso.
A tela do micro mostra que ela continua
igualzinha.
Há rascunhos não terminados, só não há curiosidade
de saber que conteúdos eles têm. Há endereços para enviar os e-mails, mas isso
vai ficar para depois.
Quando passa com um cafezinho, a raiva
tem muito mais graça.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 03 de maio de 2022.
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