sábado, 8 de fevereiro de 2020

Silêncio


Silêncio

Não é que tem coisa que acontece na vida da gente que fica difícil de não chamar coincidência? Pois, estou no Sebo Café em conversa amistosa sobre livros e fatos da vida. A interlocutora, lá pelas tantas, diz ter nascido em Sarapuí, mesma cidade onde nasceu a minha avó paterna. Acrescenta que fez jornalismo na PUC/SP, fiz ECA mas não me graduei. Pra meu espanto, ela comentou que teve aulas com um professor sensacional de física, o Robortella. No Anglo de Sorocaba? Sim, no prédio que ficava no Além Ponte. Oxe. Numa crônica, tasquei a antiga sede do pré-vestibular numa avenida muito movimentada, e bem longe do endereço dos 80.
Morcegos viralizam; coincidências, não.
Uma amiga, que tomava parte do papo, disse que gostaria de ser mosquinha com o poder extraordinário de materializar-se nas cenas que julga dramáticas da humanidade. Por exemplo: estar na macieira quando Eva perguntará pra serpente se comer daquele fruto antes do almoço não irá tirar o apetite; que teria dito o Goethe pro Beethoven quando umas moças assanhadas atreveram-se a bagunçar a vasta cabeleira do Surdo da Nona; que raio, de arma na mão, o dr. Getúlio de pijamas dando uma que não vê seu anjo tapando o rosto pra não virar cúmplice da cena patética que o NENEM nem cobra mais.
Mas, tergiverso. A questão que pretendo pôr mesmo no papel fala que outra entidade metafísica, digo, uma alma, consegue silenciar-se no corpo de qualquer pessoa em qualquer tempo, de acordo com sua curiosidade de momento.
Não sendo mosca nem ocupando espaço, ela não corre o risco de rolar em escada molhada nem de morrer com chinelada certeira.
Xô! Que o sopro vem da palavra. Por meio dela dá-se a ver o que não está visível, ou que podia ter estado ou o que poderá vir a estar. Só tem que a linguagem precisa estar de acordo com a mensagem.
A ideia por detrás do que se afirma?
Não tem culpa o lápis, culpemos o escritor. Não tem culpa o micro, culpemos o cérebro do escritor. Não tem culpa o livro, joguemos na conta do editor. Não tem culpa a história, façamos culpado o leitor. Se não houvesse leitor, não haveria fábrica de lápis. Assim, o círculo se fecha e podemos culpar o universo em cujo interior vive este homem dado a mordiscar o toquinho de madeira com grafite dentro, por cuja ponta escapolem ideias que precisam de palavras bem orquestradas pra poder convencer que é possível ficar ligado num monte de coisa escrita, como se a vida pudesse seguir ligada ao cosmo através deste objeto mágico chamado livro.
Se livro conta história que não é a de quem a lê nem a da pessoa que tenha escrito a dita cuja?
Vamos regredir. Voltemos pra vida dos pais de quem lê a história. Afinal, a história é bicho que morde o próprio rabo. Além disso, temos de pôr a culpa em alguém. Portanto, culpemos a Adão e Eva.
Tem mais. Sabe aquela árvore caída no quintal?
Culpa do jardineiro.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 06 de fevereiro de 2020.

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