Adeus
à calma
Antes de queimar nos posts da quarta de cinzas a feira da
farra, a lista propõe dez intervenções carnais antes do consumo cosmético da
laranjada adoçada por lágrimas hipócritas:
1. Estar sentado à espera do ônibus
pode causar repentina perda de memória, por falta de espaço no disco ou ficar
rodando num trecho que poderia ter sido riscado do mapa. Melhor tomar pé que
viaja. Há dois quilômetros pesando como quatro, vindo àquela vez em que, na
Pero Leão dos republicanos uspianos alcóolitos, houvera porradinhas de montão. Sem
zanzar pela Faria Lima às três da matina, adverte-se não encarar as luas gêmeas
da Rebouças, rio que corre pra Paulista. Sempre no trampo, tempo não marca
touca, por isso o sol do sábado grita pra múmia sair da tumba, voltar do coma que
nem mais um zero à esquerda, outro chumbado pela glória do pilequinho homérico.
2. Pra diferenciar incerteza de
dúvida, tanto há razões pra enfiar o celular no bolso, quanto senões pra
atirá-lo ao fundo do lar.
3. Soltaram que um manuscrito lacrado
por cera de abelha numa caverna entre a Jordânia e a Cisjordânia surta quem o
estuda. Afinal, mandado pro espaço bem no meio da ambrosia toda, Lúcifer anda pê
da vida. Como um satanás dos diabos, o seu mimimi furibundo segue repercutindo
nos tímpanos do vulgo.
4. Reza a lenda que Inferno é “lugar
onde Deus não está”. Então, aos olhos do bom cristão, eis ali o inferno que
toma suco de manga, e acolá faz uma fezinha pros 200 milhões acumulados, e que
alhures ri das artes de pulguento com bebum.
5. Lembrar em qual parede única está a
foto embolerada da Nana Caymmi cantando Dois
pra lá naquele defumado Piu-Piu dos 80.
6. Já é hora de a vergonha fazer do
pomar uma pomada. Já está na hora de parar de não passar por baixo de escada.
Já é momento de enfrentar a balança da farmácia e se for o caso, rir. É o
instante de pôr os óculos para ler as letrinhas da placa do busto. É agora que o
sorrisinho amarelo tem de ir para cara de quem vive tirando onda. Já se faz o
momento de compartilhar alegrias, sem os constrangimentos de quem dita regras,
multas e interdições. Já se faz a hora de afirmar que não há congraçamento
maior do que a vergonha. É hora, ponha na cabeça a dignidade humana. Não há de haver
aplausos às palmas vexatórias, sorriso para as risadas energúmenas e mérito aos
memes deprimentes. E é pra já. É agora, e não amanhã. Pois arrependimento ilude,
não cura mágoa não perdoada. Já a vergonha, esta queima na hora. Então, atire a
primeira torta, sapato, ou o que tiver à mão, sem deixar passar o momento em
que um descarado esteja zombando de terceiro. Que vá comer o pão que o diabo
amassou com a língua dum lambe-botas.
7. Vergonha não fortalece o fraco, nem
medo.
8. Tem madeira seca pra pegar fogo.
9. Se a piada não tem graça, faz
péssimo negócio quem ri.
Como chupo laranja com gosto, a décima
dica fica cancelada.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 25 de fevereiro de
2020.