O
futuro é agora
A convite da carne, levarei
a minha noite tomar sol. Ponho pressa, cerro a janela. Vai dar tempo, e vou
fazê-lo dar. Que a alvorada pariu o bem-te-vi seguindo desígnios de coisas
naturais, fato; coube a mim não ouvi-lo no esplendor da cantoria. Quero a
minha, canto-a.
Nos fones que posso, sento
navegar O bêbado e a equilibrista da
Maria João. Sem bufar um tchau aos ônibus, salto na Avenida.
Aporto à beira da
realidade, que, gaiata, pisca os jornais. Os olhos acreditam no que vejo, quero
crê-los operantes. Evidente, a pegada desferida por O Globo que põe a senhora a
fazer confetes de algum papelório sobre aquele homenzinho.
Sabe me dizer as horas?
Sei. Então, que hora é?
É hora de dizer umas verdades
sobre o que tem me deixado muito quieto. Sim, quando toco pelas veredas do
pensamento, as ideias em convulsão é que me pegam para estátua. É assim que a
minha mente funciona: quanto maior o silêncio, maior a tagarelice.
Mas blá-blá-blá que só faz
olhar pro copo d’água não mata a sede. Com o extermínio climático de nem molhar
o bico, hoje, mata-se.
Por isso, sei lá se
crônica pode tirar a leitora ou o leitor da zona de confronto para que
amenidades do dia a dia façam pensar. Mas botar a cabeça para pensar em quê?
Confiro que emudeço quando
o vento muda de lado, e mais frio.
Se ficar imaginando um
jeito decente de viver, não vivo. Tudo bem essa pessoa vir barrar a minha
jornada interior. Não pergunto, ela fala sofrer de uma revolucionária doença
respiratória. Os governos dizem tratar-se de anarquismo. Na dúvida, prefere
viver entre as frestas de ruas e praias, uma vez que sente as alucinações querendo
torná-la num monstro. Em ambientes fechados, os cascos e os cornos pedem
sangue. Hemofóbica, porém, repagina-se a uma parede de distância de si. Não uma
parede qualquer, posto que tem vidro fumê. E precisa da vista pro mar. Mas
cheia de remorsos, com uma história esquisita, porque está coberta de fotos de
gente morta que não para de sofrer. O que explica o sorriso explícito, de felicidade
patogênica.
Lindo mesmo só o sol. E o sol
não está fácil, percebe-se. Muita luz de verão produz criaturas que caminham a
demandar cigarro; outras, a pinga a quem pode os trocados. Ocorre-me um brilho,
entro no meu caminho e passo rente. Não
nego o outro que não nego em mim.
Vão aonde? Ziguezagueando de
bêbados, cambaios de pústulas, verdes de fome, brancos de pânico, sacolas de
trecos e mochilas de troços. Juntam-se aos cães, na praia. Tudo isso pra quê?
Então, crianças, mulheres
e homens vibram na areia. No momento preciso, a gente aplaude. Todo dia, sem
esperanças rotuladas.
Um crepúsculo, um aplauso.
Amanhã, sem a licença dos drones
do mundo, o sol faz a volta. E para dizer o corpo da realidade, longe de capas
sem manchete, entra o sol que abraça e beija.
Com sua sombrinha de
nuvens, a vida toca a bailar.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 09 de fevereiro de
2020.
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