Cerva
de pedra
Parece domingo! A selva selvagem que pulsa.
Feito temporal que se forma logo ali, pelas bandas de Bertioga, com pinta de ir
desaguar lá nos ipirangas de Piratininga.
Piedoso, este toró cai macio, molhando
as pessoas que se deixam molhar, as que tomam sorvete e as que o revendem. Mesmo
com as dicas da brisa e das nuvens chumbo, zanzam.
Passa o carrinho de mercado, com três
cachorros desconcertando a formação. Os malabares ralam aos pés do semáforo que
nem pisca uns trocados. Dos colchões que vão encarar a noite sob a coberta da
avenida, uns pouco a fim de pulgas e piolhos de outras calçadas.
Fique registrado, pros posteriores
cruzamentos estatísticos, que a hora parece que não passa justamente por causa
deste desenfreado frenesi, resmungam tulipas e canecas.
Como sou de cuidar da própria vida,
não embarco nesse bondinho de pneu furado. Tenho de ir, então vou indo.
Flanando, vou na levada de quem está ligado, sim, pro chope quatro queijos.
Com uma sinceridade francamente inesperada,
digo que a minha infância acabou no exato instante em que passei a paparicar a cerva.
O que, de maneira alguma, não envilece nem engrandece quem bebe umazinha ao
meio-dia duma terça. Que isso me posiciona no mundo.
Dito assim, sem o mimo da preparação
das palavras que digam o inferno que já é, parece exagero. Mas vivo, e demasiado.
Assim, com humildade sutilmente
convicta, confesso que a minha maturidade começa justo neste momento, em que
tomo o partido da consciência. Ora, foi o tempo em que entornava vinho no
sangue.
E daí?
Preciso tirar férias do tempo. Faz uma
eternidade que estou a um passo de alguma coisa que ainda não fiz. Como agir? Bebendo
mais. Mais. Mas, por que o porre não corta a lucidez que não dorme? Oxe, minha cabeça
precisa descansar um tanto, ou vou pirar.
Então, com uma submissão civilizadamente
comum, topo contar a vida a partir do ponto que menos cause engulhos mórbidos e
desejos galantes. Assim é que...
Pode ir parando, porque sua ladainha
não enche barriga de pobre. Já gorou o chope. E isso de ficar falando da
calçada como se fosse a Avenida fosse o Boqueirão fosse Praia Grande fosse São
Paulo fosse o Brasil fosse a humanidade, que injustamente entra na sua valsa
pra ficar parando o carrossel. Como se ciranda de retirantes valesse uma selfie, tenha dó.
Opa. Quem escreve a crônica?
Não é porque ando legal das coronárias
que me recuso a cair de boca na fria desse disco riscado nem porque não dá pra
tirar loira da pedra, o desprezo de sempre não tem de descer, sequer redondo.
De acordo com esta urbana cidadania,
sabotagem é querer digerir Mephisto
passando pela minha cabeça bem na hora do apagão.
Sentado no meio-fio, o futuro
desconfia. Ainda perplexos, os olhos de mágoas novas interrogam. Se dor passa
com arroz? Como que os carros comem as pipas? Quando o mar entrou no meu xixi?
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 30 de janeiro de 2020.
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