Asas
de fora
Puxa vida, o carnaval está fervendo as
coronárias. Pelo jeitão, tem aprontado. Exagero de cervejinha estúpida. Só
falta jogar a culpa no tempo. Ora, calor não estraga assim.
Foi remexendo na escória que estava
constrangida no canto que a casa caiu de madura, ou pela gravidade da vez. E
desembestaram-se curiosos de parapeito e mexeriqueiros do queijo alheio.
Que coisa esquisita. Pode ser do sol. Estranhíssimo.
Algo fora do normal. Será sol excessivo? Será aurora de envilecimento precoce?
Na luz, os porquês exuberam-se.
É preciso analisar, checar seus
meandros, esmiuçar as variações. Sim, linguagem é bicho de tentáculos sem saída
e subterfúgios de mil sentidos. Dá uma confusão palpitante.
Como inversão, o riso solto?
As abelhas, que eram de origem
desconhecida, zuniam ferroadas, milimetricamente precisas num único ponto. Agulhas
que ferravam na língua a carne das palavras, infectavam tão depressa que em
poucos segundos a febre embaçava a íris, branca de leite. O nariz tomado de
reutilidade desestabilizadora, por cada qual narina vertia o fio melado de fel,
vistosa e aromaticamente multicolor. Do ocre ao ouro, da sépia ao argênteo, da
pátina ao rubro, do plúmbeo ao rosáceo. Das papilas afloravam umas veredas,
estupefacientes caminhos, labirintos alados. Por serem abelhas alquímicas,
defecavam vertigens, infectavam suas alucinações, implodiam o real com umas
ideias desviantes, em nome de uma realidade convulsiva. De impregnante colorido,
eram belas as tais abelhas, e vivamente contagiantes, que deliravam o sublime
em quem antes as temia, depois do contato, todavia, muitíssimo o queria. Assim,
pra dar maior lirismo à apoplexia do que à mutação gerada, da bocarra desta
máscara rediviva, saltavam os monstrengos sem cravo. Voavam adagas de aço
denso. Condicionadas a replicar o seu código intenso. Programadas pro vítreo da
nova gênese. A pôr rato a exigir por ratoeira, fabrica-se em coalho de
fatalidades. Tão vívidos os dias deste presente. Como zunido atrás de si,
evaporam-se o oxigênio e o carbono. As flamejantes vespas, numa persona de
gente, cospem pra que se cuspa, mentem com a lábia cristalina dos que vendem o amor
diamantino travestido de lama. Paga-se muito pelo já vencido. Datada e assinada,
a palavra dá por risível a perdição do adicto, do carente de sedições, o que de
mais a mais se vê dando o que nem tem. Pela falta do que dar, avança-se sobre o
futuro. Os dentes práticos cortam, estripam, dessangram, modelam o lodo que
baila. Mais os esquálidos imploram, mais reviram no sal. Assim, o fim que não
chega adormece quem menos se coça. Nos pulmões túrgidos, o encantamento filtra
o torpe, o insidioso e acachapante. Faz-se mel. Mais abelhas eclodem, desabrocham-se
no meio da rua.
Pra alergia da alegria, basta ligar o
ar-condicionado.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 23 de fevereiro de
2020.
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