domingo, 16 de fevereiro de 2020

A parte que me cabe


A parte que me cabe

Como criança que, de repente, desperta palpitar de meus olvidos, o convite exalava nítido. A tarde dispunha do sol endoidecido, típico do verão, mais a brisa folgazã, feito leque de senhorinha à espera de limonada. Pus a vontade para decodificar o código como sugestão. E não deu outra. Contando ainda com a cumplicidade da agenda, topei ir aos jardins da orla de Santos.
Em plena uma de terça? Pois, em boa hora, calhou-me a consulta.
Como não frequento clube que cobre pela fidelidade a estatutos, o parque com vista pro mar tratou de me acolher. Acolhimento singelo, de sorrisinho sardônico na carinha de uma pequerrucha que corria ao sabor do salsicha de orelhas dumbísticas, e senhor de seus latidos.
Quer sinal mais terno? Soaria uma afronta obrigar o tempo a ouvir o ramerrão de contas perdidas, torpedos bizarros, compras por fazer, todo dia. Assim, abracei tão de cuca fresca esse idílio.
Sei, parece mesmo um insulto ficar bem com o mundo passando por esta fase nada simples. Nem falarei do derretimento global, basta ler o quanto de água mineral anda sendo vendida no Rio de Janeiro. Nem vou tocar nesse coronavírus, que a China acender o rastilho que põe o mundo em polvorosa sobre o bicharoco de coroa desmascara o abuso da linguagem. Palavras contra os cantões de todo canto.
A realidade talvez quisesse ignorar-me ágil como a mosca de suor que testa o rapaz. Ele tentava coordenar os joelhos, ouvia ordens que não realizava. A esposa enfatizava que as duas patelas deviam olhar pra frente, estrábicas rolariam o equilíbrio pro chão da ciclovia.
Ai, ai, poeta, meu corpo sabe mais de mim do que eu.
Se iludiria a fome com pastel ou sorvete? Não me esganaria, mas as necessidades do organismo socavam a buzina da obscenidade ao desprezar arroz e feijão. Escolhi carne seca com garapa.
Acabarei surdo? Cadê o medo do contágio? Torneira não devasta com a morte? Impressionante, querer tirar o melado do pescoço com a água da torneira?
Sim, perguntas detonam as barreiras do juízo. Por isso, mordi com gosto. De noite, a gastrite iria conversar comigo com os atrevimentos da razão. E quantas perguntas. Ô minhocas pra se reproduzirem com ânimo. Nisso não pincelo facilidades hermafroditas de pintar o amor. Nada sei do hermafroditismo, nem das minhas próprias minhocas.
A ponto do surto, iria pegar o Tatico das seis, refreando a piração, ganho um inesperado, úmido e generoso beijo na bochecha.
A senhora diz que seu neto falou que era uma santa com lugar no céu. Tem reserva, afinal é santa. Que vai pro céu por causa da alma que faz o que pode pelo semelhante. E vai pro inferno também, pra lá seguir cuidando de quem não vive sem ajuda.
Esgotando a miragem do busão desentupido, cai a ficha na minha moringa reconectada. Vivo pedindo água, portanto estou no segundo grupo. Logo? Putz.
Que inferno.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 16 de fevereiro de 2020.


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