quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Um cão danado


Um cão danado

Como não sei mais com quem ando falando, me reservo o prazer de falar a esmo. Portanto, direi? Posso falar sobre a pessoa sentada no degrau da escada de acesso à areia. Parece meio aborrecida com alguma coisa. Se for pra dar asas à fantasia, vou descartar a faixa de praia entre o mar e ela, focarei na cabeça. Melhor, no volume da voz, tipo o Dylan em Polka Dots and Moonbeams, que nem faz cócegas nos dorminhocos a seus pés.
Curioso, tenho por natural este meu esforço de querer ficar o mais invisível que posso. Até respiro que nem fantasma que se preocupa em não assustar por coisa boba.
Neste momento em que baratas comem restos de queijo que ratos espalham atrás da cristaleira tinindo de limpa, sim. Neste instante em que ficar acordado com vontade doida de chupar manga mesmo com o chuvisco da TV, sim. Nesta hora, prudência faça-se paciência.
Mesmo porque a noite tem que esperar a Terra rodar o dia inteiro até que a porta aberta das esferas cósmicas dê permissão à entrada do Cruzeiro do Sul, em presença das Três Marias.
Circunstâncias assim, de normalidade banal, pedem que se passe ao que se segue, numa versão já verificada.
Dos dois coelhos saltitantes, só desaparece o que sorri. Parece. O outro já não estava lá quando a dúvida veio à tona. Nisso talvez entre alguma dose de perturbação, coisa de bêbado de filmeco de segunda que vê tudo dobrado. Ou o xarope esteja a ponto de admitir que nem coelho tenha visto e nem o jardim dos pulas-pula.
Suponho, portanto, que preciso ficar feito essas estátuas de mais puro cobre. Apesar das cargas que desabam do nada, impassível.
Quando a coisa fica pétrea, opto por dois coelhos numa xaropada só do que cágado na ideia de filósofo, indo ou vindo de Maratona.
Peralá. Os dois coelhos correm em bando. A multidão pulando e o gramado do mesmo tamanho. Peralá de novo. Então, o verde segue na mesma e a tropa está multiplicada de acordo com Malthus. Peraí. Aquele que diz que está vendo orelhudos até no chafariz pira de vez com o estouro de roedores que não param quietos. Fofolejam a mil e com espaço entre eles. Mas o que será isso?
Está de surto.
Não se achincalhe quem tem a consciência abarcada na loucura. Como não sabe rir de si, nem se dá conta de que produz julgamentos monstruosos, geométricos, isentos de contradições. Escolha-se uma existência proba. Afinal, às vezes, passa-se a ideia de que está tudo bem, quando pouco está. Outras vezes, toca correr pra junto do mar. Tocar suas ondas, deixar tocar-se. Até que o pensamento perceba-se no vaivém da água. Há banhistas, há barraquinhas. O nojo afunda-se num lugar sem acesso simples. Lá a memória arquiva trampolinices, beijos de língua, noites de lua. Na banguela, o que se faz ou não...
Pluft.
Funcional e operante, bem se diz pra não confiar nas pessoas, pra que, pelas artes deste mundo, acabem confiando em você.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 20 de fevereiro de 2020.

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