domingo, 23 de fevereiro de 2020

Asas de fora


Asas de fora

Puxa vida, o carnaval está fervendo as coronárias. Pelo jeitão, tem aprontado. Exagero de cervejinha estúpida. Só falta jogar a culpa no tempo. Ora, calor não estraga assim.
Foi remexendo na escória que estava constrangida no canto que a casa caiu de madura, ou pela gravidade da vez. E desembestaram-se curiosos de parapeito e mexeriqueiros do queijo alheio.
Que coisa esquisita. Pode ser do sol. Estranhíssimo. Algo fora do normal. Será sol excessivo? Será aurora de envilecimento precoce?
Na luz, os porquês exuberam-se.
É preciso analisar, checar seus meandros, esmiuçar as variações. Sim, linguagem é bicho de tentáculos sem saída e subterfúgios de mil sentidos. Dá uma confusão palpitante.
Como inversão, o riso solto?
As abelhas, que eram de origem desconhecida, zuniam ferroadas, milimetricamente precisas num único ponto. Agulhas que ferravam na língua a carne das palavras, infectavam tão depressa que em poucos segundos a febre embaçava a íris, branca de leite. O nariz tomado de reutilidade desestabilizadora, por cada qual narina vertia o fio melado de fel, vistosa e aromaticamente multicolor. Do ocre ao ouro, da sépia ao argênteo, da pátina ao rubro, do plúmbeo ao rosáceo. Das papilas afloravam umas veredas, estupefacientes caminhos, labirintos alados. Por serem abelhas alquímicas, defecavam vertigens, infectavam suas alucinações, implodiam o real com umas ideias desviantes, em nome de uma realidade convulsiva. De impregnante colorido, eram belas as tais abelhas, e vivamente contagiantes, que deliravam o sublime em quem antes as temia, depois do contato, todavia, muitíssimo o queria. Assim, pra dar maior lirismo à apoplexia do que à mutação gerada, da bocarra desta máscara rediviva, saltavam os monstrengos sem cravo. Voavam adagas de aço denso. Condicionadas a replicar o seu código intenso. Programadas pro vítreo da nova gênese. A pôr rato a exigir por ratoeira, fabrica-se em coalho de fatalidades. Tão vívidos os dias deste presente. Como zunido atrás de si, evaporam-se o oxigênio e o carbono. As flamejantes vespas, numa persona de gente, cospem pra que se cuspa, mentem com a lábia cristalina dos que vendem o amor diamantino travestido de lama. Paga-se muito pelo já vencido. Datada e assinada, a palavra dá por risível a perdição do adicto, do carente de sedições, o que de mais a mais se vê dando o que nem tem. Pela falta do que dar, avança-se sobre o futuro. Os dentes práticos cortam, estripam, dessangram, modelam o lodo que baila. Mais os esquálidos imploram, mais reviram no sal. Assim, o fim que não chega adormece quem menos se coça. Nos pulmões túrgidos, o encantamento filtra o torpe, o insidioso e acachapante. Faz-se mel. Mais abelhas eclodem, desabrocham-se no meio da rua.
Pra alergia da alegria, basta ligar o ar-condicionado.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 23 de fevereiro de 2020.

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