terça-feira, 3 de maio de 2022

Bem engraçado

 

Bem engraçado

 

Manter-se em dia com a vida tem lá as suas complicações. Quando parece que tudo vai continuar na temperatura imperceptível de sempre, a realidade toca fogo no enfadonho como pimenta das brabas.

Já que estímulos pipocam sem avisar, é preciso controle incomum para não bobear um instante.

Querer dedicação absoluta é um desejo impossível de ser atendido, pois é um tal de luzes dispararem piscar do nada e alarme, vira e mexe, soar alucinado.

À cachola, essa rede de múltiplos curtos-circuitos, chega o veredito acachapante: o mordomo da culpa fica sendo a eletricidade.

Como o perigo tira sarro de gente desligada, a reconexão pelo risco é uma picaretagem sem tamanho. Que o ouro de tolo também produz faíscas, faz brilhar o ramerrão do prosaico do cotidiano como poesia a quem entediado com o céu azul que não relampeja nem a pau.

Esfregar na cara a lama nada curativa só emporcalha o beligerante acomodado à própria sombra, porque o paspalho faz bonito quando se entrega à importância que tem, como bobo que canta e dança.

Raio! Não é pra ficar rico que se passa o chapéu, que dê pro almoço está bom da conta. De curtida em curtida, vai a vida.

Não cabe desprezar quem acalanta o tédio como mocotó insosso.

Se registre que arrulhos chinfrins, piadinhos chatos e cantorias bem irritantes não têm poder pra divertir quem se inocula de dancinhas que o celular nem esquenta de procriar aos milhares.

Viva! Não se conhece vacina pra viralizações estupefacientes.

Coitado de quem leva a sério a ideia de viver concentrado em tudo que faz. É que a vida, platônica só no papel, sempre apela pra urgência fora do combinado. E determinismo estoico é para gente que tem medo de pôr-se em xeque a cada segundo.

Sem visar a nenhum especial exorbitante, o mundo de cada dia não entra em pane por excesso de energia no sistema.

O crime não compensa, então, é melhor não palpitar que ninguém colapsa em desespero apenas por chamar de pânico a falta de ar, suor frio e a sensação de perigo iminente.

O charlatão avisa que a pessoa que acha que vai ter um ataque de pânico já está no meio de um. E charlatães, caraca, nunca erram.

Quem não erra não se extravia, não se perde, não se desencontra, não se desvia. É provável que afunde na areia porque não consegue parar de babar ou, bem mais provável, nem sente que está babando.

A tela do micro mostra um e-mail que não está terminado.

Toca a campainha, são os livros. Toca o telefone, é trote.

Remédio tem hora certa. Ave Maria tem hora certa. Pro médico, tem que marcar hora. Com cartomante nem precisa combinar nada.

E o futuro segue o seu curso.

A tela do micro mostra que ela continua igualzinha.

Há rascunhos não terminados, só não há curiosidade de saber que conteúdos eles têm. Há endereços para enviar os e-mails, mas isso vai ficar para depois.

Quando passa com um cafezinho, a raiva tem muito mais graça.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de maio de 2022.


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