Sábio
sabiá
Conhecendo
de antemão qual a resposta, faço novas perguntas.
Soltou o homem, sem ao
menos checar se alguém tinha interesse em escutá-lo. Sua audiência resultava em
mim, o único sentado perto do camará estirado sob um coqueiro, na areia.
Pegou-me no meio da prosa,
de mim pra comigo. Sou desses que pedem ao vento vir depois do almoço, reclamam
do mar ronronante, saúdam a felicidade que dá nos cães.
Podia ouvi-lo, mas lhufas
de pular pra sua rede.
Longe
de longa porque eterna, a vida está por um fio, o instante.
Desconfiado de que acabaria
enredado naquilo, me ocorreu tomar meu sorvetinho em outra parada. Nem parecia
que iria ficar, e fiquei. Pela estupidez, dou trela a quem fala; relapso, não
convém a mim o silêncio. Talvez pelo modo dele falar, queria mais. Daí, peguei
numa birra de empacar, já curioso.
O
mundo levando pro beleléu o Watching the
wheels.
Nem percebi, mas paranoia, quando tem sustância, pega fácil. Eis a esperança atirada no ventilador. E
espalhada, haja nojo. Pelo cheiro, asfixia. Entrei pelo desvio de quem
desconfia que não tem volta, que é pra valer, que a mais recentíssima pandemia mexe
fundo em quem teme morrer. Fora de hora, porque a qualquer momento.
Antes, porém, de carimbar
a extinção da espécie humana tal qual a conheço, ou conhecia até há pouco, a
humanidade que aconchego em mim aceita que o mundo anda zoado. O feijão no
fogo, pra nada. A camiseta do Che, até ela. Perdida a lógica de não ter lógica,
fato. E a riqueza do planeta, vão-se jabutis, saguis, muricis. A estufa sufoca,
corroboro. A abóboda virada em sauna, assevero. O homem precisa ver pra enxergar.
Pra efeito retórico, os mais irados pegam em leques e os mais sensatos aderem a
pileques. Pra já, desfaço o plano de ter as minhas cinzas alimentando o plâncton
do oceano.
E tomei pé das eras. Me
faltava juízo.
Melhor correr pra outro
sorvete, mas a fila denunciava que as pás do ventilador têm girado ao revés. Então,
a caçulinha de Pandora tá com jeito de quem não quer papo? E não tem mais
jeito? Que tortura negar a última bola de baunilha na última ceia. Adeus,
esperança? Se agora é tarde, tudo fica proibido. Pois atire a primeira pedra
quem não dá valor à vidraça. Mas estrago não volta que nem bumerangue?
Tais ideias me deixavam
tonto. Nem sei a que vim, mas vim. Tinha contas pra pagar? Estava por aí por que
estava por aqui? Seria falta de propósito o que comeu a manhã? Da delícia da
casquinha à hora de rangar gostoso. E pedrada não adianta ficar soprando, só
passa tirando a barriga do ronco.
Como sopro súbito arrasta,
pulsão de noroeste bombando, voltei.
Agradecido, sentia-me bem
pelo esclarecimento. O apocalipse às portas não me faz perder a educação. Mas os
bons modos ficaram a ver navio.
No coqueiro sombreando o
colchão, um sabiá sabia assobiar. E tal sabedoria soou linda, uma maravilha, e tudo
mais.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 04 de fevereiro de
2020.
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