terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Um ponto a mais


Um ponto a mais

São seis e pouco da manhã; do alto da sua saia curta e da latinha morna na mão, lá vai a noite, caminho do mar.
Brotando contradições, melhor optar pelo convincente?
Diante da urgência de comprar aquela gramática de usos, eis-me sentado quietinho no metrô, indo da estação Jabaquara à Ana Rosa. Súbito, uma moça de fones, no modelo de equipamento de proteção auditiva, plasticamente brancos, começa a cantar.
Curioso, a primeira reação àquilo foi olhar o entorno. Quero ler na expressão das pessoas, no vagão que não está lotado, a resposta de cada qual. Vejo crianças, retiradas da letargia do sono, cochichando com as parentes responsáveis; certifico a contrariedade em senhores burocraticamente sisudos, a serviço da lida.
Porém, vivacidade benfazeja, garotas dos seus vinte e tantos anos embarcam, desafiam a comodidade da indiferença, sobem em plena melodia em movimento, arriscam afinar a voz à da vanguardista.
Avivo o coração fazendo dele uma doçura, cujo mel alimento com as abelhas dos meus genes de bicho homem. Charles, meu hipócrita poeta, sei lá quando o mundo vai acabar, uma vez que existe digno, venerando, apetecível, e até harmônico. Ouço-o, pois não?
Tal a maneira da jovem sintetizar o que dá por autoridade de si no assimilado de Whitney, Mariah, Beyoncé. Na lindeza de canto. Toca à juventude pôr leveza no maxilar do protético dentro do horário, ajeitar os óculos da vendedora com os carnês na bolsa, fazer a sua parte, mesmo sem saber que o faz.
Que ideia é essa?
Alguém num desses cursos de formação que a gente faz pra dar evolução à carreira, apanho aí, nesse tempo que está em mim, o que a pessoa disse, que: ia Isaac Newton, saindo da floresta, de maçã na mão, quando encontra Robert Hooke. Os físicos de gênio debatem, pondo a maçã no centro do papo. A gravidade da situação? Irritado, Isaac pede ao desafeto que se vá postar sob a macieira pra que lhe caísse na cabeça o pomo da discórdia. Nada disso, ou a coisa ficaria na chatice, Robert morde o fruto. Pra sair do simplório, a anedota do exemplo tem uma segunda parte, e inclui dois outros do balacobaco. Eis que, indo solto pelos relvados do Tiergarten, Albert Einstein dá de frente com Max Planck; eles conversam sobre a relatividade da ideia da maçã caindo na cabeça de Newton. Os dois ficam com essa ideia, pois ter a ideia de comer a fruta não é o mesmo que comê-la. Se bem que, uma vez digerida, a maçã nutra os pensamentos, os sabidos e os até então ignorados. Albert e Max, por certo, acalentam no íntimo que ninguém se livra da ideia depois de absorvê-la.
Entre o vício que embriaga e a virtude que ajuíza, o trem vai.
A bordo de mim, vou indo. A próxima parada?
Passa das onze, a melancolia talvez fundamente a memória. Este domingo tem fogos de artifício lá no kartódromo. Lenta e sutilmente, o bicho da goiaba abocanha-me a vigília.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 21 de janeiro de 2020.

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